Veja perguntas e respostas Lucas da Silva Santos, 19 anos, morreu no domingo (20) após oito dias de internação na UTI; padrasto está preso temporariamente e confessou o crime
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Lucas da Silva Santos, 19 anos, morreu no domingo (20) após oito dias de internação na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do HU (Hospital de Urgência) de São Bernardo. O jovem teve morte cerebral confirmada e a principal suspeita é envenenamento por chumbinho – os laudos que informam a substância que matou o rapaz ainda não foram concluídos.
O padrasto, Admilson Ferreira dos Santos, 52, está preso temporariamente na delegacia de São Caetano desde quarta-feira (16) e confessou ter colocado chumbinho no creme de leite servido com bolinhos de mandioca a Lucas e outros familiares. A mãe da vítima, Rosemeire da Silva, 53, passou a ser investigada pela Polícia Civil de São Bernardo por comprar o veneno, em uma loja de Diadema, supostamente a pedido do padrasto.
O caso é conduzido pelo 8º DP (Distrito Policial) do município. Segundo a autoridade responsável, o inquérito está em fase final e aguarda a conclusão do laudo pericial para o completo esclarecimento dos fatos. Admilson será indiciado por homicídio consumado.
Lucas foi sepultado por amigos e familiares na última terça-feira (22) no Cemitério do Carminha, no bairro dos Casa. Segundo a Prefeitura, a família autorizou a doação de órgãos, e os rins e as córneas da vítima foram doados em um gesto classificado como de “extrema generosidade” pela administração municipal.
Quando e como ocorreu o crime?
O caso aconteceu no dia 11 de julho, na casa da família, no bairro Alvarenga, em São Bernardo. Lucas teria passado mal 30 minutos depois do jantar, logo após comer bolinhos de mandioca.
À polícia, o padrasto detalhou o crime. Ele disse que colocou chumbinho no creme de leite, passou nos bolinhos e deu para o Lucas, a esposa e o irmão mais novo, Thiago da Silva Santos, 17. Além disso, Admilson disse que também teria consumido o alimento envenenado, pois queria tirar a própria vida.
“Comprei creme de leite e bolinhos. Misturei o chumbinho no pote de creme de leite, mas não tudo, e coloquei nos bolinhos. Coloquei na minha boca, queimou, depois dei um pouco para o Lucas, um pouco para o Tiago, e para ela (Rosemeire)”, confessou o homem no depoimento.
Após começar a passar mal, um vizinho teria ajudado a socorrer Lucas. O jovem recebeu atendimento na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Alvarenga e na madrugada de sábado (12) foi transferido para o HU, onde ficou internado por oito dias na UTI em estado grave. Segundo o diretor técnico do hospital, Fábio Silveira, a vítima ficou pelo menos 20 minutos em parada cardiorrespiratória antes de ser transferido a unidade hospitalar.
Qual foi a motivação do crime?
Segundo a delegada responsável pelo caso, Liliane Doretto, o padrasto mantinha uma relação íntima e abusiva com Lucas – ela investiga se o homem abusou sexualmente do jovem. Conforme a apuração policial, Admilson teria agido em razão de ciúmes, controle e sentimento de rejeição. Lucas teria expressado sua vontade de sair de casa e iria começar um novo trabalho na segunda-feira (14). O jovem trabalhava com elétrica e obras.
Um print obtido pelo Diário mostra uma conversa entre Admilson e Cleone Campos, 58, pastor da igreja que Lucas frequentava, em que o padrasto afirma estar com depressão e revela que já pensou em matar o enteado, mas que Deus o havia livrado disso. Segundo o líder religioso, o conteúdo teria sido enviado na semana anterior ao envenenamento.
Quem são os investigados?
Além do padrasto, Admilson Ferreira dos Santos, a polícia apura a participação de pelo menos duas outras pessoas: a mãe da vítima, Rosemeire da Silva, por comprar, a pedido do esposo, o chumbinho e um homem que comercializou o veneno. O comerciante confirmou que vendeu a substância para a mulher e foi preso em flagrante no dia 17 por vender o produto sem autorização dos órgãos competentes.
De acordo com a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), o indivíduo foi encaminhado à audiência de custódia no dia seguinte e liberado por decisão judicial.
O padrasto se tornou o principal suspeito de cometer o crime após reviravoltas no caso. Até o dia 15, a polícia suspeitava da irmã de Admilson, Cláudia Pereira dos Santos Daliessi, 43. Porém, com inconsistências do padrasto durante depoimento e também com novas provas coletadas, o homem se tornou o alvo da investigação. Na mesma semana, o padrasto confessou que envenenou Lucas.
Por que a irmã deixou de ser a principal suspeita?
Nos primeiros dias, a polícia trabalhava com a hipótese de que Cláudia Pereira dos Santos Daliessi poderia ser a responsável por envenenar o jovem de São Bernardo. Isso porque a tia da vítima preparou os bolinhos de mandioca que estavam envenenados e foram consumidos pela família na noite do dia 11.
No dia seguinte ao envenenamento, a mãe de Lucas, Rosemeire, e o padrasto, Admilson, prestaram depoimento na delegacia e disseram que os familiares não possuíam bom relacionamento com a mulher. Cláudia também compareceu à unidade policial no dia 12 e confirmou que enviou cinco bolinhos de mandioca para a família do irmão e negou ter envenenado o alimento. Segundo o BO (Boletim de Ocorrência), a tia contou que também ingeriu salgados com seus familiares e animais de estimação e que ninguém teria passado mal.
