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Estantes, livros, vidas

Marli Gonçalves
30/03/2025 | 08:28
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Estantes, instantes. Há muito não pegava um livro, não me desgrudasse dele até acabar de ler a última página. Descreve uma vida inteira por intermédio de livros amados, outros nem tanto, procurados na sala de uma casa, alguns até ainda escondidos – devem estar em algum lugar por aí – nas lembranças que nos traz uma jornalista pioneira, Teresa Montero Otondo, 81 anos. Anote: Rascunhos de Vida – Entre Livros e Escritos, Editora Coerência.

Teresa foi a primeira mulher a, em 1966, ingressar no Jornal da Tarde, vespertino ligado ao Estadão que fez história e chegava às bancas. Sempre foi uma lenda na redação, descrita como bela, além de excelente e culta profissional. Diziam que arrasou corações, assim como a hoje Monja Coen, Claudia Dias Baptista, também jornalista, que passou pelo JT, se afastando por problemas pessoais, indo morar em Londres, hoje uma das vozes mais respeitadas do budismo.

Teresa Otondo me levou longe, ou melhor, perto, bem aqui, à minha própria estante e que já nem sei mais quantos livros carrega em suas prateleiras, centenas, além dos espalhados, empilhados, atrás de portas. Pensei no que escreveria ao tirá-los agora um a um, como fez Teresa, e ela própria lembra dos muitos que doou quando deixou a cidade grande e foi morar em Bragança Paulista, perto de janelas e visão de campos verdes, recordando sua infância.

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No meu caso, lá se vão 12 anos desde a última vez que organizei os meus livros, vinda de mais de 30 anos morando sozinha, precisei voltar para a casa da família. Lembro de tê-los tirado de caixas, espalhado na sala, sobre a imensa mesa da sala de jantar, os espanava e esperava secar a pintura de branco da velha e forte estrutura escura de madeira jacarandá do móvel, onde já muitos viviam guardados, especialmente coleções. Barsa, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato.

Separando um a um também vi a minha vida passar, a infância, interesses, temas. Pensei por áreas: Biografias, Mulher/feminismo, Comunicação, Dicionários (até de japonês-português), Poesia, Clássicos, Literatura Geral, Arte, Fotografia, Pintura, Sexo (hummm), Esoterismo, Religião, HQs, o cantinho de amigos autores, valiosas dedicatórias. Tudo arrumado, fácil de achar. Outros foram chegando, postos sobre os já alinhados, muitos deles na fila, à espera de atenção, tempo e leitura um dia qualquer.

Passada mais de década, não encontro fácil os que procuro, apalpando cegamente onde os imagino ter posto. Os enfeites são os que mais movimentam no dia a dia. Preciso rever. E às pilhas de outros que já se aglomeram, além dos desprezados que viraram suportes da tela do computador – desse mundo digital que nos afasta dos livros – para situá-la à altura dos olhos.


Marli Gonçalves é jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo e autora de Feminismo no Cotidiano.




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