Abaixa adesão São Caetano e Rio Grande focam na cobertura vacinal; relatório inédito aponta que 108 municípios no Estado não alcançaram cobertura
FOTO: Denis Maciel/DGABC

No Estado, 108 municípios, sendo dois no Grande ABC, São Caetano e Rio Grande da Serra, não atingiram em 2023 a meta de cobertura vacinal para nenhum imunizante do calendário infantil, segundo relatório inédito do IQC (Instituto Questão de Ciência) em parceria com a SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Para melhorar esse resultado, as cidades já adotaram busca ativa (localização dos não vacinados), entre outras medidas.
O Anuário VacinaBR 2025 analisou inicialmente os imunizantes destinados à população infantil estipulados no PNI (Programa Nacional de Imunizações). Após a divulgação do relatório no dia 17 de junho, o IQC realizou uma revisão metodológica e o instituto decidiu trabalhar com as informações de metas atingidas, agrupando os dados por doenças em vez de vacinas, já que municípios diferentes podem, por diversos motivos, usar imunizantes distintos para as mesmas doenças, conforme informou Gabriel Maia, coordenador de análise de dados.
São Caetano e Rio Grande da Serra não atingiram a meta de imunização infantil, que varia entre 90% e 95% de cobertura do público-alvo, para nenhuma das seguintes doenças: poliomielite, difteria, tétano e coqueluche,<TB>sarampo, caxumba e rubéola, hepatite B, formas graves de tuberculose, haemophilus influenzae tipo B, febre amarela, rotavírus humano, 10 sorotipos de pneumococos, meningococo C, varicela, hepatite.
O anuário é fruto do cruzamento de dados públicos de vacinação, provenientes do DataSUS e do InfoMS, com dados populacionais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos. Sobre a baixa cobertura em 2023, a Prefeitura de São Caetano disse que existe uma barreira para realizar análise de dados sobre coberturas vacinais e que os percentuais apresentados no anuário são divergentes dos números do Ministério da Saúde – argumento também apresentado pela Prefeitura de São Bernardo.
Apesar do apontamento metodológico sobre o levantamento do estudo inédito, o Paço de São Caetano destacou que diversos fatores contribuem para baixa cobertura vacinal infantil, como notícias falsas sobre os imunizantes veiculadas nas redes sociais, desabastecimento parcial de alguns imunobiológicos, coleta de dados de qualidade e inserção dessas informações nos sistemas oficiais.
"Podemos destacar o próprio sucesso do Programa Nacional de Imunização, responsável pela erradicação de algumas doenças e pelo controle de tantas outras. Fenômeno que levou a falsa sensação de que as enfermidades não existam mais para parte da população, que consequentemente não buscaram proteção”, pontuou a administração.
Já Rio Grande da Serra disse que enfrenta desafios multifatoriais que impactam diretamente na cobertura vacinal, entre eles hesitação vacinal por parte da população, mudanças de endereço sem atualização cadastral e falta de funcionários. “Além disso, o impacto da pandemia de Covid-19 ainda reflete na rotina vacinal, com prejuízos acumulados na adesão às vacinas do calendário infantil.”
ALCANCE
Apenas 26, das 645 cidades de São Paulo, alcançaram a meta de cobertura vacinal em 2023, ou seja, 96% dos municípios paulistas não atingiram as taxas indicadas pelo PNI – nenhum do Grande ABC está na lista. O anuário destaca ainda que naquele ano nenhuma vacina infantil do calendário nacional atingiu a meta de cobertura em todos os estados brasileiros, com destaque negativo para poliomielite, meningococo C, Hib e varicela.
Ainda segundo o anuário, o País registrou uma queda contínua e generalizada nas coberturas vacinais infantis a partir de 2015, intensificada em alguns casos após 2020, possivelmente devido ao impacto da pandemia de Covid-19. Houve uma recuperação em 2022 e acelerada em 2023. O estudo inédito, que compreende o período que vai de 2000 a 2023, destaca o abandono vacinal como um problema crônico: imunizantes que exigem múltiplas doses, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), apresentam evasão entre a primeira e a segunda dose.
Na comparação anual, entre 2022 e 2023, quase todas as doenças, que possuem imunizantes no calendário nacional infantil, apresentaram aumento na taxa de cobertura vacinal no Grande ABC. A exceção está nas enfermidades como formas graves de tuberculose, que passou de 89% em 2022 para 80% em 2023; meningococo C que saiu de 80,7% para 74,4% e varicela que estava com cobertura de 77% e caiu para 64,2%.
“As disparidades regionais e municipais também preocupam. Mesmo quando a média estadual parece satisfatória, há variação interna, com municípios vizinhos apresentando coberturas vacinais drasticamente diferentes. Isso cria bolsões de baixa cobertura, tornando essas áreas vulneráveis ao ressurgimento de doenças”, esclareceu SBIm.
Para tentar reverter o cenário de baixa cobertura, as sete prefeituras disseram que adotam estratégias de ampliação do acesso e da conscientização da população, entre elas busca ativa dos faltosos com agentes comunitários, vacinação casa a casa com campanhas extramuros, vacinação nas escolas, funcionamento estendido das unidades de saúde, qualificação e contratação de profissionais de saúde e divulgação contínua nas redes sociais. São Caetano afirmou que o conjunto desses esforços já podem ser evidenciados no “aumento das taxas de cobertura vacinal em 2024 e em 2025 no município”.
‘Vacinar é uma ação coletiva’
A vacinação infantil no País enfrenta diversos desafios como a desinformação alimentada por fake news, falsa sensação de segurança devido ao controle de diversas doenças, horário comercial de funcionamento das unidades de saúde e até problemas com estoques em algumas regiões, conforme explicou o infectologista e vice-presidente da SPI (Sociedade Paulista de Infectologia), Rodrigo Santana.
“O Brasil tem um PNI (Programa Nacional de Imunizações) que é referência internacional e já foi responsável por conquistas marcantes na saúde pública, como a eliminação da poliomielite e o controle de várias doenças infecciosas. No entanto, manter altas coberturas vacinais é um desafio crescente, e não só no Brasil. Vários países enfrentam dificuldades semelhantes, especialmente após a pandemia, que impactou a confiança nas vacinas e desorganizou rotinas de saúde”, ressaltou o médico.
Santana reforçou que para reverter esse cenário é necessária uma combinação de esforços. O primeiro deles é reconquistar a confiança da população por meio de informações claras, baseadas em evidências, mas também acessíveis e próximas da realidade das famílias. Outra frente importante é o acompanhamento dos faltosos e a ampliação de atendimento nas unidades de saúde.
“Vacinar é uma ação coletiva, e cada dose aplicada representa um passo na proteção de toda a sociedade. As vacinas oferecidas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) são seguras e passam por um processo rigoroso antes de serem liberadas para a população. A maioria dos pais ainda acredita na vacinação, mas muitos estão confusos ou mal-informados. Às vezes, basta uma dúvida não respondida ou um boato mal explicado para a família desistir de ir ao posto. Por isso, combater a desinformação com empatia, paciência e ciência é fundamental para recuperar a confiança das pessoas”, finalizou o infectologista
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.