Outubro Rosa Outubro Rosa promove alerta sobre a doença; médico reforça importância do diagnóstico precoce
Angiola Harry/Unsplash

O número de diagnósticos de câncer de colo de útero cresceu 87% nas cidades do Grande ABC entre 2023 e 2024. Levantamento feito junto às Prefeituras aponta que os municípios registraram, somados, 126 casos em 2023 e 236 no ano passado. Em 2025, os dados parciais indicam 92 ocorrências.
O aumento mais expressivo ocorreu em Santo André, que saltou de 40 registros em 2023 para 110 em 2024, quase o triplo. São Caetano também apresentou crescimento acentuado, de 21 para 61 casos (alta de 190%), enquanto Rio Grande da Serra dobrou os diagnósticos, passando de quatro para oito. (Veja os dados por cidade na tabela acima)
Ribeirão Pires, por sua vez, informou apenas o total consolidado de diagnósticos entre 2022 e 2025 (com 21 casos), sem detalhamento por ano. Por isso, não é possível contabilizar se houve aumento ou redução no período. Mauá não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.
Tradicionalmente voltado à conscientização sobre o câncer de mama, o Outubro Rosa passou, nos últimos anos, a incluir também o alerta para o câncer de colo de útero.
O movimento reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso facilitado a exames preventivos, como o papanicolau, considerados essenciais para reduzir a mortalidade entre as mulheres.
Segundo o oncologista clínico e oncogeneticista Bruno Abdo, o câncer de colo de útero é uma doença de desenvolvimento lento, o que torna o rastreamento fundamental. “A doença começa, geralmente, com alterações nas células do colo do útero causadas principalmente pelo HPV (Human Papiloma Virus). Essas lesões podem levar de 10 a 20 anos para se tornarem um câncer invasivo, se não forem tratadas precocemente”, explica.
O especialista destaca que os tipos HPV 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos e que a infecção prolongada por esses vírus pode provocar mutações no DNA das células. “Muitas vezes é uma doença silenciosa. Os primeiros sinais, como sangramento fora do período menstrual, dor durante a relação sexual ou corrimento anormal, aparecem quando o câncer já está mais avançado”, completa.
O exame de papanicolau, principal ferramenta de detecção precoce, é oferecido gratuitamente nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde). Além dele, a colposcopia e exames de imagem ajudam a avaliar a extensão da doença. Quando diagnosticado em estágio inicial, o câncer de colo de útero tem altas taxas de cura, mas casos avançados exigem cirurgia, radioterapia e quimioterapia, e, em situações específicas, imunoterapia.
‘NÃO OUVI MAIS NADA’
A rotina de exames preventivos foi o que levou Manuele Caroline, 33 anos, moradora de Santo André, a descobrir a doença ainda em tempo de tratamento. Mãe e estudante de estética, ela conta que, após o nascimento dos filhos, deixou de lado o autocuidado. “Quando a gente se torna mãe, acabamos nos esquecendo de nos cuidar. Trabalho, correria, e sempre vai deixando para depois”, diz.
O diagnóstico surgiu de forma inesperada, quando procurou um médico para pedir a laqueadura. “O doutor me pediu o exame papanicolau. Depois recebi uma mensagem para ir ao AME (Ambulatório Médico de Especialidades) e achei que era sobre a cirurgia, mas era para fazer uma biópsia”, lembra. O resultado foi positivo para o câncer. “Depois do positivo, não ouvi mais nada. Fiquei sem chão”, relata.
Manuele passou por cirurgia há um mês e segue em fase de tratamento. Apesar do impacto emocional, decidiu manter a rotina. “Acordo às 4h, vou para o trabalho no posto de gasolina, depois para o curso, e ainda cuido dos meus filhos. Escolhi não me entregar. Se eu desistisse de mim, estava desistindo dos meus ideais”, afirma.
Hoje, ela se orgulha de ter enfrentado o medo e aprendido a se priorizar. “Mesmo com muitas noites chorando, achando que iria morrer, não joguei a toalha. Agora olho mais para mim, com mais amor, e sempre falo para às mulheres ao meu redor sobre a importância do exame preventivo.”
Após o tratamento, o acompanhamento regular é essencial para evitar recidivas. “Mulheres que passaram pela doença devem manter consultas periódicas e repetir os exames conforme orientação do oncologista clínico ou ginecologista”, orienta o especialista Bruno Abdo.
Prefeituras intensificam ações na região
Durante o Outubro Rosa, as Prefeituras intensificam ações de prevenção e rastreamento dos cânceres de mama e colo de útero, reforçando a importância do diagnóstico precoce. Santo André e São Bernardo realizam o Dia D de atendimento neste sábado (18), com coleta de papanicolau, vacinação e orientações sobre autocuidado nas UBSs dos municípios.
São Caetano amplia o acesso ao exame preventivo, que pode ser feito sem agendamento, enquanto Diadema promove a oferta dos exames e ações de conscientização durante o mês.
Ribeirão Pires aposta em palestras, rodas de conversa e grupos educativos para incentivar hábitos saudáveis e a realização dos exames, enquanto Rio Grande da Serra investe na capacitação de médicos e agentes comunitários para aprimorar o rastreamento e acompanhamento dos casos.
Em 2025, quatro cidades da região contabilizaram 335 diagnósticos de câncer de mama. Os dados são de São Bernardo (296), Diadema (27), Ribeirão (10) e Rio Grande da Serra (2) - os demais municípios não informaram.
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