Artigo Assistir ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro é como ler um livro de história do Brasil. Não aqueles maçantes da época do colégio, com textos enciclopédicos sobre protagonistas anacrônicos e cheirando a naftalina, mas um carregado de enredos e cores vibrantes. Cada agremiação que passa pelo sambódromo da Marquês de Sapucaí, na Capital fluminense, apresenta episódios e personagens fascinantes. Neste ano, entre tantas, uma das figuras mais surpreendentes é Francisca de Congo, ou Xica Manicongo, considerada a primeira travesti brasileira.
Nascida no Reino no Congo, daí seu nome, Xica será enredo da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti. São poucos os dados biográficos conhecidos desta personagem magnífica. Sabe-se que, escravizada em seu país natal, foi trazida ao Brasil muito provavelmente na segunda metade do Século XVI. Em Salvador, na Bahia, era propriedade do sapateiro Antonio Pires.
Além dos grilhões, Xica também aguentou o peso do preconceito no Brasil. Recusou-se a atender pelo nome masculino que lhe impuseram e a abandonar as roupas utilizadas na nação africana, onde se vestia como a divindade imbanda que era, e por aqui foi interpretada como feminina. Homossexual em uma sociedade extremamente patriarcal e machista, a sua fama de namoradeira acabou chamando a atenção das autoridades.
Por ocasião da primeira visita do Tribunal do Santo Ofício à Bahia, departamento da Igreja Católica Apostólica Romana destinado a combater heresias, o português Matias Moreira denunciou aos inquisidores, em 21 de agosto de 1591, a cativa Francisca do Congo por “servir de mulher no pecado nefando e recusar vestido de homem”. Considerada culpada, para escapar da pena de ser queimada viva em praça pública, abandonou as roupas que causavam escândalo e passou a se comportar de acordo com o que se esperava de pessoas que tivessem nascido com seu sexo biológico.
Sufocada pelo peso do catolicismo, Xica Manicongo desapareceu da história até que, nos anos 1990, o antropólogo e historiador brasileiro Luiz Mott deu publicidade ao episódio, baseado justamente na publicação das atas da Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil, de 1925.<EM>
Quando a Paraíso do Tuiuti colocar seus passistas, ritmistas e alegorias na Sapucaí em 4 de março, última noite do Carnaval, reconstituindo a vida da primeira travesti brasileira, Xica Manicongo estará vingada. Por uma dessas ironias do destino, a Igreja Católica, que de tudo fez para apagar a trajetória da primeira travesti brasileira, acabou por deixar o único registro confiável de sua existência. Nenhum autor de livro de história teria feito melhor.
Evaldo Novelini é diretor de Redação do Diário.
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