Artigo Um dia você é jovem, cheio de planos e esperanças, e no outro está varrendo a casa como um sargento mal-humorado, gritando: “Brinquedo no chão vai pro lixo!”. É nesse instante que você percebe: a juventude se despediu e o que sobrou foi a farda da vida adulta – que não é espetáculo, é faxina.
E como a vida virou comércio de ilusões, lanço aqui uma promoção imperdível: pague minhas contas, assuma meus problemas e, de brinde, leve o direito de falar da minha vida. É o verdadeiro mercado contemporâneo: miséria com bônus.
Para os otimistas de plantão, aviso: parem de pensar como heróis. Aprendam com o único exemplo de perseverança desta Nação – o boleto. O boleto não desiste, não falha, não perde prazo. O boleto é o verdadeiro coach financeiro: um profeta que nunca mente.
E como se não bastasse, ainda tem o reencontro social: “Nossa, você sumiu!”. Pena que me acharam.
Na hora de ajudar, ninguém aparece. Mas basta uma decisão errada para brotar especialistas até do buraco da tomada. A humanidade é exímia em sumir na ação e brilhante em palpitar na tragédia alheia.
Resta rir. Rir para não agredir. Mas há dias em que a gargalhada sai com os dentes cerrados e vontade de bater junto. Não me acusem de cruel. Eu não coloco defeito em ninguém. Deus colocou, eu apenas relato. É jornalismo de observação. Aliás, dizem que atraímos o que falamos. Vivo repetindo “ser fitness”. O resultado? Uma fábrica de frustrações, pois a balança continuou subindo. E o churrasco ficou garantido.
De resto, já faz parte da minha rotina ignorar a existência de certos indivíduos. É o único hábito saudável que cultivo sem falhar. O mundo seria melhor se algumas pessoas fossem substituídas por ar-condicionados: refrescariam mais, incomodariam menos e, quando estragassem, ainda poderiam ser consertadas.
E, se está precisando de dinheiro, fale comigo. Eu também não tenho, mas pelo menos a gente chora junto. A miséria compartilhada é quase amizade. Quando perguntam: “Você trabalha com o quê?” respondo com a sinceridade de um mártir: trabalho com vontade de voltar pra casa. Emprego fixo, horário integral, salário baixo.
E chega o sábado. O povo “sabadais”, mas você não. Você tem filho pra cuidais, casa pra limpais, marido pra aturais. Quem mandou casais? A vida é medieval, só que sem castelo. Algumas pessoas, de fato, são como vinho: melhorariam muito com uma rolha na boca. Preferencialmente de cortiça, para vedar bem.
No fim, a vida é matemática: se está fácil, está errado. E se sobrou dinheiro, é porque você esqueceu de pagar alguém. E digo mais: se quem fala mal de mim soubesse o que penso deles, falaria muito mais. A diferença é que eu rio. Eles, não.
Gregório José Lourenço Simão é jornalista, radialista e filósofo.
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