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‘Distribuímos R$ 28 milhões aos associados’

Nilton Valentim
17/02/2025 | 08:05
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FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Criada para dar suporte financeiro aos transportadores de veículos, a Sicoob Credceg (Cooperativa de Crédito dos Cegonheiros) possui ativos que se aproximam de R$ 800 milhões, com expectativa de chegar a R$ 1 bilhão em junho. À frente do Conselho de Administração está Elias Fazan, que iniciou a vida profissional como cegonheiro, estudou Direito e foi um dos responsáveis pela criação da cooperativa. O executivo diz que o maior diferencial da Credceg é a atuar com foco nas necessidades de seus associados, oferecendo taxas vantajosas nas operações e retorno do lucro. A instituição está ampliando sua área de atuação, e mira outras categorias.

RAIO X

Nome: Elias Fazan
Aniversário: 18 de março
Onde nasceu: São Paulo
Onde mora: São Bernardo e Sarapui, Interior de São Paulo.
Formação: Advogado.
Um lugar: Pantanal, Mato Grosso
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: meu pai
Um livro: O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec
Uma música: Evidências, Chitãozinho & Chororó.
Um filme: Sexto Sentido. dirigido por M. Night Shyamalan, de 1999

DGABC

O senhor começou sua carreira profissional na estrada, como foi esse início?

Eu nasci na cegonha (transporte de veículos). Meu pai transportou carro desde 1963. Com 14 anos, iniciei meu trabalho. Ele tinha dois ou três caminhões e eu ajudava na parte administrativa da empresa. Quando fiz 18 anos fui dirigir caminhão. Aí viajei até os 23 e conheci o lado prático do transporte de veículos. Em 1996, tive meu primeiro contato com o sindicato. Eu não fazia parte da diretoria, mas o sindicato fez uma paralisação por melhorias de frete. E a gente fazia assembleia todos os dias. Acabei tendo contato com mais gente e depois de uma dessas assembleias, fui parar numa reunião da diretoria. A gente tinha uma defasagem muito grande, mas, na verdade, não se sabia ao certo qual era o real valor. Então a diretoria pediu se eu poderia ajudar. Já tinha um pouquinho mais de experiência com números. Apresentei uma planilha e eles me pediram para participar de uma reunião com as empresas. No fim, a defasagem era de 31%, nós conseguimos 32,5%. Isso gerou uma proximidade com o sindicato e eu fiquei trabalhando três anos naquela diretoria, como um auxiliar, um consultor, e comecei a gostar da ideia. E, em 1997, resolvi voltar a estudar. Tinha parado no colegial, porque eu fui trabalhar como caminhoneiro e ingressei na faculdade de Direito.

Aí o senhor mudou definitivamente de lado?

Começaram a acender algumas luzes. O sindicato cuidava de questões institucionais, como legislação, frete e a relação com as transportadoras. Mas a gente tinha uma grande dificuldade, que era comprar. Nós éramos pequenos transportadores. Se íamos comprar pneus, tínhamos de submeter à loja. Assim era com peças, seguro, óleo diesel… Não tinha poder de barganha. Aí surgiu a ideia de montar uma cooperativa de consumo. E, em 1999, nós fundamos a Cooperceg, que é a Cooperativa de Consumo dos Cegonheiros, que existe até hoje. Ela oferece mais de 4.000 itens, desde uma ruela até peças de motor, óleo diesel lubrificante, seguro, despachante, contabilidade. Uma série de coisas. Ao invés de comprar para um, comprávamos para 1.000 caminhões. Eu tive a honra de fundar essa cooperativa, junto com várias pessoas, e presidi-la por 20 anos.

E como surgiu a Credceg?

Nós tínhamos o sindicato cuidando de assuntos institucionais, a Cooperceg oferecendo produtos e serviços necessários para a execução da atividade. Faltava uma peça: serviços financeiros. Porque a gente era dependente exclusivamente de dois bancos, no caso 80% a 85% do Bradesco, e 15% do Banco Real (foi incorporado pelo Santander em 2007). Tínhamos de engolir as taxas, as tarifas, os juros, a remuneração em aplicação que eles definiam. Não tinham outras alternativas. Aí surgiu a ideia de a gente criar uma cooperativa de crédito para fechar um círculo que atende às necessidades dos cegonheiros como um todo. E criamos a Credceg em 2005. Num primeiro momento, a gente captava dinheiro do cegonheiro para aplicação e emprestava também para o cegonheiro. Dois anos depois nós transformamos a cooperativa. Aderimos ao sistema ‘compe’, do Bancoob (Banco Cooperativo do Brasil), porque íamos passar a ter talão de cheques, cartão de crédito, todos os serviços bancários. E a gente tinha que estar dentro de um sistema maior. E nesse momento ainda, a gente só atendia os cegonheiros. Depois, em um segundo momento, passamos a atender empresas de outros segmentos, que eram de propriedade dos cegonheiros. Aí, em determinado momento, a gente mudou essa visão. Fizemos uma reforma estatutária, sempre consultando a categoria, e transformamos o Sicoob Credceg numa cooperativa de livre admissão. Então, atualmente, nós podemos admitir no quadro de cooperados, ou de associados, qualquer pessoa física ou jurídica de qualquer parte do território nacional e de qualquer segmento de atividade. 

