Artigo A eleição para o Conselho Diretor do Instituto Mauá de Tecnologia terminou com a vitória da candidatura formada por professores em exercício da própria instituição. Mas a polêmica que se abriu durante o processo não se encerra com o resultado: trata-se da possibilidade – agora concretizada – de funcionários da Mauá ocuparem cargos diretivos no órgão máximo de sua governança. A princípio, o fato pode parecer parte de um processo democrático saudável. Mas a questão exige um olhar mais apurado.
Conselhos de administração – ou seus equivalentes, como é o caso – têm por função zelar pelo planejamento estratégico, pela sustentabilidade financeira e pela integridade institucional. Não é à toa que as boas práticas de governança recomendam que seus membros sejam independentes, ou seja, livres de vínculos funcionais com a organização que fiscalizam. Quando esses vínculos existem, o risco de conflito de interesses deixa de ser abstrato e passa a ser institucional.
Na Mauá, há agravantes. A instituição goza de imunidade a diversos tributos – como o Imposto de Renda e contribuições sociais –, benefícios vinculados a exigências rigorosas de separação entre gestão remunerada e funções de deliberação. A simples aparência de interferência entre esses dois planos pode ser suficiente para que órgãos como a Receita Federal ou o Ministério Público questionem a manutenção das imunidades. E a consequência pode ser devastadora: autuações retroativas, perdas financeiras, suspensão de convênios e abalo da reputação.
Não é tudo. A cidade de São Caetano concede ao IMT importantes incentivos. Como reagirá a Câmara de Vereadores ao saber que professores – beneficiados pela estrutura da instituição – agora também controlam sua direção estratégica? Em tempos de escrutínio político, a confiança não pode ser negligenciada.
Há, ainda, o argumento institucional. Ao eleger docentes para cargos diretivos, a Mauá cria um precedente perigoso. Subordinados tornam-se superiores dos próprios gestores. E o Conselho, que deveria manter distância crítica, passa a correr o risco de captura por interesses corporativistas - deixando de funcionar como instância estratégica independente para se aproximar, perigosamente, de uma lógica de autogestão interna ou até mesmo de uma cooperativa, onde as decisões passam a refletir mais os interesses do grupo do que os da instituição.
A candidatura pode ter sido legítima, mas a decisão de avançar com ela não foi prudente. A governança, para ser boa, precisa ser coerente com os princípios que a sustentam. Ao ignorá-los, corre-se o risco de pagar um preço alto — com dinheiro, com credibilidade e com a história de uma instituição que sempre se guiou pela responsabilidade. Marcos Sidnei Bassi é diretor superintendente do Diário.
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