Artigo Nos últimos dias, o País foi sacudido por uma reportagem do Fantástico que expôs um caso revoltante: uma criança autista de apenas quatro anos foi encontrada amarrada dentro do banheiro de uma escola em Araucária, no Paraná. O episódio escancara não apenas a violência explícita contra uma criança em situação de vulnerabilidade, mas também uma sucessão de absurdos: estagiários atuando como coordenadores pedagógicos, ausência de formação adequada e um ambiente escolar que não protege – pelo contrário, violenta.
A situação é tão absurda em todos os níveis que parece fictícia. Mas não é. E o que talvez não esteja sendo dito com a devida ênfase é que este não é um caso isolado. Há uma crescente evidência de violência contra pessoas em situação de vulnerabilidade. Em muitos casos, como esse, a criança sequer possui repertório para denunciar.
Estamos diante de um problema estrutural. Há negligência, sobrecarga, falta de preparo e, sim, em alguns casos, atuação criminosa. Trabalhar com crianças exige formação e suporte. Com crianças com deficiência, ainda mais. Mas nada, absolutamente nada, justifica a violência. Amarrar uma criança não é consequência do cansaço – é crime.
E há ainda o outro lado da moeda: o oportunismo. À medida que o autismo ganha visibilidade, cresce também o número de pessoas que tentam lucrar ou se promover sobre a dor alheia. A própria dona da escola envolvida se apresenta nas redes como especialista, reproduzindo frases genéricas. Falar sobre autismo, de forma eloquente, é possível. Conhecer o tema, também. Mas há algo que não se ensina: gostar de verdade do que se faz. E isso – o cuidado genuíno, o afeto, o respeito pela história do outro – é o que separa quem quer contribuir de quem só busca palco.
É urgente que esse debate saia das redes e entre nas escolas, nas formações, nos conselhos tutelares e na comunidade. E é ainda mais urgente que o poder público fiscalize, atue e responsabilize – não apenas quem amarrou a criança, mas todo o sistema que tornou isso possível.
O horror desse caso não está apenas no laço que prendeu um menino de 4 anos a uma cadeira. Está em tudo que se desamarrou: o pacto de proteção, a confiança das famílias e o cuidado com os vulneráveis.
Que esse não seja só mais um caso do noticiário. Que seja o basta que não demos antes.
Valquíria Wollmann é mãe atípica, possui Mestrado em Análise do Comportamento, Especialização em ABA Aplicada ao Autismo e à Deficiência Intelectual e atua como diretora clínica da Potencializa Comportamental.
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