Fenômenos da música brasileira Banda de Guarulhos realizou três shows na região, sendo um deles, há exatas três décadas, em São Caetano
FOTO: Reprodução

“Vamos tocar fantasiados, como sempre, mas não sabemos qual fantasia vai estar limpa no domingo”, disse o tecladista do Mamonas Assassinas, Júlio Rasec, a este Diário, sobre o show que realizariam na matinê na Twist’s, na Avenida Goiás, em São Caetano. A apresentação do grupo, em um dia como este, em 17 de setembro de 1995, seria a segunda entre as três ocasiões em que o quinteto de músicos esteve na região. Assim como o espetáculo, o sucesso do grupo também completa 30 anos em 2025, com perspectiva de ampliação da marca e oportunidade para novos artistas.
Na época, Júlio revelou ao Diário as opções de roupas para aquela tarde em São Caetano, para o show que começou às 14h: “presidiários, He-Man, modelinho Hebe Camargo ou roupinhas pré-escolares”. Não se sabe com exatidão qual roupa o quinteto de Guarulhos formado por Dinho (vocais), Samuel (baixo), Júlio (teclados), Sérgio (bateria) e Bento (guitarra) usou, mas a possibilidade é que os Mamonas vestiram todas as opções, com trocas no decorrer do show, como foi feito na terceira data no Grande ABC, em Santo André, no dia 28 de outubro daquele ano, no Clube Atlético Aramaçan.
Os Mamonas Assassinas foram um dos maiores fenômenos da música brasileira nos anos 1990, alcançando números impressionantes em tempo recorde. A banda lançou seu único álbum em junho de 1995, com sucessos como Vira-vira, Pelados em Santos e Robocop Gay, e vendeu mais de 3 milhões de cópias em menos de oito meses. Em pouco tempo, conquistaram o País com seu estilo irreverente, misturando rock, pop e ritmos populares com letras de humor escrachado, o que levou a banda a fazer cerca de 200 shows entre 1995 e 1996, muitos deles em estádios e ginásios lotados, além de atingir índices de audiência altíssimos na TV.
Carlos Alessandro Prozzo, renomado nome na produção de shows e responsável pelo evento em Santo André, relembra a passagem pela região, citando também a primeira apresentação do grupo, realizada em tamanho inferior. “Teve esse show de outubro, mas eles vieram também em agosto (sem data), em uma apresentação em uma festa minha na mesma cidade. Estive com Rick Bonadio e eles ainda não tinham fama, depois estouraram do dia para noite”, contou o produtor.
Quando se apresentaram no Aramaçan, antes de subir ao palco, os integrantes chegaram cedo ao local e passaram a tarde em um dos quiosques do clube, onde participaram de um churrasco com sócios e amigos. “Eles ficaram a tarde inteira com a gente. Nem parecia que tinha show. Comeram churrasco, ficaram lá. O Dinho apareceu no fim, mas também foi lá comer uma carne com a gente”, relembra Prozzo, que recorda ainda a amizade próxima que manteve com o baterista Sérgio, fã assíduo de seu programa Rock Soccer, transmitido pela Rádio 97 quando ainda era voltada ao rock.
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LUTO
O sucesso meteórico, comparável a fenômenos internacionais, foi interrompido de forma trágica em 2 de março de 1996, quando os cinco integrantes e mais membros da equipe morreram em um acidente aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo. Cerca de 20 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, acompanharam o enterro, realizado no dia 4, nas imediações do Cemitério Jardim das Primaveras, em Guarulhos. Antes da morte, a banda voltava de um show em Brasília.
Na época, Hildebrando Alves Leite, pai de Dinho, disse ao Diário que o filho não queria ir ao show. “Ele preferia ficar em casa com a família para depois viajar no domingo”, disse ele, em relato escrito em uma das três páginas de cobertura do jornal para a despedida. Trinta anos depois, ele voltou a falar sobre a dor de perder o filho. “Antes do acidente era tudo bom, bonito e alegre, foram seis meses diferentes da vida inteira. Ele levava a vida na brincadeira. É uma chateação, um pensamento que a gente nunca vai tirar da cabeça, mas é vida que segue. Não posso baixar a cabeça.”
Naquele dia, o guitarrista Bento Hinoto foi enterrado com sua guitarra. Já Dinho, torcedor fanático do Corinthians, levou consigo duas camisas do clube do coração, colocadas no caixão por amigos e familiares, sendo uma de basquete masculino e outra do futebol profissional.
Banda renasce com legado e instituto
Mesmo com seu fim há 30 anos, o legado da banda segue firme e se expande. Apenas no Spotify, serviço de streaming de música, o grupo reúne 1,4 milhões de ouvintes mensais, número superior a artistas brasileiros que tocaram na última semana nos principais palcos do The Town, um dos maiores festivais do Brasil, como Karol Conka (255 mil), Supla (101 mil), Di Ferrero (219 mil), Priscilla (777 mil), Os Garotin (1,2 milhão) e Joelma (583 mil).
Jorge Santana, primo de Dinho e CEO da marca Mamonas, explica que o grupo continua a despertar “o que há de melhor nas pessoas”. Desde 2017, Jorge coordena a profissionalização da marca, que engloba shows, produtos licenciados e projetos culturais, incluindo um musical e um filme sobre a banda.
“Junto com a minha família, criamos a Mamonas Produções para dar vida a esses projetos”, conta. Segundo ele, a popularidade da banda atravessa gerações, além de diversos países. O próximo passo é ampliar o Instituto Mamonas, voltado para música, cultura e inclusão. “A instituição quer dar oportunidade. Acreditamos que a arte pode mudar a vida das pessoas, assim como o esporte. Queremos ensinar a tocar violão, compor, roteirizar e trabalhar com inclusão e autismo”, explica Santana.
Para o CEO, o propósito da iniciativa está ligado a uma filosofia que Dinho sempre defendia: “A gente não pode tirar a esperança de ninguém, porque pode ser a única coisa que ela tenha.”
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