Artigo Eram pouco mais de oito horas da manhã de um dia frio quando soube, pelo Instagran de um amigo em missão na África, da partida do Papa Francisco. Perdido, relutei em acreditar que aquele senhor, que acenara em recuperação da Basílica de São Pedro, havia nos deixado.
Antes de agradecer a Francisco, preciso contextualizar este artigo. Com 26 anos e atuando na minha paróquia de origem, escrevi neste mesmo Diário sobre a renúncia de Bento XVI. Vivendo uma crise de fé – progressista por sobrevivência, mas também um defensor rigoroso da tradição – opinei sobre gesto unilateral que abalava a estabilidade da Igreja em um momento delicado. O texto gerou reações dos “eminentes” da comunidade e a repreensão do meu pároco, mas, também, o respeito de quem importava, os jovens – inclusive o pároco. Eles viam em mim uma certa liderança, ainda que fosse apenas para organizar uma procissão.
O conclave de 2013 elegeu Jorge Mario Bergoglio, um jesuíta, e sabia bem o que viria pela frente. E veio o primeiro gesto: o nome Francisco. Era o início de um movimento silencioso e irreversível.
Muitos de nós acolhemos o Papa e sua doutrina. No entanto, outros não perceberam a profundidade da mudança que se operava. E vimos nascer o que chamo de “Trumpismo paroquial” – uma resistência baseada mais em frustração ideológica do que em fé genuína. Surgiu, então, uma distorção perigosa: a caridade autêntica é condenada, e um catolicismo de superfície, sustentado por uma “fé” frágil e performática, está em ascensão. Esta é a grande incerteza desta Sede Vacante: como impedir este conservadorismo improdutivo que nos afasta da essência do cristianismo – o amor coletivo, a misericórdia, a dignidade do outro?
Sou grato a Francisco. Foi uma liderança rara, um símbolo de humanidade, empatia e coragem moral. Seus gestos ecoaram mais do que a “oração” midiática e a postura agressiva que transformou o altar em palanque e a fé em espetáculo. Ele abraçou os doentes, lavou os pés dos esquecidos, acolheu divorciados e os marginalizados. Até sua última bênção foi um lembrete: temos obrigações com Deus, com os outros e com a dignidade humana.
A Sede está vacante. Mas a presença de Francisco é força. Seu exemplo é um convite a manter viva a esperança na revolução, guiada por Cristo vivo, que Francisco resgatou com firmeza e doçura. A Sede está vaga, mas nos unimos em luto – e em compromisso. Que no “Habemus Papam”, possamos celebrar a vitória da Igreja de Francisco – que é, para mim, a mesma Igreja de Pedro e Paulo: o caminho autêntico para Jesus Cristo vivo.
Thiago Rocha é historiador, especialista em Ciência Política e ex-vereador de Santo André.
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