Artigo A posse de Donald Trump inaugurou uma era de diplomacia tarifária que deixa pouco espaço para o multilateralismo. Ao hostilizar organismos como a OMC (Organização Mundial do Comércio), o republicano adota roteiro fixo: pressiona, negocia e celebra qualquer desfecho como vitória – ainda que a conta apareça em custos maiores para a cadeia produtiva e incerteza aos investidores.
O primeiro choque veio com tarifas sobre México e Canadá. O alvo, porém, era global: sinalizar que “fazer a América grande novamente”, renovado na eleição de 2024, passaria pela cobrança a parceiros estratégicos. O resultado foi azedar fóruns multilaterais e abrir espaço para que China e União Europeia ocupem áreas de influência antes dominadas por Washington.
No Brasil, Trump encontrou terreno fértil. Divisões internas e políticos dispostos a apoiar sanções contra a própria economia facilitaram a tarifa de 50 %. Brasília tentou diálogo por carta em maio, mas recebeu ameaças via rede social – desprezo às regras básicas da diplomacia.
Importa lembrar que o Brasil responde por menos de 2 % das importações norte-americanas e, há quase duas décadas, gera superávit a Washington. Em tese, portanto, o agravo recai mais sobre consumidores e empresas dos Estados Unidos. Exportamos commodities como petróleo, soja e café, mas também aviões e outros bens de alto valor agregado. Para uns, os preços internos podem cair; para outros, abre-se a disputa por novos mercados.
Mesmo sob pressão, o governo brasileiro busca brechas. A vice-presidência e uma missão de senadores estão em Washington tentando reabrir canais. A condução personalista da Casa Branca desaconselha, por ora, visita presidencial; mas um telefonema calculado pode destravar conversas.
Se a diplomacia falhar, restam três trilhas: aguardar a Justiça norte-americana derrubar a tarifa; confiar no lobby da Câmara de Comércio para conter o presidente; ou compensar setores atingidos enquanto o Brasil amplia alianças – apoio chinês, vozes laureadas com o Nobel e editorial favorável do New York Times já corroem o discurso isolacionista.
Quanto mais o confronto durar, maior a chance de queda nos investimentos diretos e de desaceleração do comércio global, risco que transforma a retórica protecionista em bumerangue econômico e reputacional. Em síntese, a escalada tarifária faz de Trump o principal agente de um paradoxo: ao tentar proteger indústrias domésticas, subtrai previsibilidade ao ambiente de negócios e incentiva concorrentes a erguer pontes que contornam o mercado norte-americano.
Ricardo Balistiero é economista, doutor e coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia.
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