Entrevista da Semana Titulo Diaulas Ullysses

Diaulas Ullysses: ‘O Grande ABC esconde histórias interessantes’

Yuri Kumano
Especial para o Diário
02/11/2025 | 20:08
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FOTO: Claudinei Plaza/DGABC
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O escritor e cineasta, Diaulas Ullysses vem se afirmando como uma voz relevante na cena cultural do Grande ABC, dedicando-se à preservação da memória audiovisual local, produção de filmes independentes e publicação de livros que mapeiam a cultura da região. Ele atuou como cineclubista, produtor e coordenador de salas de cinema. Desde meados da década de 1990, dirige curtas-metragens e documentários. Entre suas obras, destacam-se a coletânea de livros ‘Cinemando por Aí!!!’, que reúne depoimentos, imagens e memórias do audiovisual nas cidades da região.

RAIO X

Nome: Diaulas Ullysses Mercedes

DGABC

Aniversário: 12/2

Onde nasceu: Mantena - MG

Onde mora: São Bernardo

Formação: Bacharelado em Rádio e TV

Um lugar: Torre de Miroku

Time do coração: Santos Futebol Clube

Alguém que admira: o cineasta Djalma Limongi Batista

Um livro: Enciclopédia Mazzaropi de Cinema de Antônio Leão da Silva Neto

Uma música: Ainda é Cedo, Legião Urbana

Um filme: Limite (1931) de Mário Peixoto

Sobre sua trajetória no audiovisual, o que mais marcou o sr. no Grande ABC e fora dele?

Minha trajetória no audiovisual começou em 1994. Quando conheci o Djalma Limongi Batista em uma peça de teatro que eu fiz, Calígula. O Djalma dirigiu filmes como Asa Branca: Um Sonho Brasileiro, muito premiado, e depois fiz um filme com ele, chamado Bocage, o Triunfo do Amor, que foi finalizado em 1997. Inclusive, foi exibido no Cine Theatro Carlos Gomes. A partir dali, eu desenvolvi um olhar para o cinema. Eu sempre achei importante ter um olhar cinematográfico no Grande ABC. São sete cidades, uma região muito grande e que eu vejo muito poucas histórias sendo contadas. Sempre tive vários encontros de cinema aqui, na década de 1990, que foi o ápice de todo esse processo. Eu fiz curso em São Bernardo, Santo André, São Caetano e Mauá. Até que surgiu a Escola de Cinema em 2001. Eu sou da primeira turma da Escola Livre de Cinema de Santo André. E através disso, eu continuei contando histórias.

A coletânea ‘Cinemando por aí!!!’ é fruto de anos de pesquisa sobre o audiovisual na região. Qual acontecimento ou história que sr. descobriu surpreendeu mais nesse período?

O Grande ABC esconde muitas histórias interessantes, mas tem um personagem muito forte que eu acho que não é muito reconhecido pelo Grande ABC, que é o Aron Feldman. Ele é do Paraná, mas veio para o Interior de São Paulo, depois para Santo André e começou a fazer filmes, primeiro em Super 8, depois 16, ele não chegou a fazer 35, mas depois começou a fazer em VHS, Super VHS, enfim, ele é uma figura impressionante. Imagina uma pessoa que é quase autodidata nesse processo todo, porque ele era fotógrafo e desenvolveu um trabalho cinematográfico muito vasto e muito aguerrido também. Em momentos complicados no Brasil, como foi a ditadura, ele era transgressor em cima disso. É importante dentro desse contexto, que ele não ficou só em Santo André, foi se espalhando pelo Grande ABC. É uma figura interessante, ganhou prêmios no Rio de Janeiro, no Japão, ele abraçou o universo audiovisual cinematográfico na região e é muito pouco reconhecido. Em São Bernardo e Diadema também tem muitas histórias bacanas, como o Cine Eldorado, na década de 1950, em Diadema, a Dona Carmen ou o Milton Santos, que é um cineasta daqui de São Bernardo, que tem uma longo portfólio, mais de 20 filmes, entre longas, curtas, médias e documentários, ele era uma figura ímpar dentro da Vila São Pedro. Muitas informações e fotos que utilizei nos livros eu consegui resgatar graças ao Diário e ao jornalista Ademir Medici.

O sr. está produzindo um livro sobre a Represa Billings, o que te motivou a contar essa história?

A ideia veio de uma reportagem que eu tinha lido, que a Billings teve um processo de seca. Com isso, eu achei um livro do José Contreras Castilho. Ele escreveu uma apostila sobre a Billings. Quando eu li que 6.000 trabalhadores estavam na construção da represa, aquilo me impactou. Aquilo foi tão forte que eu falei: ‘Nossa, gente, não são seis, 60 ou 600, são 6.000 pessoas’. Não é pouca gente. Eu comecei a pesquisar e vi que a Represa Billings ia completar 100 anos neste ano. Comecei uma busca e encontrei quilos e quilos de material, onde eu achei, inclusive, todas as páginas da Memória (coluna publicada no Diário), do Ademir Medici, e tinha umas impressionantes, como a da seca, com foto e tudo, em que ele fala do cemitério dos polacos que, quando teve a seca, apareceram as lápides, que foi outra coisa me impressionou e me motivou a escrever sobre.

