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Aconteceu outra vez...

Marli Gonçalves
01/09/2025 | 08:56
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FOTO: DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 Aconteceu. E mais uma, mais uma, todos os dias. Não há surpresa, mas a repetição; parece notícia velha e não é. O apresentador do noticiário ensaia constrangimento ao exclamar “Aconteceu outra vez”, antes de noticiar mais um atropelamento com morte, causado por mais um motorista alcoolizado, em carro de “luxo”, que fugiu do local do acidente sem prestar socorro à vítima, e que, localizado, se recusou a fazer o teste do bafômetro. Seguem-se as justificativas blábláblá da fiscalização, dos advogados, as cenas de desespero, quem era a pessoa atingida e o o que ela ainda teria para viver.

Todo dia, se não é algum acidente, o noticiário traz feminicídios, ou tentativas. Aconteceu outra vez. Medidas protetivas? Quem tinha de proteger não o fez; uma média de quatro assassinatos de mulheres por dia.

Aconteceu outra vez. Mais casos de racismo descarado, brigas de trânsito, ataques de fúria, mortes, tiroteios, a vida levada por conta de um celular, uma aliança. Motoqueiros demônios subindo em calçadas empunhando armas e levando futuros, cumprindo ordens e metas de organizações criminosas para suprir a comunicação dos presídios.

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Os golpes se sofisticam. Aconteceu outra vez. Golpes do Pix, dos advogados, do INSS, da prova de vida, do falso sequestro – meu sobrinho que não existe, o filho que nem tenho, coitados, já gritaram chorando ao telefone umas três vezes só este ano, sob ameaças. Fora as compras que não fiz em contas e bancos que não tenho. Por dia dezenas de e-mails: boletos falsos, cobranças e ameaças de que terei cortado o serviço que não uso, procedimentos na Justiça, na Receita, no raio que os partam. Nossos dados continuam sendo vendidos em pendrives nas barraquinhas da 25 de Março.

Aconteceu outra vez e cada vez mais. Operações vistosas com nomes estranhos de investigações que vinham sendo realizadas há meses vazam bem no dia X, e os culpados por desvios, não mais de milhões, mas agora de bilhões, escapam. Sabemos assim dos ralos gigantescos de dinheiro público, de como a indústria do luxo – luxo absurdo – se sustenta. E os tais influenciadores, vendendo ilusões e jogos. A enganadora ostentação que cria inveja e, logo, novos criminosinhos no mercado.

Mais e mais, Israel ataca Gaza; terroristas vizinhos atacam Israel. Assim por diante. Protestos. Negociações de paz. Putin manda mísseis e drones para a Ucrânia, que manda mísseis e drones para a Rússia. Protestos. Famintos bombardeados em filas que chamam de humanitárias. Protestos. Todos os dias Trump dá ordens estapafúrdias e demite quem o contesta. Nosso governo faz trapalhadas. Fake news espalhadas.

Nos tiraram até a surpresa. Protestos! Quem sabe qualquer hora funcionam?

Marli Gonçalves é jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo e autora de Feminismo no Cotidiano, da Editora Contexto.




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