Editorial
FOTO: DGABC

A situação cada vez mais crítica do Sistema Cantareira escancara problema que vem se repetindo sem solução de longo prazo: a vulnerabilidade do abastecimento de água na Região Metropolitana de São Paulo, que inclui o Grande ABC. A última significativa mudança na política hídrica ocorreu ainda em 2014, no governo Geraldo Alckmin, com a interligação de represas. Desde então, nenhuma medida estrutural relevante foi implementada, apesar de os níveis de chuva e os volumes dos reservatórios evidenciarem variações cada vez mais acentuadas. Reduzir a pressão da rede no período noturno, como vem fazendo a Sabesp, é recurso paliativo que não responde à magnitude da questão.
A dependência de mananciais cada vez mais instáveis exige que o Estado avance para além da lógica emergencial e construa planejamento abrangente. O cenário atual mostra que ajustes pontuais não bastam para garantir abastecimento regular em períodos de estiagem. Experiências internacionais indicam caminhos possíveis. Israel, por exemplo, apostou em tecnologias de dessalinização e reuso de água para enfrentar seu ambiente árido, ampliando a oferta mesmo em anos de seca severa. A Espanha investiu em redes de interligação mais modernas e eficientes, permitindo maior flexibilidade na transferência entre bacias. Alternativas existem e podem ser adaptadas à realidade paulista.
O Grande ABC, altamente dependente do Cantareira e de outros reservatórios sob pressão, não pode permanecer refém de medidas reativas. Uma nova política hídrica precisa considerar a diversificação das fontes de captação, o incentivo a sistemas descentralizados de armazenamento e reuso, além de campanhas permanentes de consumo racional. Essa revisão não deve se limitar a grandes obras, mas incluir inovação tecnológica e governança transparente sobre a gestão da água. A cada estiagem mais severa, a população sente os efeitos de um modelo ultrapassado. É hora de planejar com consistência, para que as sete cidades deixem de correr o risco recorrente de ficar com as torneiras secas.
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