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Quero ser, ou somos todos Odete Roitman?

Marli Gonçalves
12/10/2025 | 07:01
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 Apostas, opiniões, teorias da conspiração, parece jogos de 7 erros. Ilustrativa essa nova catarse em torno de Vale Tudo 37 anos depois da versão original. As coisas mudaram ao ponto de existir torcida para que a terrível vilã não tenha nem sido assassinada – uma vez que hoje nem é considerada tão vilã assim, como justificam, com alguma simpatia. Dizem que suas frases são sinceras. Bilionária, esperta, lasciva, pode ter arquitetado um plano para se ver livre de tanta gente chata e problemática que a rodeia.

Pode ser? Pode, primeiro porque virou mania na ficção o morto que não morreu, presente em vários dos folhetins como recurso manjado. Na vida real são mesmo um fracasso as investigações que elucidem crimes, e acabaram de sair dados – Justiça esclarece somente 36% dos homicídios ocorridos no Brasil. Já pensaram se resolvem que o caso da Odete Roitman está entre eles, sem solução? Convulsão social, greve geral, povo nas ruas, que parece que a sociedade agora só se mobiliza de verdade com assuntos assim e fofocas da vida sexual dos outros.

O amor e admiração pela Odete passa pelo perigoso cansaço do politicamente correto, para o bem e para o mal, nessa discussão se vale tudo para se dar bem. Protagonistas negras, sucesso em empreendimentos, pobres com filosofia, luta contra o alcoolismo, etarismo, feminismo, relações fluidas, assédio e humilhações convivem silentes com a corrupção, inclusive policial e política, e desatinos de todos os tipos.

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Justamente como vemos acontecer todos os dias, embora nossas grávidas tenham barriga, elas não somem e voltam, e ninguém seja maluco de ir prestar depoimento sério assim na delegacia sem um advogado ao lado, coisa que movimentou até protestos da OAB. No meio de tudo isso, os odiosos merchandisings de tudo, caindo do céu nas cenas, de sabão, xampu a automóveis caríssimos que só lá pobres compram, do governo e programas sociais e instituições como o AA, a comemorações sempre fartamente regadas a Coca-Colas.

Não precisam dizer a mim que tudo, à exceção do merchandising, é ficção, que bem sei. Mas é o tema da semana, e vai continuar. Mesmo com acordos para acabar guerras sangrentas, Prêmios Nobel, destituição de mais um (uma) presidente no Peru, aposentadoria do Barroso no STF que já movimenta o rebolado do poder, tarifaço, COP30 na portinha, veneno nas garrafas...

Dia da Padroeira Nossa Senhora Aparecida, Dia das Crianças, Dia do Professor. Que semana! Mas se depois do fim da novela, ainda sentir falta de horrores sintonize em A Fazenda, que lá o esculacho é real, ao vivo. Com direito até a um clone de Silvio Santos e cuspes. Não como se todos fossem Odetes Roitman, mas como se todos fossem apenas lhamas.

Marli Gonçalves é jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo e autora de Feminismo no Cotidiano, da Editora Contexto.




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