Setecidades Titulo Sete anos depois

Menos de 1% dos alunos da UFABC possui cotas trans

Faculdade é pioneira no Estado na implementação dessa política; estudantes relatam desafios

Beatriz Mirelle
19/10/2025 | 00:00
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FOTO: Celso Luiz/DGABC
FOTO: Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Sete anos após a aprovação das cotas trans na UFABC (Universidade Federal do ABC), menos de 1% do corpo estudantil é composto pela comunidade transgênero. Atualmente, são apenas 130 dos 20.967 alunos matriculados na graduação e pós-graduação. Apesar de ser a faculdade pública pioneira na implementação dessa política no Estado de São Paulo, os estudantes relatam as dificuldades de permanência e reiteram a necessidade de mais representatividade.

Graduanda no bacharelado de Ciências e Tecnologia, Sarah Ísis, 21 anos, deixou a família na Bahia no ano passado para estudar na região. Segundo ela, os impasses para continuar os estudos envolvem restrições financeiras e transfobia. 

“Trabalhei como empreendedora para juntar dinheiro e vir para cá. Escolhi a UFABC porque quero ser pesquisadora, mas tem sido desafiador. As bolsas socioeconômicas ajudam, mas é um valor pequeno para quem mora na Região Metropolitana de São Paulo. Além disso, mesmo com ações de apoio à diversidade, ainda falta muito para isso se consolidar”, relata a moradora da Vila Curuçá, em Santo André.

DGABC

Sarah ressalta que foi alvo de ofensas de um professor logo quando entrou na faculdade. “Ele me abordou de forma grosseira na sala de aula. Começou a gritar, me chamou pelos pronomes masculinos. Tranquei a matéria e tentei denunciar para a ouvidoria, mas não dei continuidade por questões pessoais. É essencial que a diretoria aumente campanhas de conscientização e ofereça apoio psicológico.”

A UFABC aprovou a criação de cotas para estudantes transgêneros em cursos de graduação em outubro de 2018, sendo que o processo seletivo de 2019 foi o primeiro com essa política em vigor. A faculdade reserva 1,5% do total de vagas para pessoas trans na graduação. Os candidatos devem obter aprovação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e participar do Sisu (Sistema de Seleção). 

PÓS-GRADUAÇÃO

Na pós-graduação, as cotas foram aprovadas em 2021 e cada programa deve acrescentar ao menos uma vaga (sobrevaga) para candidatos trans. “Soube das cotas em curso preparatório on-line voltado para a comunidade trans. Sou a primeira pessoa da minha família a entrar em uma pós”, relembra o produtor cultural Fadel Gutierrez, 24 anos, morador da Vila Alice, em Santo André. Ele é um dos seis alunos trans inscritos na pós-graduação da universidade. 

“Quando falam de pessoas trans em sala de aula, é sempre de uma perspectiva muito distante. Parece que esquecem que estou lá e que essas vivências que eles estão falando fazem parte da minha vida”, detalha o mestrando do programa de políticas públicas.

Gutierrez almeja realizar trabalhos de produção cultural voltado à comunidade LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexuais, assexuais, entre outras orientações sexuais e identidades de gênero). A curto prazo, ele planeja criar um coletivo de pessoas trans para debater como tornar o campus realmente respeitoso. 

“Frequentemente, na universidade, ouço comentários em relação à minha aparência, ao meu jeito. Percebo, em alguns momentos, que não estão rindo comigo, mas sim de mim. São situações veladas, que deterioraram muito meu quadro de ansiedade. Por sorte, tenho uma forte rede de apoio e auxílio psicológico.”

Ele afirma que, quando pensa em abandonar a instituição, tenta lembrar de outros colegas trans que sonham com a trajetória acadêmica. “Quando entrei na UFABC, recebi mensagem de conhecidos falando sobre a importância de verem uma pessoa igual a eles na universidade. Se eu evadir, eles vão entender que não conseguem ficar nesses espaços. Penso na minha carreira, mas também na comunidade que faço parte.”

QUESTIONADA

A UFABC declara, em nota, que mantém políticas de inclusão focadas no combate às violências e possui sistema institucional para denúncias. 

“Existe uma comissão dedicada ao enfrentamento de assédio moral, sexual e institucional, que abarca casos de discriminação, incluindo a transfobia, além de outra que trata de questões relacionadas à diversidade. Denúncias são recebidas pelo serviço de ouvidoria e a UFABC promove campanha informativa contínua sobre o enfrentamento dessas situações.”

Não quero ser a única, diz professora da universidade 

A professora titular do Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC (Universidade Federal do ABC), Ana Lígia Scott, pontua que a falta de representatividade torna a trajetória acadêmica solitária e as cotas trans auxiliam no processo para reverter esse cenário desigual. Ela afirma que é a única pessoa transgênero dos 868 docentes da instituição.

“Não quero ser a única. Até hoje, nunca consegui encontrar outra docente trans na minha área em congressos nacionais ou internacionais. Quero que tenhamos mais professores e mais pesquisadores trans. O sistema tem que estar preparado para isso”, expõe a líder do Laboratório de Biologia Computacional e de Bioinformática da UFABC.

Ana Lígia recorda que travou uma batalha com o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em relação ao nome social. “O currículo lattes não permitia essa mudança na plataforma para pessoas que não tinham os documentos retificados. Tive uma briga grande, insisti, falei que era pesquisadora, que estava ficando constrangedor. Após muita luta, mudaram o sistema para todo o País. Hoje, o aluno de iniciação científica ou pós-graduação, por exemplo, que tem bolsa no CNPq e ainda não tem documentos retificados, pode cadastrar o nome social mesmo assim”, comenta a professora, que leciona na UFABC desde 2007. 

“Ser a primeira pessoa trans em algum espaço é duro, mas me orgulho quando vejo que ajudei a mudar um pouco as coisas.” Para ela, as cotas são uma forma de combater vulnerabilidades sociais nas quais a comunidade está inserida e possibilitam que os alunos sonhem com novas realidades. 

“A ideia é que a universidade seja um centro para desenvolver pensamentos. Quanto mais diversidade tiver, os debates ficam mais ricos. O trabalho para gerar mais acolhimento deve ser frequente.”

Na região, apenas a UFABC e a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) campus Diadema têm cotas para pessoas trans. A USCS (Universidade Municipal de São Caetano) aponta que, dos 11.289 estudantes, 20 são trans (0,17%). As Fatecs (Faculdade de Tecnologia de São Paulo) de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá têm 6.199 estudantes, sendo que 11 usam nome social (0,17%). 

Já a Universidade Metodista de São Paulo reforça que o censo institucional está em andamento, mas reiterou que não tolera qualquer tipo de preconceito. A Faculdade de Medicina do ABC declara apenas que “conta com núcleos integrados por professores e alunos que promovem espaços de escuta sobre diversidade e gênero.”

A Unifesp, Instituto Mauá de Tecnologia, FEI e Fundação Santo André não encaminharam os dados sobre quantidade de alunos trans até o fechamento da edição.<TL>




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