Entrevista da semana
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Com cerca de 4.500 casos registrados em 2024, a violência contra médicos atinge níveis alarmantes no Brasil, uma média de 12 por dia. Os dados são do CFM (Conselho Federal de Medicina) e indicam o maior número da série histórica. Na região, um episódio recente em São Caetano, onde duas profissionais foram agredidas, escancarou a vulnerabilidade dos profissionais. Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Grande ABC, José Roberto Cardoso Murisset, é urgente repensar a estrutura de acolhimento e a segurança nas unidades de saúde com a adoção de medidas mais firmes contra os agressores.
RAIO X
Nome: José Roberto Cardoso Murisset
Aniversário: 8 de janeiro
Onde nasceu: Belém, Pará
Onde mora: São Paulo
Formação: Medicina pela UFPA (Universidade Federal do Pará)
Um lugar: São Paulo
Time do coração: Paysandu e Santos
Alguém que admira: O pai, Durval Murisset, in memorian
Um livro: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
Uma música: Canção da América, de Milton Nascimento
Um filme: Um Estranho no Ninho (1975 ), de Miloš Forman
O caso ocorrido no Hospital Márcia Braido, em São Caetano, foi extremo, mas infelizmente não é isolado. O Sr. tem percebido um aumento na frequência ou gravidade das agressões dentro das unidades de saúde?
Desde o fim do ano passado para cá, observamos, com base em levantamento do CFM (Conselho Federal de Medicina), que a situação tem se agravado. Segundo os dados, pelo número de boletins de ocorrência registrados, 12 médicos ou médicas são agredidos por dia no Brasil. Só em 2024 foram mais de 4.500 boletins de ocorrência, sendo que a maior parte deles foi registrada no Estado de São Paulo. Esse tipo de violência, infelizmente, tem crescido e não apenas em números. Também vemos isso refletido na cobertura da imprensa, com casos cada vez mais graves, como esse ocorrido no Hospital Márcia Braido, que é inadmissível. É uma agressão com grande violência contra profissionais da saúde. O que chama atenção nesse episódio específico é que, ao contrário de outros casos em que há queixas sobre a qualidade do atendimento, como alegações de demora, de que o médico não pediu exames ou foi negligente, não houve reclamação sobre a conduta médica. A criança foi atendida com rapidez e de forma adequada, e a mãe não demonstrou insatisfação com o atendimento em si.
Qual foi o motivo da agressão por parte da mãe?
O que motivou o episódio foi outro ponto: o pedido da mãe por um atestado médico para ela mesma, com os mesmos sete dias que a criança recebeu. É importante destacar que, quando uma criança recebe um atestado, a mãe ou o pai também tem direito a um atestado de acompanhamento e isso, de forma implícita, já é reconhecido pelas empresas como justificativa para a ausência do responsável durante o período. Esse caso teve uma dimensão muito séria, tanto pela violência quanto pela repercussão. Comunicamos o ocorrido ao CFM, ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) e a outros órgãos. É um alerta para que o tema da segurança dos profissionais de saúde seja tratado com urgência, não só aqui no Grande ABC, mas em todo o Brasil.
Quais medidas o sindicato e os próprios hospitais podem adotar na tentativa de prevenir essas situações de violência?
Nesse aspecto, é uma questão de segurança mesmo, não só do patrimônio, mas das pessoas. É preciso ter profissionais preparados, seguranças mais especializados no trato com esse tipo de situação e na defesa dos profissionais de saúde. Existe o segurança que cuida do patrimônio, da organização do ambiente, evita tumulto e controla filas. Porém, é importante ter alguém voltado especificamente para acompanhar situações que envolvam agressões, tanto verbais quanto físicas. Muitas vezes começa com ofensas e já seria o momento de agir, comunicar a delegacia, acionar a polícia, para que haja uma resposta rápida antes que a situação piore.
O episódio em São Caetano expôs a vulnerabilidade dos profissionais mesmo em ambientes com segurança. Como o Sr. enxerga o papel das administrações hospitalares nessas situações?
Foi uma situação extremamente desproporcional. Não vejo que tenha havido negligência por parte dos profissionais de segurança que estavam no hospital. Pelo contrário, eles agiram de forma ponderada. As imagens mostram que, mesmo sendo hostilizados, os seguranças não reagiram com violência e tentaram conduzir a situação da melhor maneira possível. Quando alguém chega ao ponto de agredir, quebrar equipamentos, é sinal de que algo está muito errado. Por isso, acredito que é necessário o endurecimento das punições, um caminho para coibir esse tipo de comportamento.
O que muda na rotina e no psicológico de um profissional da saúde que sofre esse tipo de agressão?