Como o sr. enxerga o papel da memória local (do Grande ABC) no desenvolvimento de uma identidade cinematográfica própria da região?

Sem eles a gente não contaria nossas histórias. Dentro dos centros de memória, são guardados os acontecimentos do Grande ABC inteiro. Então, não é só cinema, tem as práticas, parte política, parte social, econômica, tem várias coisas ali dentro. No meio de tudo isso, esses locais de memória ainda têm espaço para o audiovisual. E não só em fotografia, textos, folders, cartazes, não é só isso. Você tem às vezes áudios também, e tem vídeos. Por exemplo, eu vi o prefeito Celso Daniel falando do cineasta Carlos Zanon, da importância de restaurar ele na década de 1990. Você tem os acervos que são únicos em cada cidade. Eles ajudam você a contar um pouco dessa memória. Então, se você for lá, querendo saber de alguma história, você consegue. E é legal, porque de repente você tá pensando em fazer um filme e lá te dão vários caminhos. Assim como eu cheguei com o interesse na Billings e com o ‘Cinemando por Aí!!!’. Mas sinto que deveria ser algo mais falado, eu acho que a gente não fala de memória, o Brasil deveria falar mais sobre memória.

O sr. foi coordenador de cineclubismo e teve participação em montagem de salas de cinema municipais. Na sua visão, como essas iniciativas contribuem para formar cultura cinematográfica e o pensamento crítico?

O cinema sozinho, ele já é crítico. Se você assistiu um filme e ele te provocou, ali já tá instaurado o lado crítico dele. Eu já assisti filmes três vezes levando pessoas e a gente chorando, falando, conversando e gritando. ‘Que filme é esse’, ‘Que história é essa?’ E aí começa a dissecar. O cineclube está dentro desse contexto que ele faz refletir mais diretamente. Por exemplo, você assiste a obra dentro de um cineclube, não é espaço, ele não pertence a algum espaço, ele é uma ação. Então, dentro dessa ação, você pode fazer em qualquer lugar, dentro da sua sala, em casa, dentro de um galpão, dentro de uma garagem, um espaço de cinema ou uma adaptação de cinema, pega uma TV com crianças, adultos, jovens, enfim, é um local onde você está exibindo o filme. Essa ação é uma cineclubista, é assim que funciona. A partir daí, você passa aquela obra de arte, ao final você tem que conversar. No começo você dá alguns alertas, ‘olha, observem características dos filmes que te provocam’, que é o princípio de um cineclube mais aberto. Não é aquele que fala assim: ‘Ah, vai lá, verifica só a fotografia, verifica só a história, verifique só a parte técnica, ou a parte artística’. Não precisa ser bonzinho com o filme. Não precisa dizer que ele é lindo e maravilhoso. Você tem de fazer um contexto para que você como consumidor faça parte desse debate. E para você fazer parte, você tem que falar o que você sentiu. O que te atrai ali? O que te provoca não não querer o filme? Você pode não gostar, e quando isso acontece geram ótimos debates, É isso que os Cineclubes fazem. É fazer com que você perceba que você tem autonomia de ter opinião. A sua opinião é importante dentro do debate, pois com isso você gera o seu pensamento crítico.

Sobre o Cine Represa, o festival de cinema ambiental no Grande ABC. Qual a importância dele para a conscientização socioambiental na região, e quais são os desafios para mantê-lo ativo?

Criei o Cine Represa com o Denílson de Jesus Silva, nome artístico do Denílson Kattivas. A gente começou a conversar e ele falou: ‘A gente tem que fazer algum projeto’. Falei assim: ‘Olha, eu estou estudando sobre a Billings’. Aí ele: ‘Ah, eu sou ambientalista também’. Até que a gente chegou no festival. Isso foi em 2018. E é uma experiência bem bacana, nós levamos produções sobre a Billings em escolas, institutos, onde tem criança, adolescente, tem terceira idade. Esse ano a gente recebeu 1.700 pessoas na mostra. A gente quer que as pessoas olhem para a represa. Não só para ir lá pescar, ou ir lá na prainha tomar banho, a gente quer que eles também entendam de meio-ambiente dentro desse contexto. A importância dela para a região. No festival nós defendemos a ideia de plantar árvores, não ficar jogando lixo na represa, achando que aquilo é bonitinho. Então o festival traz nesse sentido essa força, de buscar levantar informações e debates, para que se possa até engajar pessoas para poder desenvolver trabalhos de preservação da represa e também o ambiente como um todo.

Se pudesse idealizar um projeto cinematográfico ou cultural para o futuro do Grande ABC (filme, festival, infraestrutura, etc.), qual seria e por quê?

Eu acho que o Grande ABC precisa de uma Film Commission (comissão de filmes), e poderia ser feita pelo Consórcio Intermunicipal Grande ABC, porque abarca todas as cidades. A Film Commission ajudaria as pessoas a filmar melhor dentro das cidades, sem cobrar muito caro de quem vive nesses municípios para desenvolver trabalhos nela. Por exemplo, filmar em parques, ruas, estradas, prédios públicos, você teria um jeito mais simples de fazer isso. Podemos resumir a Film Comission como um escritório de ações. Todo lugar que tem essa ação, sempre tem gente querendo filmar. Porque ela ajuda você a gravar com mais facilidade.




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