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A ética familiar na boléia

Foi no Grande ABC, impulsionado pelo boom da indústria automobilística, que milhares de homens e mulheres simples encontraram nas fábricas e no transporte de veículos uma nova chance

14/05/2025 | 09:33
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Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O Brasil se move sobre rodas. Literalmente. Dos alimentos aos medicamentos, das roupas aos automóveis, tudo circula por nossas estradas, sustentadas pelo trabalho diário e muitas vezes invisível dos transportadores. Entre eles, uma categoria merece destaque pela responsabilidade que carrega: os cegonheiros. Somos cerca de 5 mil profissionais que transportam os carros recém-fabricados no País — e também os importados — que vão abastecer concessionárias e realizar sonhos de milhões de brasileiros.

Há, nesse contexto, algo que nos distingue para além da força logística que representamos. É um valor que, embora imaterial, sustenta nossa trajetória: a família.
 
Muitos de nós, cegonheiros, viemos de origens humildes. Somos filhos do Brasil profundo, como tantos nordestinos que, entre os anos 60 e 80, migraram para o Sudeste em busca de uma vida melhor. Foi no Grande ABC, impulsionado pelo boom da indústria automobilística, que milhares de homens e mulheres simples encontraram nas fábricas e no transporte de veículos uma nova chance. Entramos primeiro como ajudantes, depois como motoristas, até nos tornarmos empresários do volante, donos das nossas próprias cegonhas. Um percurso nada fácil,  mas sempre feito com dignidade. E trabalho duro.
 
A tradição entre os cegonheiros é passada de pai para filho. Não raro, veem-se três gerações trabalhando juntas. Quando um jovem entra na boleia de uma cegonha, raramente está apenas em busca de renda. Ele leva com ele o exemplo do avô, o ensinamento do pai, a expectativa de uma vida digna para seus filhos. Não há contrato formal que supere o compromisso que nasce nesse núcleo, no qual ética, disciplina e responsabilidade são exigidas antes mesmo da carteira de habilitação.
 
É por isso que, em nosso setor, ética e família caminham juntas. Um cegonheiro que carrega uma carga milionária de automóveis sabe que seu nome, sua reputação e o nome da sua família estão em jogo a cada entrega. A palavra – sempre – vale mais do que qualquer contrato. E essa confiança construída no dia a dia, geração após geração, sustenta a credibilidade de todo o setor.
 

Num mundo cada vez mais tecnológico e impessoal, essa herança humana e familiar é o que garante não apenas a eficiência, mas a resiliência da nossa atividade. Famílias fortes formam profissionais éticos. E setores produtivos sustentáveis.

Cabe ao Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) não apenas lutar por melhores condições de trabalho e remuneração, mas zelar por esses valores. Criamos espaços de convivência, oferecemos apoio jurídico e técnico, e investimos em iniciativas que mantêm viva essa cultura de pertencimento e respeito.
 

Nosso setor é estratégico, sim, mas só continuará forte se preservarmos o que nos trouxe até aqui. Como sempre dizemos entre nós: quem não honra sua origem se perde no futuro.

DGABC

Márcio Galdino, Diretor-regional do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg)




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