Resistência cultural A publicação, contemplada pela 42ª edição do Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, tem tiragem de 600 exemplares e distribuição gratuita
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O teatro nasceu como voz de resistência em Heliópolis e, agora, essa história ganha registro em livro. O coletivo Impacto Agasias, que há 14 anos transforma arte em instrumento de transformação social, lança a obra Impacto Agasias Grupo de Teatro: 13 anos a trocar experiências nas artes de sobreviser identitariamente, escrita pelos pesquisadores Alexandre Mate e Carolina Angrisani. O livro de 236 páginas, lançado na Casa Cultural Alcântara Sampaio, sede do grupo, documenta mais de uma década de criação coletiva, formação artística e luta pela sobrevivência cultural na periferia de São Paulo.
A publicação, contemplada pela 42ª edição do Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, tem tiragem de 600 exemplares e distribuição gratuita. Mais do que uma biografia, o livro mostra como jovens periféricos transformaram limitações em potência criativa, revelando processos de formação e metodologias inéditas. “Revisitar a nossa própria história é uma maneira de revisitar a si sobre os diversos caminhos percorridos dentro dessa jornada, de um sonho que parecia impossível e que vai se concretizando a cada ano”, afirma Wallace Borges, cofundador do grupo ao lado de Henrique Sanchez.
O termo “sobreviser identitariamente”, central na obra, nasceu do próprio cotidiano do coletivo. “É algo construído diariamente. A autora e o autor depositaram em palavras o que já vínhamos vivendo: a luta para existir artisticamente e identitariamente em um território periférico”, explica Henrique. Para ele, o conceito também reflete a trajetória de dois homens gays, ele e Wallace, que, vindos de extremos opostos da cidade, encontraram no teatro um espaço de liberdade e criação.
Criado em 2011 a partir da fusão de dois grupos escolares, o Impacto Agasias se consolidou como referência nacional em teatro periférico e resistência cultural. “Ninguém nunca nos ensinou o que era gestão cultural. Fomos aprendendo na marra, batendo de porta em porta, errando muito até acertar”, relembra Wallace. Segundo ele, o grupo amadureceu sem perder o vínculo com o território: “Deixamos de ser ingênuos e passamos a ser realistas, sem deixar de sonhar.”
Entre os espetáculos que marcaram a trajetória do coletivo estão No Ritmo da Realidade (2011), Santo Cristo – Faroeste Caboclo (2012–2016), A Lenda Sumiu! (2015), Dandara (2017), Cidade do Sol (2020) e Programa Akáshico [peça jogo] (2025). Cada montagem reflete as múltiplas vozes e identidades da periferia paulistana, com temas que vão do empoderamento feminino à cultura popular e à tecnologia aplicada à cena teatral.
Nem sempre, porém, o caminho foi fácil. O grupo enfrentou dificuldades estruturais, como uma inundação que quase destruiu seu acervo. “Foi um dos casos mais difíceis que passamos, mas também o momento em que sentimos a força do nosso coletivo e da nossa rede de apoio”, recorda Henrique. “Durante oito anos sobrevivemos sem recursos, tirando do bolso para fazer o que acreditamos. A arte sempre foi o nosso modo de resistir.”
A criação da Casa Cultural Alcântara Sampaio, em 2021, foi um marco nessa trajetória. O espaço, que abriga oficinas, saraus e espetáculos, se tornou um ponto de encontro entre artistas e comunidade em Heliópolis. “O teatro é uma grande ferramenta de educação e comunicação, pois através dele conseguimos alcançar todo tipo de público”, diz Wallace.
Para o futuro, o Impacto Agasias quer seguir fortalecendo sua autonomia e reivindicando mais reconhecimento para a arte feita nas periferias. “A cultura periférica ainda precisa ser valorizada de forma real, não só financeiramente, mas simbolicamente”, defende Henrique. “Queremos menos tutela e mais parceria, porque nós, artistas periféricos, precisamos trabalhar o triplo para ter o mesmo reconhecimento que o centro recebe automaticamente.”
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