Política Titulo Artigo

Governo desmonta indústria automotiva

Gregório José Lourenço Simão
10/07/2025 | 09:30
Compartilhar notícia
 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Senhoras e senhores, o circo pegou fogo. E o palhaço – aquele mesmo que um dia sonhou com um fusquinha financiado – agora dirige um SUV chinês com entrada facilitada, 60 vezes no carnê e capinha de banco com estampa de dragão. O Brasil, sempre muito soberano em seus devaneios tropicais, acaba de protagonizar mais um capítulo do clássico: “Como entregar a economia nacional com um sorriso na cara e sem nota fiscal.”

Chegaram 7.000 veículos chineses. De uma tacada só. Sete mil! Não é ficção científica, é realismo mágico com sabor de miojo de camarão e bateria de lítio. Desembarcaram nos nossos portos como quem despeja contêiner de esperança barata, aplaudidos por consumidores e chorados por empresários que, até ontem, ainda achavam que estavam concorrendo com alguém.

DGABC

A desculpa? “Alta demanda.” Essa demanda que surgiu do nada, tipo visita de sogra domingo à noite. Uma demanda que só aparece quando o preço é de banana – banana sem agrotóxico e com cashback.

Enquanto isso, a indústria nacional – aquela que ainda fabrica peças, emprega gente, paga imposto e tenta sobreviver entre a burocracia e o fio da navalha – essa mesma está sendo gentilmente empurrada para o abismo, sem airbag, sem freio e sem plano B.

E você acha que para por aí? As pequenas fábricas de autopeças, os fornecedores locais, os mecânicos, os transportadores, os engenheiros recém-formados... todos esses vão virar estatística em planilha de Excel, enquanto o país importa carro com comando por voz e exporta mão de obra qualificada pra dirigir Uber.

Mas calma que tem plot twist. O mesmo governo que há dois anos taxou o e-commerce chinês, derrubando metade do varejo nacional, agora assiste passivamente ao desfile dos carros importados como se fosse o Carnaval da desindustrialização.

E o que o povo faz? Vai feliz da vida para o Aliexpress, para o Temu, para o SheinCars, sei lá. Compra de tudo: escorredor de arroz com Wi-Fi, purificador de ar que canta K-pop, e agora, claro... SUV com painel que dá bom dia em mandarim.

O Brasil virou oficialmente o País onde é mais fácil comprar um carro chinês do que entender a conta de luz. E os chineses? Agradecem com reverência milenar. Fazem dancinha no TikTok patrocinado. Tudo isso sem invadir com tanques, sem guerra, sem míssil. Só QR Code, frete grátis e parcelamento.

E no meio disso tudo, o que sobra para a gente? Desemprego. Déficit. Dependência. Porque aqui, o futuro chega num contêiner... e leva junto milhares de empregos embalados a vácuo. Não dá para chamar isso de “progresso” se ele não gera emprego aqui. Isso é progresso para lá. E retrocesso pra nós. O jeitinho chinês é eficiente, calculado, estratégico. Já o nosso continua sendo o de sempre: importar soluções, exportar empregos e terceirizar o futuro.

Gregório José Lourenço Simão é jornalista, radialista e filósofo.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;