Entrevista da Semana
FOTO: Claudinei Plaza/DGABC

O diretor de Comunicação Corporativa e Relações Institucionais da Mercedes-Benz, Luiz Carlos Moraes, afirma que temas como eletrificação, descarbonização, automação, conectividade, segurança veicular e conforto aos usuários, farão com que em uma década a indústria avance mais do que nos últimos 100 anos. Entretanto, aponta que, no caso dos ônibus, a troca da frota a diesel por veículos elétricos passa pelo investimento em infraestrutura.Moraes, que também é vice-presidente da Anfavea e já presidiu a entidade que reúne os fabricantes (2019 a 2022), comenta ainda a questão dos juros altos e os impactos do tarifaço dos Estados Unidos a produtos brasileiros.
RAIO X
Nome: Luiz Carlos Moraes
Aniversário: 14 de setembro
Onde nasceu: São Bernardo
Onde mora: São Paulo
Formação: Economia
Um lugar: Toscana (Itália)
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: Ayrton Senna, piloto de Fórmula 1
Um livro: Uma Terra Prometida, de Barack Obama
Uma música: With or Without You, U2
Um filme: Adolescência (2025), minissérie dirigida por Philip Barantini
A fábrica de São Bernardo da Mercedes-Benz completa 70 anos em setembro de 2026. Qual a importância dessa unidade para a companhia?
A Mercedes, junto com outras empresas do setor automobilístico, começou a indústria automotiva aqui no Brasil. A Mercedes é de 1956. E como no Brasil, naquela oportunidade, não tinha mão de obra preparada, não tinha fornecedores, a Mercedes ajudou a construir essa indústria que é muito forte no Brasil, que hoje é o sexto maior mercado de veículos automotivos (do mundo). E a Mercedes tem uma história muito forte em caminhões e ônibus, a partir da nossa fábrica de São Bernardo.
Seria possível estimar a quantidade de caminhões e ônibus que foram produzidos em São Bernardo ao longo dessas quase sete décadas?
Com certeza, mais de 2,5 milhões de veículos comerciais produzidos. Talvez um dos maiores números da indústria do setor de veículos comerciais. Temos uma importância muito grande dentro do grupo Daimler Truck (com 35 unidades no mundo). Chegamos a ser o primeiro mercado de caminhões do mundo da marca Mercedes-Benz. Em ônibus também somos muito fortes, talvez o primeiro também dentro do grupo. E a participação na América Latina e no Brasil também são muito relevantes. Temos muito orgulho da nossa história, do que nós construímos. Participamos também da evolução da tecnologia de caminhões no Brasil e de muitas coisas que hoje são disponíveis em termos de desempenho, segurança dos veículos, conforto para o caminhoneiro, que é o quem está no dia a dia. É importante destacar que temos um centro de pesquisa e desenvolvimento aqui no Brasil. Com aproximadamente 800 técnicos e engenheiros, que desenvolvem os veículos que são produzidos para esses mercados, que têm características diferentes dos vendidos na Europa, por conta das estradas, altitude, o calor, topografia que existem aqui na América Latina.
Para quantos países a Mercedes exporta caminhões e ônibus produzidos em São Bernardo?
Isso é uma história legal, porque a Mercedes é uma das pioneiras a fazer exportação (de veículos). A partir da fábrica de São Bernardo, a gente exporta para mais de 50 países. Tanto caminhões como ônibus. Temos uma exportação bem variada, para os principais países da América Latina, como Argentina, Peru, Chile, Bolívia, Colômbia, outros países da região Norte da América Latina, Oriente Médio, África e inclusive alguns países da Ásia. Temos uma vasta experiência na exportação também. Eu mesmo tive que trabalhar e ajudar os colegas de exportação e acabei viajando pela América Latina para tentar viabilizar negócios. Então, a experiência na exportação é muito grande.
Qual é o futuro da indústria automobilística?
O setor automotivo está passando pela maior transformação. O que está acontecendo hoje, e acontecerá durante os próximos dez anos, será muito mais impactante do que foram os últimos 100 anos. A descarbonização, conectividade, segurança veicular, conforto para os ocupantes dos veículos e outras tecnologias incluindo IA (Inteligência Artificial), mudarão completamente a forma de produzir e de usar os veículos, com uma grande transformação na mobilidade das cidades e das estradas.
Como o Sr. imagina o caminhão e o ônibus do futuro?
Os veículos comerciais também terão todas as tecnologias acima mencionadas adaptadas para o transporte de cargas e passageiros, trazendo a descarbonização, a segurança veicular, conforto para os motoristas e usuários dos veículos e trazendo também benefícios para os transportadores e operadores.
Em São Paulo, por questões de falta de infraestrutura, veículos velhos estão circulando porque as empresas não conseguem substituir por elétricos. Como está a questão da eletrificação do setor de transportes públicos?
