Entrevista da Semana
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“Pega, pega, pega”. A palavra repetida sequencialmente e quase que diariamente no gramado do Estádio Anacleto Campanella, entre 2000 e 2002, marcou a primeira passagem de Jair Picerni pelo São Caetano. Hoje aos 80 anos, o técnico que levou o Azulão ao vice do Brasileiro, em 2000 e 2001, ainda lamenta a perda do título da Libertadores (2002) – “estava tudo pronto para enfrentarmos o Real Madrid” –, mas recorda fielmente as conquistas na carreira, como a do Brasileirão (1987) pelo Sport, da Série B por Palmeiras (2003), além da medalha de prata olímpica (1984). Atualmente, porém, mal assiste a jogos de futebol, se assusta com os altos salários pagos aos jogadores e treinadores e destaca a transformação do esporte no mundo, com a queda de rendimento de seleções tradicionais.
RAIO X
Nome: Jair Picerni
Aniversário: 20/10/44
Onde nasceu: São Paulo
Onde mora: Vinhedo
Formação: Segundo grau completo
Um lugar: Ribeirão Preto
Time do coração: Não tem
Alguém que admira: Esposa Maria Fernanda da Silva Picerni
Um livro: Pai Rico Pai Pobre, de Robert Kiyosaki e Sharon L. Lechter
Uma música: Calhambeque, de Roberto Carlos
Um filme: filmografia de Élvis Presley
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Você teve papel importante como jogador e treinador em vários clubes do Brasil e até do Exterior. Mas como foi a passagem pelo São Caetano?
Montei um time completamente diferente do que o São Caetano tinha. Fui buscar jogadores no Interior, ‘caipiras’ que nem eu, apesar de eu ter nascido na Capital, na Barra Funda. Armava jogos-treinos contra clubes de fora de São Paulo e pegava dois ou três jogadores de cada um. E deu certo.
Apesar dos títulos conquistados, a derrota na final da Libertadores pode ser considerado o marco mais triste na sua carreira?
Perdemos para o Olímpia (2 a 1 no tempo normal e 4 a 2 na disputa de penalidades). Um pênalti perdido nos tirou do rumo do Real Madrid. A bola do Serginho (zagueiro morto em 2004) passou muito longe do gol.
Ficou um sentimento de frustração?
Rapaz, já estava tudo marcado. Tudo certo para irmos para o Japão (disputar o Mundial Interclubes). A gente já tinha feito um relatório de como ia ser a programação. Vai ser assim, assim, assim. E vamos jogar contra o Real Madrid. Infelizmente, não aconteceu como a gente imaginou.
Qual balanço pode fazer do trabalho que realizado no São Caetano?
Apesar da perda do título da Libertadores, fomos campeões da Série A-2 do Paulista, duas vezes vices no Brasileiro, além de termos colocado o São Caetano em posição de destaque no Brasil.
E como analisa o momento do São Caetano (clube foi vendido, disputa apenas a Série A-4 do Paulista, fora do cenário nacional) e das demais agremiações do Grande ABC (Santo André foi eliminado na Copa Paulista, o Água Santa foi despachado da Série D do Brasileiro, além de ter sido rebaixado à Série A-2 do Paulista no primeiro semestre)?
Não tenho acompanhado mais o dia a dia dos clubes. Sei das mudanças que ocorreram no São Caetano. Mas posso destacar que tive boas passagens por lá (voltou ao São Caetano em 2005 e 2007) e também pelo Santo André (1983-1984, 1991-1992 e 2010).
Como era a relação com a diretoria do São Caetano?
Lembro que assinei o contrato num sábado, na sala de uma escola de São Caetano. Tive sempre um ótimo relacionamento com o (então presidente) Nairo (Ferreira de Souza), com o Batata (Luiz de Paula, então gerente de futebol, morto em 2011), que era um amigão, e com o Japonês (Carlos Eike Batista, antigo supervisor de futebol). Mas quem mandava era o Saul Klein (ligado à varejista Casas Bahia, que patrocinava o clube por meio da marca Consul). Eu jantava com o Saul a cada 15 dias para conversar sobre como estava o trabalho e definir se era necessário alguma coisa (reforços, por exemplo). Lembro que o Batata ficava enciumado porque não era convidador para participar desses encontros (risos).
Você tem contato com os ex-dirigentes e com os ex-jogadores do São Caetano?
Não. Tenho o ‘Japonês’ no meu WhatsApp. Tenho 60 contatos. Mas praticamente não falei mais com ninguém.
Por quê?
Moro em Vinhedo desde 1987. É uma cidade muito calma. Um belo lugar. Tenho toda uma rotina. Rezo duas vezes ao dia, pela manhã e à noite. Agradeço tudo que aconteceu de bom pra mim. Mas o que faço principalmente é curtir os meus filhos (quatro) e os meus netos (cinco).
Na véspera da final da João Havelange, você e o repórter Nelson Cilo, que trabalhava no Diário, chegaram as vias de fato durante o treino. O que pode dizer sobre o tema?
Foi quando íamos enfrentar o Vasco (final da Copa João Havelange de 2000). O caso foi parar na delegacia, com advogados. Mas foi tudo resolvido.
Quando parou definitivamente no futebol?
