Entrevista da semana Ex-ministro afirmou que o O Brasil não vai voltar a ser colônia e que não vamos aceitar imposições dos Estados Unidos
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Em entrevista exclusiva ao Diário, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT) rebateu declarações recentes do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que afirmou conceder indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) caso venha comandar a Presidência. Dirceu fez uma análise crítica da conjuntura política e eleitoral do Estado de São Paulo e projetou possível chapa formada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro Fernando Haddad (PT). Ao tratar de política internacional criticou a postura recente do governo dos Estados Unidos em relação ao nosso País. “O Brasil não vai voltar a ser colônia. Não vamos aceitar imposições.”
Tarcísio, na sexta-feira (29), em entrevista exclusiva ao Diário, afirmou que, se eleito presidente, concederá indulto a Bolsonaro. Na visão do senhor é algo perigoso?
Eu li. Contestar como ele contestou a Justiça e dizer que não confia. Quer dizer, ele foi eleito governador de São Paulo e não acredita na Justiça eleitoral? No sistema político nacional brasileiro? Ele está repetindo o caminho do Bolsonaro. Não vejo diferença do Tarcísio para Bolsonaro, francamente.
Como ex-deputado federal qual avaliação faz sobre o avanço da pauta da anistia no Congresso?
Isso é um passaporte para o golpismo, para a ditadura e a impunidade. Eles (da direita bolsonarista) querem vender para a sociedade e à opinião pública que não são baderneiros, vândalos. (Mas) destruíram o Congresso Nacional, o Senado e a Câmara. Destruíram o Palácio do Planalto, a sede do Poder Judiciário e tinham um plano de assassinar o presidente (Lula), o vice (Geraldo Alckmin – PSB) e o ministro do Supremo (Tribunal Federal, Alexandre de Moraes). Imagina o que iria acontecer com a liberdade de imprensa, com os jornalistas. O Brasil precisa ter consciência que não pode ter anistia. Além do mais, pode ser inconstitucional e o presidente pode vetar. Tenho dúvida se querem mesmo anistiar o Bolsonaro, porque há uma certa névoa nesse tema. Eles querem o Tarcísio (de Freitas – PL – governador de São Paulo) como candidato. Não escondem isso. O mercado, as forças do agronegócio, das finanças, os grupos empresariais e os partidos de direita querem o Bolsonaro fora.
Já que estamos falando do Tarcísio. O governador é cotado para a disputa do Palácio do Planalto. Entretanto, pesquisas mostram que seria muito mais viável para ele concorrer à reeleição no Estado, com chances de vitória, do que entrar em outra empreitada e disputar com o Lula em uma situação pouco confortável.
Precisa ver se o Bolsonaro vai aceitar. Se vai confiar nele (Tarcísio). Não será tão fácil assim ele ganhar a eleição de São Paulo, porque as pesquisas estão mostrando que (uma chapa formada por) Alckmin e (o ministro da Fazenda, Fernando) Haddad (PT) tem uma posição para o segundo turno de equilíbrio com Tarcísio. Evidentemente que, como cidadão e eleitor, a chapa Alckmin e Haddad seria ideal. Nosso sonho é uma chapa como essa. Primeiramente, vejo o presidente da República muito identificado com o vice. Acho muito improvável que essa chapa deixe de existir. É só uma questão de conjuntura. Se as circunstâncias exigirem e for uma coisa completamente extraordinária, acho que não devemos ter medo de disputar a eleição em São Paulo.
Os Estados Unidos têm afirmado ao mundo que a imposição de tarifas elevadas ao Brasil não está relacionada à economia, mas sim a questões políticas. Como o governo brasileiro deve agir diante da pre-disposição de não se negociar assuntos que versam sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro?
