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Há um ano, vítima denunciava negligência no Hospital da Mulher de São Bernardo

Divulgação do primeiro caso impulsionou série de queixas contra o equipamento; Inquéritos foram para o Ministério Público

14/04/2025 | 08:17
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FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Há um ano, o ato de coragem de uma jovem de São Bernardo inspiraria outras pessoas a denunciarem situações traumáticas vividas no Hospital da Mulher de São Bernardo. No dia 14 de abril de 2024, o Diário publicava a primeira, de uma série de reportagens, sobre denúncias de negligência e violência obstéstrica contra o equipamento de saúde. 

Tudo começou com o relato de Raissa Falosi Santos, 21 anos, que ficou por 19 dias com uma compressa no seu corpo, após realizar parto normal na unidade hospitalar. O item esquecido só foi descoberto devido aos sintomas, como febre alta, sangramento, forte odor e cólicas. Para comprovar o fato, a jovem tirou foto do material cirúrgico quando o médico fez a retirada do objeto.

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Na época, Raissa registrou um BO (Boletim de Ocorrência) sobre o caso e realizou exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal). Apesar da situação traumática, a são-bernardense decidiu expor o caso, pois disse que ficou indignada com a irresponsabilidade e o descaso sofrido. “O pós da denúncia foi ainda mais traumático, inicialmente pensei que era um caso isolado, um problema que tinha acontecido somente comigo, mas descobri que acontecia com diversas pessoas”, destacou Raissa. 

Três dias depois da divulgação desse episódio, em 17 de abril, Arthur Henry Coimbra denunciou a morte suspeita de sua esposa, que ocorreu após o parto da filha no Hospital da Mulher de São Bernardo, um mês antes, em março de 2024. No dia seguinte a essa nova queixa, o caso da auxiliar de dentista, Priscila Tabata Benedito, 36, também veio à tona – a ocorrência ocorreu em julho de 2023, quando a paciente deu à luz, o bebê já estava morto e ela diz que o óbito ocorreu por demora na realização do parto.

As queixas seguiram nas semanas seguintes, assim como as manifestações realizadas pelas vítimas, inclusive em frente ao hospital. No total, foram denunciados nove casos, com seis mortes envolvidas, sendo de quatro bebês e de duas gestantes. Entre os óbitos está o de Giovanna Bianchi Dinalli e o bebê Antony, relatado pelo viúvo Adriano Batista de Lima, 31. Também tem o registro de Stella Luisa Alves, 21, que acusa a unidade hospitalar de trocar seu prontuário com uma paciente diabética, e de ter recebido insulina, o que teria ocasionado a morte da sua filha. 

A Polícia Civil de São Bernardo abriu investigação sobre todos os casos relatados acima. Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública), apenas a ocorrência de Giovanna Bianchi Dinalli (denunciada pelo seu marido Adriano Batista de Lima) segue em investigação por meio de inquérito policial instaurado pelo 1º Distrito Policial. 

“O esposo da vítima já foi ouvido e a autoridade policial aguarda o envio do prontuário médico solicitado ao hospital para auxiliar no completo esclarecimento dos fatos”, informou a Pasta. Os demais casos foram investigados pelos 1º, 2º e 6º Distritos Policiais do município e, após o esgotamento das diligências, os inquéritos foram relatados e encaminhados para apreciação do Poder Judiciário.

CONSEQUÊNCIAS

Após a divulgação das ocorrências, no mesmo mês, em abril, o secretário de Saúde do município, Geraldo Reple Sobrinho, instaurou comitê técnico para apurar as denúncias de erros médicos na unidade. De acordo com os esclarecimentos obtidos pelo Diário por meio da Lei de Acesso à Informação, em agosto de 2024, após um mês de apuração, de 19 de abril a 20 de maio, a sindicância concluiu os trabalhos e teria identificado falhas relacionadas ao exercício profissional.

Ainda de acordo com o documento obtido, o diretor técnico do Hospital da Mulher, Rodolfo Strufaldi, que foi afastado das funções durante os trabalhos do comitê, optou por se desligar da instituição.

Em 15 de maio, o secretário de Saúde da época, Geraldo Reple, depôs na Câmara sobre as denúncias contra o Hospital. Por quase uma hora respondendo questões dos vereadores, Reple evitou apontar culpados ou reconhecer erros no equipamento hospitalar. 


