Impacto Vice-reitor da FMABC alerta sobre falhas na fiscalização de produtos
FOTO: Biodiesel Brasil

O aumento de casos de intoxicação por metanol no Grande ABC tem preocupado profissionais da saúde e exposto limitações na detecção da substância em exames laboratoriais. Para o professor Fernando Luiz Affonso Fonseca, vice-reitor e coordenador do Laboratório de Análises Clínicas do Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), a situação revela uma combinação de fatores clínicos complexos e falhas graves na fiscalização de bebidas adulteradas.
“O primeiro impacto clínico é que os pacientes são jovens. Às vezes, é difícil tirar o histórico, entender a cadeia de instalação de sinais e sintomas para poder elaborar uma hipótese diagnóstica. São casos graves, o manejo do paciente é difícil e necessita de intervenção rápida”, explica o especialista.
Do ponto de vista laboratorial, ele afirma que a detecção do metanol requer métodos sofisticados, disponíveis apenas em centros especializados. “A metodologia para se determinar metanol é muito robusta, que é a cromatografia gasosa. Não está disponível para todos os laboratórios. A maioria manda as amostras para um laboratório de apoio, que com certeza neste momento está sobrecarregado por conta da quantidade de suspeitas”, detalha.
O diagnóstico, segundo Fonseca, depende também de exames complementares, como a gasometria arterial e cálculos bioquímicos que avaliam a acidose metabólica. “A dosagem do metanol tem que ser feita imediatamente após a suspeita. Sem tratamento, a meia-vida plasmática é de 12 a 24 horas, mas pode chegar até 90 horas quando se inicia o tratamento com etanol ou fomepizol, que bloqueiam a metabolização e impedem a formação das substâncias tóxicas”, explica.
O especialista ressalta ainda que o cenário atual evidencia problemas estruturais. “O que mais chama atenção nesses casos é a falta total de controle da venda e do consumo desses produtos nas principais cidades do País”, alerta.
“O que estamos vendo são jovens que saíram para se divertir e, mesmo com pouco consumo, acabaram perdendo a vida. Isso mostra uma fragilidade enorme do nosso sistema de fiscalização, tanto da produção quanto da distribuição de determinados produtos”, conclui Fonseca.
No Grande ABC, 123 casos de intoxicação por metanol e seis mortes estão sendo apuradas – na terça-feira (7) eram 108 registros. São Bernardo recebeu 82 notificações de suspeita, sendo uma confirmada. Em Santo André, são 13 casos suspeitos e nenhum confirmado; São Caetano investiga seis; Diadema, 15; Mauá, seis; e Ribeirão Pires, um.
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, São Paulo registra 201 casos, com 181 em investigação e 20 confirmados. São 11 óbitos, sendo cinco confirmados e seis em investigação. Em todo o País, há 217 casos em investigação.
Para agilizar a confirmação laboratorial, a secretaria reforçou o fluxo de análise da rede estadual. Pelo novo protocolo, as amostras de sangue ou urina coletadas nos serviços de saúde são enviadas ao Latof (Laboratório de Toxicologia Analítica Forense), da USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto, e ao CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) da Unicamp. Os laudos são disponibilizados em até 24 horas.
Essa logística conta com o apoio do IAL (Instituto Adolfo Lutz), responsável por coordenar o transporte dos materiais e garantir que os casos suspeitos recebam diagnóstico com brevidade. A Pasta pontua que “desde a adoção do protocolo, o LATOF vem recebendo e processando rapidamente as amostras encaminhadas pelo IAL, assegurando uma resposta ágil que auxilia no manejo clínico dos pacientes e na tomada de decisões nos serviços de saúde.”
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