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Vereador de São Bernardo associa sacerdócio católico a pedofilia

Watanabe usa ‘fake news’ para criticar formação de padres; bispo diocesano se diz chocado

Evaldo Novelini
Nilton Valentim
20/03/2025 | 15:25
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FOTO: Reprodução/Redes Sociais
FOTO: Reprodução/Redes Sociais Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O vereador Luiz Henrique Watanabe (PRTB) utilizou a tribuna da Câmara de São Bernardo na sessão de quarta-feira (19) para dizer, em tom de denúncia, que a Igreja Católica nos Estados Unidos recorreu durante três décadas a um psicólogo para selecionar pedófilos para o exercício do sacerdócio. Ele citou um estudo que teria sido conduzido por autor norte-americano para basear a argumentação. As informações utilizadas pelo legislador são falsas. O bispo diocesano do Grande ABC, dom Pedro Carlos Cipollini, classificou a declaração como “chocante”.

“Li recentemente uma obra de um autor norte-americano que pesquisou durante 30 anos quais eram as preferências do cargo de psicólogo na escolha das pessoas que iriam estudar para ser padre. E ele provou, por A mais B – me coloco à disposição dos senhores para trazer mais (dados) sobre esses estudos –, de que ele privilegiava pessoas com tendência a pedofilia. Exatamente isso que os senhores estão vendo. Durante 30 anos, nos Estados Unidos, a Igreja Católica permitiu que a pessoa que fizesse a escolha dos homens que seriam padres privilegiasse pessoas com indícios de pedofilia. Não é à toa que a gente tem tantas histórias catastróficas”, disse Watanabe, da tribuna.

Ao ser questionado nesta quinta-feira (20) pela reportagem do Diário sobre a obra e o autor norte-americano aos quais se referiu, o vereador citou o chamado Relatório John Jay, encomendado pela Igreja Católica dos EUA para investigar uma série de crimes sexuais cometidos por religiosos e acobertados pela instituição. Publicado em 2004, o documento aponta que, de 1950 a 2002, 10.667 indivíduos denunciaram abuso sexual infantil praticado por 4.392 clérigos. Não há nenhuma menção sobre o processo de seleção de pedófilos para se tornarem padres no texto. O estudo serviu para a organização religiosa adotar série de medidas destinadas a impedir novos casos.

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Dom Pedro lamentou o discurso do vereador são-bernardense. “É chocante esta afirmação e o orador deveria necessariamente citar a fonte: quem afirmou (autor) e onde (nome do livro). Sei que no passado a Igreja dos EUA teve problemas, como é de conhecimento público. Mas hoje é uma Igreja (Católica) que mais tem cuidado, e até severidade, na escolha dos candidatos ao sacerdócio. Aliás, sobre este assunto da pedofilia, é interessante que focam sempre na Igreja Católica, quando o problema está difuso na sociedade desde os lares, escolas, instituições esportivas, outras denominações religiosas etc. Quando alguém faz uma denúncia desta, particularizando, precisa se examinar as motivações, tanto psicológicas como sociais do denunciante”, declarou o líder dos católicos no Grande ABC.

A reportagem do Diário questionou Watanabe sobre o autor e a obra que ele mencionou na Câmara, mas o vereador não apontou nem um nem outra. Argumentou que “sempre soube” do recrutamento de pedófilos para serem padres e citou “vídeos” que embasariam seu ponto de vista. Ao ser instado a falar mais sobre o tema, reconheceu que tem conhecimento “superficial” sobre o assunto e prometeu se aprofundar nos estudos para responder a eventuais questionamentos que lhe forem feitos.

Dizendo-se “católico praticante”, o legislador do PRTB fez a declaração enquanto o plenário discutia uma moção de apoio ao papa Francisco, que está adoentado. O vereador expôs divergências teológicas com o líder da Igreja Católica. “Ele não combate a Teologia da Libertação como deveria combater”, posicionou-se. O movimento citado prega que o cristão deve auxiliar pobres e oprimidos sem se descuidar das obrigações litúrgicas. Watanabe assinou a petição, que acabou aprovada pela maioria, mas se ausentou da votação.

Dom Pedro questionou a intenção do vereador. “Qual o interesse de desprestigiar a Igreja Católica tocando nestes problemas seríssimos, quando outros também graves e urgentes são esquecidos? Infelizmente, a pauta de costumes, moral, está tomando conta do debate público enquanto as pessoas morrem de fome, sem assistência médica ou devido à poluição (veja caso da Braskem) sem que nenhuma autoridade pública se pronuncie. Sinais dos tempos”, disse o bispo, lembrando da série de reclamações de moradores que vivem nas imediações da empresa instalada no Polo Petroquímico de Capuava, na divisa de Santo André com Mauá.

 




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