Dia do Orgulho No Dia Internacional do Orgulho, moradores da região falam sobre as dificuldades de chegar na velhice com saúde e os direitos garantidos
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Quantas pessoas homossexuais com mais de 60 anos você conhece? Agora a questão fica ainda mais complexa, quantos homens ou mulheres transexuais com mais de 50 anos você se lembra? Apesar de o envelhecimento ser um processo biológico natural do ser humano, para alguns integrantes da comunidade LGBTQIA+ a velhice ainda é fruto de resistência.
O envelhecimento dessa população é marcado por desafios como a falta de acesso a direitos básicos, como saúde de qualidade, além de barreiras significativas em áreas como emprego e educação. No outro extremo, o preconceito e a violência fazem com que a expectativa de vida dessa comunidade seja drasticamente reduzida. Em 2024, o Brasil registrou 122 mortes de pessoas trans e travestis, mantendo-se pelo 16º ano consecutivo como o país que mais mata essa população no mundo, segundo dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). O levantamento revela ainda que a expectativa de vida de pessoas trans é de apenas 35 anos.
A administradora e apresentadora Karen Favalli, 58, conhecida como Marketty, já superou esse indicador estatístico. Moradora de Santo André e mulher trans, Marketty traz outro fator para o debate: o isolamento dessa população.
“A solidão, em particular, é um ponto crucial, pois à medida que envelhecem, muitos se sentem cada vez mais isolados, muitas vezes abandonados pela sociedade e até mesmo pelas suas próprias famílias. Isso torna o envelhecimento ainda mais doloroso, pois, além das questões externas, há o peso emocional da ausência de apoio e conexão afetiva”, destacou a administradora, que também é ativista pelos direitos da população LGBTQIA+.
O cabeleireiro e maquiador André Nascimento, 58 anos, faz shows em casas noturnas desde 1988, onde se apresenta como transformista como cover da cantora Tina Turner. Para ele, chegar à terceira idade é conseguir vencer a violência imposta a essa comunidade.
“Envelhecer sendo LGBTQIA+ no Brasil é um privilégio. Poder estar vivo e contar a nossa história é um ato de resistência. Nossa existência é pautada na luta por direitos e a data de hoje é para reconhecer toda essa história e também celebrar quem somos”, disse. Neste sábado (28) é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBT.
Militante e assessor de departamento da diversidade da Secretaria de Relações Políticas e Institucionais de Santo André, Marcelo Gil, 56, se considera um sobrevivente, pois, segundo ele, a média de vida de uma pessoa homossexual no Brasil é de 40 anos.
“Estou de pé, ainda mais sendo ativista da causa, chega a ser surpreendente. A gente não chegava à terceira idade, hoje alcançamos esse marco devido aos avanços nas políticas públicas nas últimas décadas, mas ainda há muito a ser feito. Continuamos lutando e resistindo ao preconceito, principalmente contra esse crescente conservadorismo. É uma barbárie o que eles propõem contra a existência da nossa população, que só busca viver e trabalhar”, alerta o ativista.
Violações
Gil também é presidente da ONG (Organização Não Governamental) ABCD’S, que atua no enfrentamento à homofobia e a transfobia na região, além de promover ações para aumentar a inclusão dessa população na sociedade. De janeiro a maio deste ano, os sete municípios do Grande ABC registraram 30 denúncias de violência contra população LGBTQIA+, no mesmo período do ano passado foram 49 queixas – redução de 38,7% em um ano, segundo dados do Disque 100.
“A homofobia destrói a pessoa mental e fisicamente. Porque são diversas as violências sofridas e as preocupações como falta de trabalho, preconceito no ambiente profissional, escolar e familiar, entre tantos outros. Infelizmente a taxa de suicídio na comunidade é muito alta. A transfobia é ainda mais forte, pois as pessoas acabam fazendo barbáries, como espancamento, lixamento, e até assassinato. Cada dia que um homossexual e uma trans e travesti saem de casa é um dia a mais de vida para eles”, finalizou Gil.
Celebrada na Capital no dia 22, a maior parada LGBT do mundo trouxe a questão do envelhecimento dessa população para o centro da discussão e da festa. Esse também será o tema da parada deste ano em Santo André, que vai ocorrer em 24 de agosto. Outros eventos programados para este ano na região são O Grito do Orgulho de Diadema, no dia 20 de julho e a terceira edição da Parada LGBTQIA+ de São Bernardo, no dia 14 de setembro.
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