Em 26 de dezembro de 1992, intoxicações por metanol em festa de Diadema deixaram dezenas de pessoas em estado grave e três mortos
ARTE: Agostinho Fratini

Vinte e três anos após um grave registro, a intoxicação por metanol voltou a provocar uma crise na saúde pública do País. O falecimento da esteticista Bruna Araújo de Souza, 30 anos, em São Bernardo, fez a região relembrar a noite de 26 de dezembro de 1992, quando Diadema viveu uma tragédia que resultou na morte de três jovens e deixou dezenas de pessoas em estado grave. O Diário noticiou os casos detalhadamente, acompanhando de perto a repercussão da tragédia na região.
A substância, na época, estava disfarçada na popular bebida de baixo custo conhecida como bombeirinho, servida na casa noturna Roof II, no bairro Piraporinha. O bombeirinho era uma mistura de vodca, groselha, açúcar e suco de limão. No entanto, a ingestão da bebida adulterada com metanol, um álcool combustível, levou cerca de 150 pessoas a passarem mal e buscarem atendimento no antigo pronto-socorro do HPD (Hospital Público de Diadema). As vítimas apresentaram sintomas como tontura, dor abdominal, vômito e, nos casos mais graves, paralisia e coma.
A primeira vítima fatal foi Tânia Cristina Cardoso Rodrigues, 21 anos, empregada doméstica. Ela passou mal na tarde de domingo, 27 de dezembro, um dia após a festa, com fortes dores de estômago, tontura e vômitos, antes de falecer. A causa da morte foi inicialmente classificada como indeterminada pelo IML (Instituto Médico Legal), que aguardava exames necroscópicos e toxicológicos para confirmar a presença do metanol. Pouco tempo depois, a família confirmou o óbito provocado pela substância.
“Ela reclamava de dor no estômago, tontura e vomitava muito”, relatou à época Lindiomar Rodrigues Almeida, irmã de Tânia, ao Diário. Naquela noite, Tânia tomou banho e foi se deitar. No dia seguinte, quando a mãe foi chamá-la, percebeu que a jovem estava morta.
Em seguida, a bebida contaminada vitimou Luiz Gonzaga do Nascimento, com 18 anos na época. A terceira vítima foi Manoela Aparecida Silva de Andrade, 25, mãe de dois filhos. Ela entrou em coma profundo na UTI do HPD, chegando ao hospital paralisada do pescoço para baixo. Seu companheiro, Álvaro Cardoso Leite, 21, contou que Manoela consumiu pelo menos dois copos da bebida. Ao sair do baile, ela sofreu convulsões, perda momentânea da visão e vômitos. Sofreu três paradas cardíacas e permaneceu em estado vegetativo até morrer na madrugada de 2 de janeiro.
A suspeita de envenenamento por metanol foi levantada rapidamente. O então diretor do HPD, Leonardo Duarte, confirmou que as primeiras análises de sangue e urina dos pacientes já indicavam a presença da substância. Em um caso relacionado, a estudante Andréa Mara Vicente, 21, foi internada na Beneficência Portuguesa de Santo André após ingerir vodca coquinho contaminada com metanol em uma lanchonete da cidade. Em entrevista ao O Globo, em reportagem publicada em 2 de outubro, a hoje advogada relatou as dificuldades que enfrentou ao longo da vida, já que o episódio a deixou cega.
Além deste caso, na Bahia, em 1999, 35 pessoas morreram por intoxicação por metanol em dez cidades. Na época, quatro suspeitos foram presos pelo crime e a diligência policial considerou a adulteração como criminosa.
Apesar das investigações, não há registros de prisões relacionadas aos casos de Diadema e Santo André em 1993. Em 2025, até este domingo, seis pessoas morreram por intoxicação em São Bernardo, e 154 ocorrências estão sendo investigadas.
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