Artigo Defino os tempos que vivemos como incontroláveis, se é que um dia foram controlados. Memórias e partes da história que já não contamos em dias, mas em décadas; em alguns casos até em séculos. Creio ser essa a característica desses tempos de informação (e desinformação) alucinante, desgovernada. O cabresto solto. A rapidez com que os fatos passam, os dias, e soluções parecem nem ter mais tempo de chegar aos problemas que buscavam – logo ambos obsoletos. Essa atropelada agilidade soterra a memória de muita coisa ruim que passamos. Aprendemos a organizar uma memória seletiva, com a atualização de perdões concedidos na caminhada, que suavizam encontros do passado quando neles esbarramos, reorganizados. É preciso aprendizado.
Vivemos fazendo balanços do estoque, e nem colocamos placas avisando, coladas em portas fechadas como nas lojas. A memória, com seus mecanismos ainda desconhecidos, se encarrega da função de separá-los, calcular importância, descartar ou guardar. Às vezes melhoram amarguras que achávamos que seriam carregadas no fardo. Assim é a vida.
Incluo, entre outras, a política. Quer ver? Simplificando. Quando achávamos – mais perto – que nenhum prefeito conseguiria ser tão ruim como alguns que infelizmente conhecemos. Pode. Mais longe, após tantas guerras mundiais com letra maiúscula, o horror, pensava que o mundo melhoraria e que a promessa do “nunca mais” seria cumprida? Olha o incontrolável aí. A história não tem freios.
Não é saudosismo, mas o que passa pela cabeça. Um preparo mental. Semana que vem teremos aqui em São Paulo um tradicional almoço reunindo muitos companheiros da redação do Jornal da Tarde, aquela maravilha da imprensa que ousaram acabar, e de onde saí também há 40 anos que se completam agora em 2025. Como esse encontro agora se repete todo ano pontua muito do que disse sobre o incontrolável tempo – muitos já se foram, outros estão abatidos, outros mais distantes, ou doentes, e alguns não se perdoaram por conta de velhas intrigas.
Outros, inclusive, por novas intrigas desse maluco terreno digital do grupo do WhatsApp, do sectarismo, do divisionismo que infectou os campos verde e amarelos, e ainda a questão religiosa, direita/esquerda, Oriente Médio, daí em diante.
O importante é sempre rever ou viver as novas histórias, as lembranças, as homenagens (este ano será para o Fernando Mitre, com fala do Ivan Ângelo, para se ter ideia dessa turma), encontrar os que enfrentam longa viagem pelo prazer do encontro. Especialmente, entender na prática como funciona esse tal do incontrolável tempo, com seus incontroláveis acontecimentos. Sempre surpreendentes. Marli Gonçalves é jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo e autora de Feminismo no Cotidiano.
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