Setecidades Titulo Gestação precoce

Por mês, 8 meninas de 10 a 14 anos engravidam na região

De 2020 a 2024, 516 adolescentes nesta faixa etária realizaram pré-natal na rede municipal

31/08/2025 | 08:31
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FOTO: Denis Maciel | DGABC
FOTO: Denis Maciel | DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Para a são-bernardense Natália, 15 anos, aceitar uma gestação aos 14 foi tão devastador que ela preferiu não assumir nem para si mesma sua nova realidade, mesmo já sentindo o bebê mexer. “Com sete meses de gravidez ainda não tinha feito testes nem iniciado o pré-natal porque não queria confirmar o que no fundo já sabia. Como minha barriga não tinha crescido até então, consegui esconder da família”, relata. 

Descobrir a gravidez aos 14 anos também foi um choque para a andreense Amanda, hoje com 15. O impacto foi ainda maior por repetir um histórico familiar: sua irmã havia passado por essa situação, oito anos antes, com a mesma idade. “Senti uma mistura de medo e culpa. Ver meu pai tão preocupado foi muito difícil, mas agora estou tentando lidar e aceitar”, conta. Os nomes utilizados são fictícios, com a intenção de proteger a identidade das jovens. 

As adolescentes integram os números que apontam uma média de oito meninas de 10 a 14 anos grávidas por mês no Grande ABC. Entre 2020 e 2024, a região registrou 516 casos nessa faixa etária, além de 107 apenas em 2025.

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Os dados consideram pacientes que realizaram pré-natal em Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá – esta última com informações disponíveis apenas a partir de maio de 2023. Ribeirão Pires não forneceu dados, e Rio Grande da Serra não possui registros.

Em 2024, foram 213 casos, o triplo do número de gestantes nesta faixa etária de 2020, quando 68 realizaram o pré-natal. Em cinco anos, de 2020 a 2024, a região registrou ainda 7.540 adolescentes grávidas de 15 a 19 anos.

Natália, hoje com oito meses de gestação, confidenciou sua situação a uma professora. Com seu apoio, contou há um mês ao pai, que a acolheu, e depois à mãe. “Sabia que ela ficaria nervosa, e ficou. Agora está mais calma, e estamos felizes pela chegada do bebê, que nascerá em outubro”, diz a adolescente, que já realiza todos os exames e acompanha o pré-natal na USF (Unidade de Saúde da Família) Jardim Sorocaba, em Santo André.

Amanda também faz pré-natal na unidade, desde o segundo mês de gestação. “Descobri que estava grávida em 27 de fevereiro. Estava passando mal, e minha mãe desconfiou. A menstruação estava atrasada há um mês”, lembra. Ela relata que tudo aconteceu quando planejava tomar anticoncepcional, mas já era tarde. “Fui ao posto de saúde para ser medicada, me disseram que precisava esperar a menstruação. Não sabia que estava grávida, e no fim, a menstruação nunca veio”, conta.

SEM MATURIDADE

Mesmo em relações consensuais, a Lei 12.015/2009 classifica a relação sexual com meninas de até 14 anos como estupro de vulnerável, independentemente da idade do parceiro. As duas jovens afirmam que tiveram relações consentidas. 

“Uma menina de 14 anos não tem maturidade emocional e cognitiva para compreender questões sexuais ou assumir uma gestação. Por isso, mesmo em relações consentidas, a lei enquadra como violência sexual, já que não há consentimento real”, explica a ginecologista Laura Gusman. “O impacto de uma gestação precoce é devastador: compromete a saúde, interrompe a formação educacional e aprofunda vulnerabilidades sociais”, acrescenta a profissional.

A psicóloga Macia Pereira ressalta que a gravidez em meninas de até 14 anos é um fenômeno que merece atenção especial. “Há uma ruptura brusca no ciclo natural do desenvolvimento. A adolescente é convocada a assumir responsabilidades adultas em um momento da vida no qual deveria estar centrada na construção de sua identidade, nos estudos e nas experiências sociais típicas da idade”, destaca. 

FUTURO

A estudante Sabrina Palacios de Abreu, 18, tomou um susto quando descobriu que estava grávida, aos 16. Foi um período conturbado, em que precisou até se afastar da escola. “Sofri muito bullying. Ouvia tantas coisas ruins que tive que me afastar das aulas. Estudei em casa. Foi difícil, mas hoje minha filha é o melhor da minha vida, minha maior realização”, avalia. Atualmente, ela cursa Educação Física, trabalha como menor aprendiz em uma multinacional e planeja se casar com o pai da criança, que tem 1 ano e 3 meses.




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