Se não quisermos voltar a ser colônia, não vamos aceitar as imposições do (presidente dos Estados Unidos, Donald) Trump ao Brasil. Como o Brasil não voltará a ser colônia, temos de (nos) defender, porque o que está sendo ameaçado não é só a independência do Brasil, a política e a soberania. Está sendo ameaçada a democracia, porque ele (Trump) está desconstituindo a democracia como o Bolsonaro fez nos quatro anos que governou. Passou o tempo todo tentando desmoralizar o sistema político eleitoral brasileiro e a política institucional. Tentou um golpe de Estado em 8 de janeiro. Aliás, repetindo acho que o 6 de janeiro nos Estados Unidos. Então, não devemos aceitar e temos de responder nos integrando cada vez mais no multilateralismo, no Brics (grupo de países de mercado emergente que inclui o Brasil, Rússia, Índia, China e outras sete nações), estreitando cada vez mais as relações com o mundo todo, como por exemplo, acabamos de fazer o acordo Mercosul (organização intergovernamental sul-americana que tem como membros Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Venezuela), União Europeia. O Brasil está buscando junto ao México, ao Chile, à Colômbia e ao Uruguai voltar a pensar na integração sul-americana, na logística para chegar no Pacífico (países da Oceania), o combate ao crime organizado na Amazônia, a proteção e a integração na região da Amazônia e das cadeias produtivas comuns. Não há como dar marcha para trás no mundo novo que está surgindo. Não adianta os Estados Unidos apelarem para o dólar, para a força militar, para a guerra comercial. (Isso) não vai reverter essa nova realidade do mundo. Se ficarmos presos a essa questão que os Estados Unidos querem nos manter como se fôssemos uma subcolônia, não teremos futuro nenhum. Temos de tomar nosso destino em nossas mãos e lembrar a importância que o Brasil tem. O Brasil é um dos maiores países do mundo. Não é só em população. É em território e riqueza. O Brasil é uma das maiores economias do mundo. Temos duas riquezas que poucos países do mundo têm, a soberania alimentar e a energética. Muito do que ele (Trump) está fazendo, dessa agressão a nós, é pelo tamanho e importância do Brasil.
Em dezembro, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o senhor fez uma autoanálise sobre o desempenho do PT nas urnas durante as eleições municipais ao ponderar sobre erros do passado. Esses erros apontados remetiam aos problemas enfrentados na Justiça por membros do alto escalação do petismo ou ao distanciamento da base? As rotas foram corrigidas com vistas ao pleito de 2026?
O primeiro deles era voltar a fazer PED (Processo de Eleição Direta). Voltamos a dar a cada filiado e filiada do PT no Brasil todo o direito de escolher seus dirigentes em uma eleição direta e agora temos de superar a eleição em papel. O Brasil já vota na urna eletrônica. Temos de votar aqui (mostrou um celular). A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo – eu, como advogado, participei da eleição –, participava antes e votava nos locais de votação. Agora participei da informação, do debate e da decisão pelo celular. Precisamos dar mais atenção também para a informação e à formação; para as redes, porque hoje grande parte da vida, não só econômica, educacional, política, e cultural se passa pelas redes, pelo celular, pela internet, pelas novas tecnologias. Devemos reconstruir as sedes do PT em todas as cidades em espaços culturais, de defesa dos direitos da mulher. Em espaços em defesa das comunidades, das associações de bairro, porque perdemos muito espaço nessa área. Voltar para os territórios e assumir cada vez mais o PT como governo. O PT, quando recebe o mandato e a responsabilidade de governar um país como o Brasil, implica que temos um contrato político social com os cidadãos e com as cidadãs e que nós temos de cumprir.
O que mudou no PT do tempo em que o senhor foi presidente do partido, entre 1995 e 2002, até tempos atuais?<EM>
Mudou o Brasil, mudou o mundo. Portanto, o PT também teve e tem de mudar. Sofremos um processo de repressão de 2013 a 2019, que desconstituiu parte da nossa organização, nos expulsou de muitos territórios e impediu muitas lideranças do PT de participar da vida política do País. Inclusive, o nosso presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) sofreu um processo político sumário de exceção que foi anulado depois, e a nossa presidente (Dilma Rousseff) sofreu impeachment, um golpe político-parlamentar. Então, temos de levar em consideração essas questões. O mundo mudou porque hoje estamos sofrendo um tarifaço, uma agressão comercial e política; uma interferência direta nos assuntos internos do Brasil com relação ao julgamento dos golpistas, a regulação das bigtecs, o papel do Pix e mesmo o papel do Congresso Nacional, porque há uma pressão externa para que se aprove anistia. Estamos vivendo também no mundo em transformação acelerada, não só geopolítica como tecnológica. Então, as exigências desse tempo levam que o PT priorize primeiro a sua reorganização, a sua reconstrução de certa maneira, inclusive, com relação às redes, à mudança geracional, à formação política e à volta aos territórios, e também priorize a defesa da democracia. Porque se olharmos os Estados Unidos hoje, a democracia americana está ameaçada e o que eles estão fazendo lá farão aqui amanhã se vencerem as eleições (vão atacar) à soberania do País. (Precisamos) dar continuidade à luta do PT por justiça social, combater as desigualdades, combater a concentração de renda, fazer uma reforma tributária. Temos de olhar para a sociedade brasileira como um todo. Então, essas são as exigências do novo tempo que o PT está vivendo. É preciso reeleger o presidente Lula e esse é o nosso grande objetivo.
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