É preciso contextualizar que, para as novas tecnologias, o veículo é uma parte da solução dos problemas. Então, quando se fala em eletrificação, no caso de ônibus, você precisa ter o produto, a tecnologia disponível – e a Mercedes-Benz tem –, precisa ter financiamento, porque esses produtos são sofisticados, são mais caros do que o veículo tradicional (movido) a diesel, então precisa ter fontes de financiamento para que o nosso cliente tenha condição de comprar essa nova tecnologia, e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) oferece. Tem de ter, no caso de ônibus, políticas públicas, porque só com a tarifa não vai conseguir pagar esse investimento. Então, tem que ter o subsídio da prefeitura para a população poder ter acesso a essas tecnologias. E o último pilar que tem de acontecer é a infraestrutura. Se você não tiver os quatro pilares, alguma coisa vai atrasar. Então, se tiver infraestrutura e não tiver tecnologia, não resolve nada. Se tiver o produto e não tiver infraestrutura, não funciona. O desafio do político, do prefeito de qualquer cidade, é como ele vai estimular a eletrificação, que é a solução ideal para a questão da qualidade do ar. Tem de pensar e planejar inclusive a infraestrutura. A Mercedes está contribuindo no debate de como acelerar o processo de eletrificação e tentando, junto com os parceiros de negócios, viabilizar a implementação. Na cidade de São Paulo, já devem ter 750 ônibus elétricos, dos quais um bom volume é da Mercedes, produzidos na fábrica de São Bernardo. E a gente acredita, talvez não na velocidade que foi anunciada, mas a eletrificação vai acontecer de forma rápida nos próximos anos. Só para lembrar, cidade de São Paulo tem 13 mil ônibus. É uma frota grande e a gente imagina que gradativamente vai entrar a eletrificação. Enquanto não acontece, poderia substituir por ônibus a diesel Euro 6, que é a maior e mais atualizada tecnologia, que emitem poluentes num nível muito baixo e que poderiam melhorar a qualidade do transporte também. A gente defende a eletrificação, mas entende que enquanto não tiver a infraestrutura suficiente para tudo, poderíamos estar renovando a frota com veículos Euro 6.
A venda de veículos pesados está diretamente ligada à possibilidade de se obter financiamentos e a taxa de juros está bastante elevada. Como isso tem impactado o setor?
Juros altos machucam os nossos clientes, tanto de ônibus como caminhões. O investimento que se faz em um caminhão é bastante alto. É um bem sofisticado e com muita tecnologia. Se você considerar que ele compra um implemento para transporte – dependendo da aplicação, uma carroceria específica –, então o investimento é muito alto. E quando vai fazer uma renovação de frota, o total do investimento é muito alto. E, no nosso mercado, é normal você fazer um financiamento de cinco anos, de três anos... Compra o caminhão, dá uma entrada e financia o resto. E aí o peso da taxa de juros é muito forte, então prejudica muito a operação porque o custo dos juros é alto. E a receita dele é o frete, que não sobe na mesma proporção. Então isso dificulta a renovação da frota para todo o mercado. Em ônibus é a mesma coisa. A receita do operador de ônibus é a tarifa pública que nós cidadãos pagamos. Então, esse desequilíbrio prejudica muito o nosso setor. Nós sempre tentamos, dentro do que é possível, conversar com o governo, conversar com o BNDES como é que podemos encontrar alguma condição que facilite. Só para lembrar, os nossos produtos transportam o PIB (Produto Interno Bruto) e transportam as pessoas. Hoje, para que se possa lhe dar uma dimensão, 60% de tudo que nós produzimos e consumimos no Brasil são transportados por caminhões. E temos uma variedade muito grande de aplicações. Caminhões para agricultura, para mineração, para construção civil. Então, nós giramos ou apoiamos os diversos setores da economia. E quando aumenta a taxa de juros, a gente acaba prejudicando diversos outros setores que indiretamente estão impactados.
O tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos impactou os negócios da Mercedes?
Em economia, tem uma questão de percepção. Só o fato de o governo (Donald) Trump anunciar a possibilidade de fazer o tarifaço já criou uma insegurança no investidor. E essa insegurança não é boa para economia, que além de números depende da confiança do empresário para fazer investimentos. Essa discussão, essa confusão, vamos dizer assim, que o Trump fez na economia mundial, cria um adiamento muitas vezes da decisão. Então isso por si só já é um problema. O tarifaço não afetou a Mercedes-Benz diretamente, porque nós não exportamos para os Estados Unidos. Temos uma unidade do grupo Daimler que opera lá e atende o mercado norte-americano, o mercado mexicano e o Canadá. Então, a gente não teve o impacto direto do tarifaço, mas a gente tem o impacto indireto, porque alguns clientes nossos foram impactados, como café, indústria de madeira etc. E as empresas de transporte que atendem esses setores também vão ser indiretamente impactadas. Não dá ainda para mensurar qual é o tamanho desse impacto, mas tem um impacto sim, de forma indireta. A gente tá acompanhando isso setor a setor. O que eu acredito, e a gente já está percebendo, é que o Brasil e esses setores estão procurando outras alternativas, outros mercados para direcionar os seus produtos. E isso não é de um dia paro outro, não é de uma semana para outra, mas existe um movimento de procurar alternativas para compensar a perda de volume (de exportações) para os Estados Unidos e isso pode ajudar a nós do setor de transporte. Os nossos clientes e, indiretamente, a Mercedes-Benz.
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