Cláudia deixa se ser a principal suspeita na terça-feira (15), três dias depois do crime, após depor pela segunda vez. A delegada Liliane Doretto disse que o padrasto apresentou inconsistências nos depoimentos prestados à polícia. Muito nervoso, o homem tentou culpar a irmã pelo envenenamento, porém a versão teria sido contrariada por provas apresentadas por Cláudia.
“Foram muitas diferenças e controvérsias por parte de Admilson. Ele alegou (inclusive no BO) que ele teria um relacionamento conturbado com a irmã. Ele disse que Cláudia teria oferecido os bolinhos, mas áudios comprovaram que, na verdade, foi ele quem pediu os salgados e também ele foi o responsável por manusear e dar os bolinhos pontualmente para cada membro da família, informação confirmada pela mãe”, explicou a delegada.
Além disso, antes de ser anunciado como principal suspeito do crime pela polícia, quatro dos sete irmãos de Lucas compareceram na terça-feira ao 8° DP (Distrito Policial) e falaram que não descartavam a participação de Ademilson, ou até mesmo autoria do crime. Segundo os familiares, a relação com o padrasto nunca foi boa e ele possui histórico de agressão contra os enteados.
Por que o padrasto passou a ser investigado por abuso sexual?
A Polícia Civil de São Bernardo acusa Ademilson de abusar sexualmente de Lucas e de outras duas pessoas, na época as vítimas tinham entre 4 e 9 anos, conforme a delegada. A esposa e mãe de Lucas, Rosemeire da Silva Santos, afirmou em conversa com a delegada que sabia dos abusos, pois o acusado teria assumido para ela anos atrás.
“A mãe disse que acreditava que ele era o culpado (do envenenamento), pois no dia eles (Lucas e Admilson) tinham brigado. Antes ela não conseguia falar, mas depois que os filhos denunciaram os abusos ela se sentiu mais encorajada”, revelou a autoridade policial.
A autoridade policial, Liliane Doretto, afirmou que os crimes de abuso aconteceram durante anos e que não há denúncias formais devido ao controle emocional sobre as vítimas, inclusive sobre Lucas.
No dia da prisão do acusado, uma sobrinha de Admilson e prima de consideração de Lucas, Nayara Pereira dos Santos, 29, denunciou ser uma das vítimas dos abusos sexuais. Ela disse que chegou a morar com ele durante um período quando era criança e toda a família sabia das violações, porém ninguém procurou a polícia ou qualquer outro órgão para denunciar.
“A família inteira sabe que ele é assim. Ele começou a me violar quando tinha apenas 6 anos, passava a mão em mim enquanto tomava banho, mexia nas minhas partes íntimas. Teve que acontecer o pior para que ele seja finalmente preso. O Admilson abusou de todos os irmãos, mas ele sempre ameaçou, falava que ia matar, deixar de castigo e que ninguém iria acreditar na denúncia. Sem contar que ele é manipulador”, denunciou Santos.
Qual o papel da mãe?
Rosemeire da Silva, mãe da vítima, passou a ser investigada pela Polícia Civil de São Bernardo por comprar o chumbinho, em uma loja de Diadema, a pedido do padrasto, que confessou ter envenenado o enteado com essa substância.
À polícia, a mulher afirmou em conversa com a delegada responsável pelo caso, Liliane Doretto, que sabia dos abusos, pois o acusado teria assumido para ela anos atrás.
A autoridade policial solicitou um laudo psiquiátrico para avaliar se a mãe tinha capacidade de entender a gravidade da situação de violência sexual envolvendo os filhos. A avaliação busca apurar se ela falhou no dever legal de proteção, podendo ser responsabilizada como coautora, caso tenha se omitido de forma consciente.
“Ela vem de relacionamentos abusivos. Ela tinha conhecimento dos abusos cometidos por Admilson, porque certa vez, o próprio Admilson falou para ela que abusava de um dos filhos. Ela sabia que seus filhos passavam por alguma situação. Agora, até que ponto ela conseguia se indispor diante do caráter criminoso de um crime e denunciar? Eu não consigo avaliar sem um laudo psiquiátrico pertinente”, explicou Doretto.
A delegada reforça a necessidade de compreender o papel de Rosemeire. “Todo pai e mãe, pela lei, é um garantidor. Quando ele deixa de proteger, passa a assumir a conduta criminosa realizada contra a sua prole, como se coautor fosse.”
O que falta esclarecer?
O resultado do laudo psiquiátrico de Rosemeire é essencial para definição se a mãe de Lucas pode ou não ser indiciada em relação aos supostos abusos cometidos pelo padrasto. A investigação de envenenamento também motivou uma denúncia anônima de que Admilson teria matado um familiar em outro estado, com a mesma substância, para encobrir os abusos sexuais.
“Há denúncias que ele matou um parente em Minas Gerais envenenado, supostamente porque essa pessoa tenha descoberto que ele abusava do Lucas e na ocasião ele iria até a polícia. Sabendo que ele poderia denunciá-lo, ele teria envenenado. Isso é uma hipótese, uma denúncia anônima que recebemos”, afirmou a delegada do caso.
A possível conexão entre os dois crimes foi repassada à Polícia Civil de Minas Gerais. Os desdobramentos irão ser de titularidade da autoridade do estado mineiro onde ocorreram os fatos. A polícia ainda aguarda os resultados dos exames do IML (Instituto Médico Legal) e toxicológicos realizados pela Prefeitura para confirmar qual substância teria matado Lucas.
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