Pacientes sofrem com danos psicológicos

Depois das denúncias, da repercussão e das manifestações, as vítimas e seus familiares foram chamados ao Hospital da Mulher de São Bernardo para tratar sobre os seus casos. De acordo com parte dos denunciantes, como Raissa Falosi Santos e Marília Beatriz Alves (mãe de Stella Luisa Alves) a unidade hospitalar reconheceu os erros e ofereceu atendimento psicológico. 

Elas, porém, negaram o atendimento. A negativa não teve a ver com a falta de danos psicológicos, pelo contrário, as vítimas relatam profundos impactos na saúde mental devido aos episódios. Raissa, que teve a compressa esquecida em seu corpo após o parto, diz que enfrenta até hoje as consequências do trauma. 

“Tive depressão pós-parto, cheguei a procurar ajuda, mas não consegui atendimento. Não tenho mais forças para tentar tratamento. Foi um ano complicado, tive bons momentos e outros mais tristes, com muitas recaídas. O que posso dizer é que aprendi a valorizar cada segundo da minha vida e ao lado das pessoas que amo”, destacou. 

Adriano Batista de Lima, 31, viúvo da Giovanna Bianchi Dinalli, que morreu com o bebê durante o parto, falou que está fazendo acompanhamento psicológico. “A vida está difícil. Continuo aguardando a resolução do caso pela polícia”.

Marília fez um desabafo doloroso e disse que a vida dela e da filha está estagnada desde da morte da neta. “Não temos mais Natal, aniversário ou Ano Novo. Seguimos dia após dia, sem perspectiva. A gente sai e fica vendo outras crianças e pensa como seria com a Ísis. Tiraram o direito dela e da gente de viver”, lamentou. 

‘A prioridade é garantir a segurança e a qualidade do cuidado’

A Prefeitura de São Bernardo, por meio da Secretaria de Saúde, disse que desde o início da atual gestão (Marcelo Lima) adotou uma postura firme de escuta ativa e revisão dos fluxos assistenciais no Hospital da Mulher. “A prioridade é garantir a segurança e a qualidade do cuidado prestado às pacientes, especialmente em um serviço tão sensível quanto a atenção obstétrica e neonatal”.

A administração destacou ainda que nos últimos meses ocorreram avanços na adesão aos protocolos, redução de reclamações e maior integração entre as equipes multiprofissionais, com o compromisso de cuidado humanizado. Outro ponto destacado pela Pasta foi que empresas médicas contratadas foram substituídas, como parte de um processo de requalificação da assistência, com foco na melhoria da resolutividade e no cumprimento rigoroso de protocolos técnicos.

“Todas as queixas recebidas foram oficialmente apuradas por meio de sindicâncias, com participação de comissões técnicas e instâncias de controle institucional. Os casos foram analisados individualmente, respeitando o sigilo processual, os princípios de confidencialidade e os trâmites legais. Alguns profissionais foram afastados de suas funções, conforme apontamentos preliminares”, pontuou a secretaria por nota.

Ao Diário, o secretário de saúde de São Bernardo, Jean Gorinchteyn, disse em entrevista publicada no dia 17 de março que o primeiro ato ao assumir a Pasta em relação ao equipamento foi realizar a substituição da diretoria.

“Os algozes foram afastados. É claro que todas as avaliações estão sendo feitas. As sindicâncias internas, as apurações, inclusive, do ponto de vista criminal, estão sendo avaliadas. Se identificarmos que realmente houve qualquer ação que colocou essas pacientes, bem como os seus nascituros, em risco, claro, as infringências éticas e disciplinares vão ser tomadas. Estamos aguardando todas essas sindicâncias terminarem”, relembrou o secretário na época.

Adlin de Nazaré Santana Savino Veduato é a atual diretora técnica do Hospital da Mulher de São Bernardo. Antiga gestora, Mônica Carneiro, assumiu o posto de Rodolfo Strufaldi, que foi afastado, quatro dias depois da primeira denúncia. 

Em novembro do ano passado, a antiga gestão, do ex-prefeito Orlando Morando (Sem Partido), lamentou “profundamente” os casos registrados na unidade hospitalar e se solidarizou com as famílias afetadas. 




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