Uma agressão desse tipo pode ter efeitos profundos na saúde mental do profissional. Basta imaginar alguém que sofre um assalto: mesmo sem violência física, o trauma já é significativo. No caso de agressões em ambiente de trabalho, especialmente dentro de hospitais, isso pode ser ainda mais grave. Dependendo do histórico da pessoa, fatores genéticos, antecedentes de depressão ou ansiedade, esse tipo de situação pode desencadear transtorno de estresse pós-traumático, agravar quadros já existentes ou até gerar pensamentos suicidas. Há casos em que a pessoa desenvolve agorafobia, deixa de querer sair de casa ou retornar ao trabalho devido ao medo (de locais públicos). Muitos pensam até em mudar de unidade ou abandonar a profissão. No episódio de São Caetano estamos falando de médicas experientes, com décadas de carreira, que sempre atenderam com dignidade e humanidade, e que agora estão marcadas por essa violência. É fundamental que os municípios, por meio das secretarias de Saúde, ofereçam acompanhamento psicológico e psiquiátrico adequado. Isso vale não só para médicos, mas também para enfermeiros, técnicos, recepcionistas e outros profissionais que possam ser vítimas desse tipo de agressão. As consequên-cias emocionais podem ser duradouras.
Como o Sr. avalia o atual estado mental dos profissionais da saúde, especialmente após os últimos anos com crises no sistema público?
De forma geral, o SUS (Sistema Único de Saúde) ainda carece de estrutura adequada para cuidar da saúde mental dos próprios profissionais. Casos como o de agressões são apenas uma parte do problema. Há também médicos com quadros de depressão, ansiedade, dependência química e outras questões que não encontram suporte dentro da rede pública. Faltam equipamentos especializados voltados especificamente para atender esses profissionais. Há referências, sim, mas em número muito limitado, geralmente ligadas a universidades ou hospitais de ensino. Isso precisa ser revisto pelos gestores públicos. Além da segurança, é preciso pensar em políticas estruturadas de acolhimento e cuidado. Há até propostas tramitando visando à criação de delegacias específicas para registrar agressões contra profissionais de saúde. Tudo isso mostra a urgência de olhar para esse tema com mais seriedade. Do contrário, episódios como o de São Caetano podem se repetir e começar a estigmatizar determinados locais como recorrentes nesse tipo de violência.
Quais são os principais fatores dentro do ambiente hospitalar que mais afetam emocionalmente médicos e outros profissionais da linha de frente?
A profissão médica exige equilíbrio físico e emocional. O ambiente hospitalar, por si só, já impõe situações de alto estresse: emergências, paradas cardíacas, crianças engasgadas e casos graves que chegam a todo momento. Para quem já tem histórico de depressão, ansiedade, síndrome do pânico ou passou por outras situações traumáticas, como agressões ou acidentes, esse estresse pode se acumular e gerar um impacto ainda maior na saúde mental. Em alguns casos, episódios mais graves podem levar o profissional a precisar de afastamento, ou até mesmo à aposentadoria por questões de saúde. Por isso, a prevenção é fundamental. O gestor precisa entender que a estrutura hospitalar deve oferecer suporte psicológico não só diante de agressões, mas como parte do cotidiano, porque o ambiente em si já é muito exigente. Essa falha não é exclusiva do setor público. Muitos serviços privados também não oferecem apoio psicológico.
Existem programas regionais ou iniciativas dentro do Sindmed ABC que visem cuidar da saúde mental dos profissionais?
Somos um sindicato modesto. O Cremesp mantém uma câmara técnica que acompanha casos de violência, estresse emocional e estresse pós-traumático. O conselho recebe e orienta profissionais que enfrentam quadros de depressão, ansiedade, fobias sociais e outras condições psiquiátricas. Afinal, os médicos também fazem parte da estatística global: cerca de 8% a 10% das pessoas, em geral, sofrem com algum tipo de transtorno mental e entre os médicos não é diferente.
Na sua opinião, o medo e o desgaste emocional têm levado médicos a abandonar a profissão ou evitar determinadas especialidades ou unidades?
Isso pode acontecer, sim, especialmente entre profissionais mais velhos, mas não exclui os mais jovens. A violência pode afetar qualquer um. Há casos em que o médico, após um episódio traumático, decide que não quer mais atender pacientes, ou sequer permanecer na área assistencial. Em situações mais extremas, as unidades acabam afastando o profissional para tratamento psicológico ou psiquiátrico. Muitas vezes, esses médicos são realocados para funções administrativas, fora do atendimento direto, como forma de preservar sua saúde mental. É uma consequência real do medo e do desgaste acumulados.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.