Acho que foi por volta de 2012 (como treinador do União São João, de Araras). E comecei (como jogador) em 1965. Passei por Nacional, Palmeiras, Ponte Preta, onde fiquei por dez anos (era titular na época da final do Paulistão de 1977, quando o Corinthians superou a Macaca após três jogos e saiu da fila de 23 anos), além de muitos outros clubes (Guarani e Comercial de Ribeirão Preto). Parei de jogar aos 37 anos. Já a carreira como técnico teve início na própria Ponte Preta (1980).
Pode destacar momentos marcantes como jogador?
Na minha época, a equipe da Ponte Preta, e também do Guarani, era uma Seleção Brasileira. Tinha Carlos, eu, Oscar, Polozzi e Odirlei; Wanderley, Marco Aurélio e Dicá; Lúcio, Rui Rei e Tuta. E no Guarani o Tobias, o Zenon, além de outros.
Outras lembranças?
O bom pra mim era enfrentar o Pelé, o Garrincha, Quando jogava contra o Pelé, eu falava para Deus: ‘empurra ele para o lado do Odirlei, que era o lateral-esquerdo’. Tinha também o Edu, que driblava demais. Falo do drible porque marquei o Canhoteiro, do São Paulo. A bola não saía dos pés dele, rapaz. Parece que colava no pé desses caras aí, Garrincha, Canhoteiro, Edu. Ah, vai tomar banho.
Existe entre os atletas que dirigiu no São Caetano ou em outras agremiações algum que possa destacar?
O Adhemar (atacante do Azulão), né. Tem uma força incrível. Em todos os jogos que fizemos lá no Rio (pelo Brasileirão), contra Flamengo, Vasco, Fluminense, o filho da mãe passava do meio-campo e chutava para o gol. O banco (de reservas) ficava bem próximo do gramado. O Adhemar chutava de longe e eu falava: ‘Ô, burro, não é pra chutar daí’. Caraca, não é que ele fazia gol.
Tem alguma situação que marcou a sua carreira no futebol? Seja por felicidade, seja por tristeza?
Olha, o momento feliz é você estar no meio do futebol. Você está numa equipe, como a do Nacional da Comendador Souza, onde comecei, e de repente você vai parar no Palmeiras. Aí chega numa Seleção Brasileira (foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984). Tristeza? Não tenho.
E os títulos? Algum que possa destacar, como jogador ou na área técnica?
Não. Todos os títulos te marcam. São muito importantes. Difícil diferenciar. E essas conquistas geraram o interesse de outros clubes. Quando eu ainda estava na Seleção Brasileira Olímpica já negociava contrato com o Corinthians (ficou no clube entre 1984 e 1985. antes de se transferir à Portuguesa). Até o Giulite Coutinho (presidente da CBF na ocasião) sabia. Avisei pra ele.
Tem acompanhado o futebol? Assiste partidas?
Nem sei há quanto tempo não assisto mais jogos. Dou uma olhada muito de vez em quando. Mas costumo ver o Brasil em Copas do Mundo.
E o que pode falar da Seleção Brasileira, agora treinada por um técnico estrangeiro (italiano Carlo Ancelotti)?
Houve, de fato, uma mudança na relação com os treinadores brasileiros. Estão pegando argentinos, portugueses. Mas acho que há alguns anos tinha treinadores brasileiros top. Não estou falando mal dos que estão agora. Você pegava o Evaristo (de Macedo, que treinou a Seleção na década de 1950). Assim como tivemos o (Wanderlei) Luxemburgo. Mas, hoje, de fato, está meio complicado. Por isso que escolhem da Argentina e de outros países.
O Brasil se acostumou a comemorar títulos mundiais. O último já tem 23 anos, com elenco que tinha estrelas como Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho? Vê perspectiva de novas conquistas da Seleção a curto prazo (a Copa do Mundo será disputada no ano que vem nos Estados Unidos, Canadá e México)?
O futebol sul-americano mudou muito nos últimos anos. Na verdade, acho que o futebol no geral, porque antigamente Brasil e Argentina, pra mim, eram acima da média. Tinha ainda o Uruguai, e enfrentá-lo era sempre uma batalha, um jogo bastante pegado. Na Europa tem a Itália, que também tinha boas seleções. Mas ela não está bem, não está essas coisas. Assim, de repente, o Brasil pode surpreender.
Pode-se dizer que o Brasil ainda depende do talento de Neymar?
Ele teve oportunidades. Também teve muitas lesões. Mas não sei muito das condições e da vida dele atualmente. Sei que temos um camisa 10 (atacante Vinícius Júnior) que tem marcado muitos gols.
Qual a sua opinião sobre os salários pagos na atualidade a atletas e treinadores?
O pessoal fala muito de milhões (de reais, dólares e euros). Na minha época, 100 mil reais pra mim estava bom demais. Não sei se eu valia um milhão, mas com o que ganhava já dava para comprar alguma coisa.
Faltou alguma coisa nas suas carreiras no futebol?
Não, porque você tem que ganhar jogos e fazer um bom contrato. E. graças a Deus, coincidiu. Então, você ia comprando uma casinha, outra casinha. Você ia fazendo o seu é de meia. Você ajeita a sua vida.
Você tem saudade do meio do futebol?
Trabalhei no futebol por 60 anos. Mas, assim, eu não gostava muito de avião. E quando tinha que jogar pelo Brasileiro e até pela Libertadores a gente vivia viajando. Muitos voos. Mas o bom eram as viagens de ônibus. Íamos dando risada, por exemplo, daqui a Piracicaba.Ou até São José do Rio Preto. Momentos muito bons que eu sempre gosto de lembrar. Só tenho a agradecer a Deus.
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