Artigo Entre os profissionais do volante, essa companhia tem nome e rosto: São Cristóvão. Mais do que padroeiro, ele representa o elo de esperança no retorno seguro, no desvio do perigo invisível, na força que falta quando o corpo já cede ao cansaço
FOTO: Diocese de Montenegro

Em cada freada no acostamento, cada café no posto, cada madrugada sob chuva ou a cada dia sob sol, existe algo invisível que move o motorista. A fé que viaja conosco. Quem vive da estrada aprende cedo que há limites para o que a experiência ensina e para o que a técnica resolve. A cada dia, enfrentamos o desconhecido – e, no desconhecido, o sagrado se torna uma companhia necessária.
Entre os profissionais do volante, essa companhia tem nome e rosto: São Cristóvão. Mais do que padroeiro, ele representa o elo de esperança no retorno seguro, no desvio do perigo invisível, na força que falta quando o corpo já cede ao cansaço. A história do santo que carrega o Menino Jesus nos ombros atravessando um rio reflete, de certa forma, a nossa própria missão, que é carregar, conduzir e proteger aquilo que nos é confiado, por longos caminhos e sob condições muitas vezes adversas.
Não é por acaso que São Cristóvão foi escolhido como padroeiro dos motoristas e viajantes. Ele simboliza a transformação pela qual todo condutor passa, cedo ou tarde: deixar para trás a arrogância de quem pensa controlar o caminho e aceitar a humildade de quem sabe que, na estrada, nada é garantido.
O santo era, segundo conta a tradição, um guerreiro forte e temido que, ao encontrar o verdadeiro sentido da vida, trocou as armas pelo serviço ao próximo, carregando um a um nos ombros, ajudando a atravessar.
Assim como Cristóvão, aprendemos, a cada viagem, que o verdadeiro valor não está apenas no destino, mas no percurso e em como nos colocamos diante dele. Guiar um caminhão, um táxi ou um ônibus não é apenas um ofício técnico: é uma travessia diária, física e espiritual.
A fé que trazemos no coração também se manifesta em pequenos gestos. Um escapulário pendurado no retrovisor. Uma prece silenciosa antes da partida. Um agradecimento após a chegada. Um olhar para o céu ao perceber que, por pouco, algo grave não aconteceu. Tudo isso expressa o reconhecimento, muitas vezes calado, de que há algo maior nos acompanhando.
A verdade é que nunca sabemos o que vai aparecer no quilômetro seguinte. A fé em São Cristóvão nos traz esse elo de esperança, de que a chegada segura não depende apenas de nós, mas da proteção divina que pedimos e agradecemos.
Por tudo isso, celebrar São Cristóvão não é apenas uma tradição religiosa. É um ato de resistência emocional e espiritual em uma profissão cada vez mais desafiadora. É renovar o compromisso silencioso que cada motorista faz consigo mesmo: seguir em frente, apesar dos riscos, confiando que não está sozinho.
Que cada um de nós continue encontrando forças na fé e humildade na direção. Que São Cristóvão, portador de Cristo e protetor das estradas, siga ao nosso lado. Não só no dia 25 de julho, mas em cada viagem de nossas vidas.
Marcio Galdino é diretor regional do Sinaceg (Sindicato Nacional dos Cegonheiros).
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