Entrevista da Semana A negação de parte da população sobre a segurança e eficiência da vacina contra a Influenza preocupa o pneumologista Elie Fiss, responsável pelo atendimento de milhares de pacientes ao longo de décadas e pela formação de centenas de especialistas em sua área como professor doutor titular na Faculdade de Medicina do ABC
FOTO: @reab_pulmonar_fmabc/Instagram

A negação de parte da população sobre a segurança e eficiência da vacina contra a Influenza preocupa o pneumologista Elie Fiss, responsável pelo atendimento de milhares de pacientes ao longo de décadas e pela formação de centenas de especialistas em sua área como professor doutor titular na Faculdade de Medicina do ABC.
Fiss já clinicou em hospitais renomados, como o Albert Einstein, e participou de pesquisas sobre asma, reabilitação pulmonar, tosse crônica e célula tronco em pacientes portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica. Nessa entrevista, ele fala sobre como a vacina pode evitar mortes.
RAIO-X
Nome: Elie Fiss
Onde nasceu: São Paulo
Onde mora: São Paulo
Formação: Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC (1979) e doutorado em Pneumologia pela USP (1993),
Um lugar: Gosta do mar.
Time do coração: Santos
O vírus Influenza atualmente é a principal causa de complicações graves e mortes por SRAG (Síndromes Respiratórias Agudas) passando o Covid. Isso, segundo estudos, como o da Fundação Oswaldo Cruz. O senhor concorda? O que tem visto na clínica no dia a dia?
Concordo. Realmente a infecção pelo Influenza, a gripe, independentemente de qual o tipo de vírus que ele seja, desde o início do outono tivemos aumento do número de ocorrências, no início também com alguns casos de Covid. Mas no último mês e meio, temos visto a grande maioria dos quadros infecciosos serem decorrentes de Influenza. Especialmente nos idosos, a chance de complicação é muito maior levando à necessidade de internação, UTI, o que caracteriza a síndrome respiratória aguda grave.
Então não seria exagero dizer que, se continuarmos nesse caminho, poderemos ter mais mortes em decorrência do Influenza do que por Covid nesse período?
No momento isso é realidade. Em maio e junho a maioria dos casos que atendi foram altamente significativos por conta do Influenza, frente a no máximo dois por Covid e até demais viroses.
Como o senhor faz para convencer e informar as pessoas que a vacina contra o vírus Influenza pode salvar vidas?
Temos um retrocesso no tempo. (Na mentalidade) Nós estamos voltando 30 anos no período em que começou a vacinação contra Influenza. Naquela época, até alguns médicos de algumas especialidades nem recomendavam. Essa história se repete em todas as vacinações. Lembro muito bem que quando surgiu a vacina contra Influenza, era uma só para duas populações distintas, as dos hemisférios Norte e Sul, então naturalmente houve falhas, depois teve uma vacina só para o hemisfério Sul e os resultados foram melhores e melhores. Estudos mostraram que poucos pneumologistas e infectologistas naquela época recomendavam a vacinação.
E isso mudou como, ao longo dessas três décadas?
Então, depois de muitas campanhas esclarecedoras, e depois de muitos surtos de Influenza e de gripes, especialmente do H1N1, a população se convenceu de que tomar a vacina anualmente trazia resultados.
Informação, então, é necessária e aliada?
Sempre. Você pode me perguntar: as campanhas vão reduzir 100% do número de complicações? Não, mas certamente contribuem. Ao longo dos anos, o vírus Influenza teve várias mutações, mas a vacina evolui e reduz muito, muito, o número de agravamentos de quadros e consequentemente de internações hospitalares.
E quando essa percepção da população sobre o benefício da vacina retrocedeu?
Quando atingimos um alto índice da cobertura vacinal depois da pandemia de Covid veio aquela onda de notícias e depoimentos falsos ou errados. Pessoas começaram até evitar a vacina por isso. E hoje, infelizmente, o que se vê é que o sucesso vacinal no Brasil em todas faixas etárias, o que era um exemplo para o mundo, caiu muito novamente.
Parte da classe médica também precisa ser conscientizada?
Sim. Precisa ser estimulada a orientar seus pacientes a tomar vacinas.
Sobre essa desconfiança atual e para tranquilizar a população, no caso da Influenza, a vacina pode causar reações graves ou fatais?
Não. A vacina tem a mesma chance de efeito colateral no adulto, como as que aplicamos nas crianças. Dor no local de aplicação, uma dor no corpo ou febre baixa no máximo no decorrer de 24, 48 horas vão estar resolvidas sem precisar de medicação. Tirando casos raríssimos de alergia a proteínas, não vemos na enorme maioria dos casos alguma reação grave. É extremamente raro. Mais do que um por milhão e mesmo assim não é um efeito colateral grave.
