Preservação
FOTO: Celso Luiz/DGABC

Ao autorizar o início das obras de restauração do imóvel que abriga o Museu Barão de Mauá, amanhã, o prefeito Marcelo Oliveira (PT) irá preservar uma casa ‘bandeirista’.
A construção remete aos tempos coloniais, entre os séculos XVII e XVIII, quando exemplares semelhantes se espalhavam pelo Estado de São Paulo como as edificações mais sólidas de então, feitas com técnica chamada taipa de pilão – terra socada, umedecida, protegida com madeira –, que era o cimento daquela época.
Ainda é possível localizar na região muitas casas assentadas com barro. Mas pela sua arquitetura, história e lendas, esta da Vila Guarani, em Mauá, se destaca – a exemplo da capela do Pilar Velho, em Ribeirão Pires.
Por serem raras, tais construções podem e devem ser preservadas, seguindo os ensinamentos de nomes como Mario de Andrade, Luís Saia e Nuto Sant’Ana. Em 1937, os três listaram monumentos que mereciam ser tombados em São Paulo – a casa de Mauá não está neste rol inicial.Quem identificou a casa de Mauá como bem histórico, recomendando o seu tombamento, foi o arquiteto Carlos Lemos (FAU-USP), 50 anos atrás. Em 1975, a Prefeitura de Mauá desapropriou o imóvel e iniciou pesquisas para a sua reforma.
Foram passos importantes. A casa virou museu, inaugurado em 1982, e foi tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).
A tradição oral informa que a casa teria sido a residência de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, na época da construção da Estrada de Ferro São Paulo Railway (segunda metade do século XIX). Cientificamente, isso nunca foi confirmado. Não importa. Importa a casa.
O SÍTIO BOCAINA
Em 2000, em entrevista ao jornalista Carlos Pegorin, do Diário, a então diretora da Casa de Cultura e Museu Barão de Mauá, professora Silvia Ahlers, foi direta: “do Barão de Mauá a casa nunca foi”. Havia uma antiga tradição oral (histórias que o povo conta) que dizia ter sido o barão dono do imóvel. “Nunca encontramos nada.” Mas as pesquisas mostram que Mauá – ou a sua companhia ferroviária – tinha terras da cidade até Rio Grande da Serra. Documentos mostram que a casa foi sede da fazenda ou sítio Bocaina. Mas, do seu construtor, não há informação. Certamente teve escravos, como mostra um ferro de prender o tornozelo encontrado por moradores no imóvel. A obscura relação da casa com Mauá escondeu até hoje o seu valor arquitetônico intrínseco. Pela primeira vez, a construção bandeirista passa a ser tratada como assunto principal. “A casa, afinal, é o mais interessante”, reiterava Silvia.
PELA PRESERVAÇÃO
Mauá teve uma segunda casa semelhante, na saída da cidade, hoje Avenida João Ramalho, à esquerda de quem segue em direção a Santo André. Fazia parte da Fazenda Oratório, que seguia em direção à Zona Leste de São Paulo e que foi propriedade da Previdência Social. A casa não existe mais. O progresso demoliu a maior parte destas casas. Mesmo as mais famosas, como a Casa do Bandeirante no bairro do Butantã, em São Paulo, viveram momentos mais nobres em termos de estudo, visitação e valorização. A restauração anunciada pela Prefeitura de Mauá é importante, desde que não descambe para uma reforma, mesmo que considerável. Mauá já perdeu bens muito importantes, do prédio da Avenida Barão de Mauá que serviu ao primitivo grupo escolar até a concha acústica e fonte luminosa da Praça 22 de Novembro. A derrubada da casa histórica do artista Hans Grudzinski foi o capítulo mais recente e doloroso. Que o restauro do Museu Barão de Mauá, onde serão investidos R$ 4 milhões, amenize um pouco a dor destas perdas.
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