Alunas Um em cada oito moradores da região com mais de 60 anos não é alfabetizado
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Ler uma receita médica, um livro ou, simplesmente, escrever o próprio nome e poder assinar um documento. Esse era o sonho de idosos da região que precisaram esperar a aposentadoria para realizá-lo. Nas sete cidades, um em cada oito moradores com mais de 60 anos não sabe ler e escrever, de acordo com dados de agosto do CadÚnico (Cadastro Único, ferramenta do Governo Federal que cadastra pessoas de baixa renda aptas a terem acesso a programas sociais.
Hoje é celebrado o Dia Mundial da Alfabetização, data criada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para destacar a importância social do aprendizado.
Dos 110.603 idosos cadastrados no CadÚnico, 14.896 se declaram analfabetos. A doméstica aposentada Maria Lourdes Gonçalves faz parte dessa estatística, mas decidiu sair dela aos 75 anos. Aluna da educação básica da EJA (Educação de Jovens e Adultos) na Emeief (Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental) Madre Teresa de Calcutá, em Santo André, ela enfrenta dificuldades de locomoção e aprendizagem, mas não desiste de conquistar seu objetivo.
“É mais difícil aprender nessa idade, mas eu não vou desistir. Não consegui estudar porque fiquei viúva jovem, criei meus dois filhos sozinha e ajudei a criar mais cinco netos. Por não saber ler, não podia ir nos lugares sem alguém para me ajudar. Depois que me aposentei ainda tive problema no coração e só agora consegui vir para a escola”, conta.
Maria Martinha dos Santos Gomes, 65, além de conquistar a independência, quer se proteger de golpes. Aposentada, ela montou um comércio de salgados e, algumas vezes, fica no prejuízo por não saber fazer cálculos e realizar transações financeiras. “Outro dia cobrei R$ 1,50 em uma bebida de R$ 15,00. Mas consigo etiquetar as encomendas. Já aprendi a escrever carne, frango, queijo, etc”, comemora.
A empreendedora também esperou criar os cinco filhos e ajudar nos cuidados de três netos para, enfim, cuidar de si. “Por muitos anos tentei voltar a estudar e tive de parar porque não conseguia ter tempo com o trabalho e a família. Somente há dois anos estou aqui para valer. Já aprendi muitas palavras e com outras tenho dificuldade”, afirma.
A dona de casa Ednalva Maria de Oliveira, 65, estudou até o 5º ano do ensino fundamental e sempre quis concluir os estudos, conhecimento e formação que lhe fizeram bastante falta, especialmente para conquistar bons empregos. “Preenchia as fichas escrevendo tudo errado e acabava não sendo aprovada. Minha filha, que é estudante de Letras, me incentivou a voltar a estudar neste ano e não me deixa desistir de frequentar as aulas”, conta a estudante.
A professora Juscilene Moreira Lisboa diz que Ednalva tem evoluído. “Na alfabetização, partimos sempre da experiência de vida dos estudantes. Tento buscar palavras que fazem parte da rotina deles”, explica a docente.
No total, 158.387 moradores da região, de todas as idades, não sabem ler e escrever, e 1.612 estudam na educação inicial, do 1º ao 5º ano, da EJA em Santo André, São Bernardo e Diadema - os demais municípios da região não informaram os dados.
FACULDADE
O pedreiro aposentado de São Bernardo, Ebenezer dos Santos, 72, decidiu retomar os estudos aos 70 anos para realizar o sonho de se tornar biólogo. Ele diz que sabia ler e escrever, mas tinha dificuldade para formular um texto. “Tive que largar a escola aos 16, na sétima série, para trabalhar e ajudar minha família que vivia uma situação muito difícil. Estou agora no segundo ano do ensino médio e meu objetivo é fazer faculdade de Biologia”, afirma.
Aluno da Emeb (Escola Municipal de Educação Básica) Maria Adelaide Rossi, Benê, como é conhecido, evoluiu muito nestes dois anos e escreve poemas e fábulas e ainda planeja escrever um livro. “Nunca é tarde para mudar nossa história. Quero ser outra pessoa e esquecer minha infância sofrida e tudo que passei”, compartilha Santos.
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