Falando em necessidade de medicações para combater supostos efeitos colaterais, ou pior, a automedicação com remédios para gripe que são altamente acessíveis, o que seria algo preocupante, como o senhor vê essa questão?
Esses medicamentos são para tratar sintomas. São nalgésicos, antipiréticos (para controlar febre) e descongestionantes. Eu acho que o maior cuidado ao consumir esses medicamentos deve ser tomado especialmente com os descongestionantes pelas pessoas que têm pressão alta, fora isso, só se o indivíduo tiver alguma alergia. São medicamentos considerados de venda livre, pois simplesmente combatem sintomas. Ele não são antigripais, não são antivírus Influenza.
O senhor concorda que ainda precisamos entender que existem como causadores de enfermidades vírus e bactérias? Para cada causa existe prevenção e tratamento. O senhor pode explicar isso melhor?
Sim. Para a prevenção de vírus e algumas bactérias existem vacinas. E para algumas das demais bactérias existem o que conhecemos como antibióticos.
Todos esses contágios podem acontecer por contatos entres seres humanos. Alguns médicos e especialistas defendem a volta do uso de máscaras, ou a adoção delas no dia a dia, como acontece há anos em países asiáticos. Qual a opinião do senhor sobre esse costume?
Eu acho que o uso de máscara não é costume, é uma questão de educação e respeito ao próximo. Não é mais uma questão de saúde pública. Mas a pessoa que tiver algum sintoma respiratório pode usar máscara. Não que ela vá evitar completamente a contaminação, é uma barreira.
Mas a máscara resolve?
Essa barreira diminui um pouco a transmissibilidade do vírus. Acho que isso é uma questão de bom tom, de educação com relação ao próximo e não como uma medida a ser tomada coletivamente.
Mas doutor, o ser humano pode tender a ser egoísta, no sentido de primeiro se proteger. Podemos dizer que a máscara ainda hoje também ajuda a nos proteger de contaminações externas, principalmente em espaços de aglomeração, como transporte coletivo, por exemplo? Ou seja, podemos usar para não piorar a nossa própria infecção?
Ajuda, sim. Mas eu tenho visto muitas pessoas educadas, que chegam ao consultório com sintomas respiratórios já usando máscaras. Sinto que já existe uma maior conscientização. Além do uso de máscaras, continuam valendo outras medidas de segurança priorizadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para combater surtos e questões do gênero. Entre as medidas mais eficazes podemos incluir lavar as mãos com frequência, evitar levar à boca mãos que não foram lavadas, e também ao nariz, usar e depois descartar tecidos quando espirrar e tossir. Como disse, isso é uma questão de bom tom e educação.
E falando em dicas de prevenção e fortalecimento da imunização de nosso organismo contra doenças do pulmão e respiratórias, lembro bem na infância de meus pais me fazerem tomar limão com mel, sempre que começava um resfriado. Até onde alimentos contribuem?
É a vitamina C, mas não é isso que vai prevenir, não. O que é o mais importante para melhorar a imunidade é uma alimentação saudável. Uma alimentação completa, com carboidrato, proteína, gordura, frutas, verduras, que contém os complexos vitamínicos. A boa hidratação e a atividade física também ajudam. Acho que isso são hábitos que devem ser incorporados à vida diária das pessoas, não só no outono e inverno, mas durante a vida inteira.
O inverno costuma ser mais seco na nossa região Sudeste. Isso, por conta da falta de evaporação das águas e afeta nosso sistema respiratório. Sobre a hidração diária, quais suas recomendações?
Beber ao menos 2,5 litros de água por dia. Caso não tenha sede, note se a boca não está seca e se hidrate. Hidratantes corporais, se possível, são recomendados.
Outra questão que surge nessas estações do ano, outono e inverno, o frio faz mal? Ou o frio faz mal porque nós ficamos muito juntos em ambientes fechados?
Esse é o principal ponto no frio. As pessoas ficam mais próximas em ambientes não ventilados a ponto de não haver troca do ar. O que o frio também pode ocasionar é o aumento de sintomas respiratórios, mas para quem já tem uma doença crônica respiratória. por exemplo asma, bronquite crônica ou enfisema pulmonar. O ar frio pode funcionar como um irritante de vias aéreas, mas independentemente das infecções respiratórias.
Uma recomendação sua sobre o principal comportamento que devemos adotar não só no frio, mas em todos os momentos de convivência coletiva, por favor.
Deixar e manter os ambientes bem arejados, mesmo no frio.
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