Artigo Muito se fala sobre inclusão, sobre os direitos da pessoa com autismo, sobre acessibilidade, acolhimento e empatia. E que bom que falamos. Que bom que, aos poucos, essas pautas ocupam espaços públicos, políticos e sociais. Mas, no meio dessas vozes tão importantes, há uma que ecoa, ainda fraca ou, às vezes, nem chega a ecoar: a voz de quem cuida.
Neste mês de abril, quando as campanhas de conscientização ganham força, eu gostaria de falar delas. Das mães.
Sim, há algo de especial nessas mães. Foram elas que, historicamente, abriram caminhos para que hoje o autismo fosse compreendido para além da objetividade diagnóstica. Houve um tempo em que o autismo era atribuído à suposta frieza de suas mães. Em meados da década de 60, na Europa e nos Estados Unidos, surgiu o cruel conceito de “mães geladeiras”, que responsabilizava essas mulheres pela condição dos filhos e, pasmem, sugeria afastá-los delas como forma de “tratamento”.
A história carrega essa marca. Mas foi justamente a resistência dessas mulheres – sua luta, sua persistência, a recusa em aceitar a separação dos filhos – que transformou a narrativa. Até hoje, elas engrossam o coro, batendo em portas de escolas, consultórios, governos. Formam redes, criam instituições, pressionam por leis, enfrentam sistemas excludentes.
Mas esse protagonismo tem um custo.
A sociedade, em sua ânsia por celebrar essas mulheres, muitas vezes transforma dor em heroísmo. A “mãe atípica” vira sinônimo de força. E nesse rótulo bonito se esconde uma realidade dura: mães estressadas, adoecidas, isoladas, invisíveis.
O estresse crônico dessas mulheres já foi comparado ao de soldados em zona de guerra. Não por acaso. Além das jornadas maternas que incluem noites mal dormidas e o acúmulo de tarefas, enfrentam batalhas contra o preconceito, a falta de apoio, a culpa. Muitas renunciam ao trabalho, à vida social, aos planos pessoais. Algumas enfrentam tudo isso sozinhas. Muitos vão, mas são elas que ficam.
E eu pergunto: quando essas mães serão incluídas nas pautas de inclusão?
Fala-se sobre o direito das crianças, adolescentes e adultos com autismo – e precisamos continuar. Mas quem cuida também precisa ser cuidado. Essas mães não têm licença especial, nem apoio psicológico garantido, nem políticas que reconheçam sua dupla, tripla, quádrupla jornada.
Nem sempre são reconhecidas como mães. São vistas como “mãe de autista” – e só. Como se isso anulasse sua identidade, seus desejos, sua história.
Há pais incríveis, avós presentes, cuidadores comprometidos. Mas com licença – hoje eu quero falar delas. Porque são maioria. São elas que seguram tudo quando o chão parece ceder. E merecem, mais do que aplausos, respeito. Merecem direitos.
Que o Abril Azul nos lembre de ampliar a lente. Incluir também quem cuida. E lutar, todos juntos, pelo direito de ser mãe – inteira, possível, humana. Valquíria Wollmann é mãe atípica e diretora clínica da Potencializa Comportamental. Trabalha com inclusão e desenvolvimento de pessoas neurodiversas no Grande ABC.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.