Ameaça Para especialistas, há subnotificação; tema tabu é exposto em vídeo de Felca
DGABC

As sete cidades do Grande ABC acumularam 42 denúncias de exploração sexual infantil na internet de 2020 a 2025 (até 10 de agosto), segundo levantamento do Diário com dados do Disque 100, canal do governo federal. Para especialistas, os números são subnotificados, pois é um crime de difícil identificação, ainda mais no ambiente virtual.
Entretanto, este ano houve aumento do número de denúncias, com dez notificações contabilizadas. Nos 12 meses de 2024, foram cinco. O ano de 2020 apresentou a maior quantidade de registros (11), período em que jovens e adultos utilizaram mais a internet devido à pandemia da Covid-19. São Bernardo é a cidade que somou mais casos nos últimos seis anos, com 14, seguida por Santo André (13), Diadema (7), Mauá (4), São Caetano (2), Ribeirão Pires (1) e Rio Grande da Serra (1).
A psicóloga Carla Salcedo diz que o crime, por acontecer em um ambiente virtual, local onde os pais, geralmente, não têm muita inserção, acaba sendo desconhecido. “Existem pessoas que acreditam que isso é apenas uma obra de ficção”, afirma.
Para a psicanalista Andrea Ladislau, há subnotificação, pois muitos pais não compreendem ou percebem que seus filhos podem estar em risco ou sendo vítimas de crime, além de não denunciarem. “A era digital faz com que a exposição e o número de likes seja algo comum e normal. A necessidade de ser visto ou pertencente ajuda a normalizar tudo e fazer com que se perca o controle”.
Entretanto, o assunto ganhou grande repercussão nos últimos dias, após o influenciador digital Felipe Bressamim, conhecido como Felca, publicar um documentário em seu canal no YouTube, no dia 6, que teve 45 milhões de visualizações. O debate ultrapassou o ambiente da internet e resultou em propostas de lei e prisões, como a do influenciador digital Hytalo Santos e de seu marido, Israel Nata Vicente.
Eles são acusados de exploração sexual infantil e tráfico humano, pois mantiveram durante um reality show, divulgado em seus canais na internet, adolescentes reclusos em uma casa, os quais foram constantemente expostos sexualmente. Felca também denunciou como agem os pedófilos nas redes sociais para buscar imagens aparentemente inocentes de crianças.
De acordo com o influenciador, que ficou um ano em processo de pesquisa e elaboração do conteúdo, os criminosos utilizam códigos como emojis e gifs para apontar perfis com fotos e vídeos potenciais para serem utilizadas por essa rede criminosa.
PREVENÇÃO
Carla Salcedo destaca que a prevenção é a melhor medida a ser tomada, ou seja, não expor crianças e adolescentes na internet, mesmo que sejam fotos aparentemente sem malícia. “A mente desses pedófilos é perturbada e perversa, eles não pensam como os pais, que veem de forma inocente certas postagens. Então, a melhor maneira de preservar é não postar em redes sociais nenhuma foto ou conteúdo em que a criança aparece com poucos trajes ou roupas de banho”, alerta. A especialista acrescenta o cuidado com brincadeiras que remetam a situações domésticas ou danças mais sensualizadas.
DENÚNCIA
Contrariando o senso comum, “a internet não é terra sem lei”, diz advogada de vulneráveis de São Bernardo, Antilia Reis. “Ela é regida pelo mesmo ordenamento jurídico que o mundo off-line, com normas específicas. Crimes sexuais on-line são severamente punidos no Brasil e internacionalmente”, diz.
A advogada destaca que a queixa é fundamental e pode ser feita anonimamente. As denúncias são realizadas no Disque 100 (Disque Direitos Humanos); no site do SaferNet Brasil (www.safernet.org.br); nas delegacias, especialmente as especializadas em crimes Cibernéticos; na Polícia Federal, em casos de crimes transnacionais; ou nas próprias plataformas digitais.
Após o vídeo viral de Felca, as denúncias de abuso e exploração sexual infantil na internet recebidas pelo Safernet cresceram 114%. De 6 a 12 de agosto, foram 1.651 queixas no País, antes 770 no mesmo período do ano passado. Confira na matéria on-line quais são os crimes de abuso e exploração sexual contra crianças praticados na internet e as punições que criminosos podem receber.
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