Qual é o diferencial da Credceg?

Atender de forma personalizada, que é exatamente o que acontece na contramão dos bancos. Hoje em dia, você dificilmente consegue falar com seu gerente. E quando consegue, pouco muda. É criar produtos específicos de interesse da categoria. Então não tem produto de prateleira. Embora tenha todo o portfólio de serviços bancários, a gente tenta adaptar todos nossos produtos, com responsabilidade, obviamente, porque a gente tem que zelar pela administração do dinheiro do cooperado, e criar produtos específicos. Com taxas de juros diferenciadas, afinal nós não temos finalidade de lucro. Então, as nossas taxas e tarifas são extremamente reduzidas em relação aos bancos privados. Naquela crise na época do governo (da presidente) Dilma (Rousseff, em 2014), que teve uma queda expressiva da atividade econômica do País, isso obviamente refletiu no nosso negócio, no nosso faturamento. E havia muitos cegonheiros que tinham tomado crédito para financiar caminhões, comprar carreta, comprar caminhão, enfim. E antes que essa crise atingisse esses cegonheiros, nós chamamos todo mundo para conversar. ‘Você contratou aqui um financiamento, você está adimplente, está tudo certo, você está pagando direitinho, mas a crise está aí. Quando você contratou aqui esse financiamento para pagar R$ 5.000 por mês de prestação, você faturava R$ 30 mil. E o seu faturamento vai cair para R$ 15 mil. Você vai conseguir pagar? Você tem outra fonte de recursos? Você tem outro caminho para continuar honrando? Vamos prolongar a dívida, diminuir a prestação para você passar por esse momento’. Nós fizemos isso e atravessamos aquela crise naquele momento com o menor dano possível para a categoria. Bem diferente dos outros bancos. 

E durante a pandemia de Covid-19, como atuaram?

Isso não sou eu que digo como representante aqui do Conselho de Administração, mas é dito pelos cegonheiros, é voz corrente. Se não existisse a Credceg na pandemia, muitos de nós teriam ficado pelo caminho. Nós fizemos exatamente a mesma coisa. Nós esticamos prazos, concedemos linha de crédito com juros justos, bem ajustados. Acho que 98%, 99% passaram bem por isso. 

Hoje a Credceg atende quantos clientes? Quanto movimenta? 

Hoje nós temos perto de 6.000 cooperados e os nossos ativos somam R$ 800 milhões. A gente espera chegar até o mês de junho a um R$ 1 bilhão, que é um número marcante para nós. A gente cresce a um número de 70 a 90 cooperados mês. Esse número tem crescido em outras categorias, porque já atingimos de 85% a 90% dos cegonheiros. Então, claro, tem ainda lugar para crescer, mas estamos quase no limite de atender à categoria, então temos que procurar outros caminhos. Sem perder o DNA dos cegonheiros.

O cegonheiro hoje é bem mais que um motorista, ele se tornou um empreendedor? 

Originalmente, os cegonheiros eram chamados autônomos. Eles dirigiam os seus próprios caminhões. Com o passar do tempo, a pessoa acaba adquirindo um outro caminhão e coloca um motorista. Para as empresas, é mais barato contratar uma pessoa jurídica do que um autônomo, do ponto de vista tributário. E até do ponto de vista de responsabilidade civil. Então, elas meio que exigiram que todos nós tivéssemos um CNPJ. E aí, com o passar do tempo, com o crescimento do volume, enfim, os caminhões também foram crescendo. Mas essencialmente a nossa categoria ainda é formada por pessoas que têm um, dois ou três caminhões. Alguns deles dirigem os seus próprios caminhões e tem motoristas (contratados) nos outros. Mas a categoria ainda guarda essa característica de ser muito pessoal. 

Como motorista, o senhor transportou o sonho de muita gente, que é o carro novo. E hoje, à frente da Credceg, possibilita a realização do sonho de muitos cegonheiros, que é expandir os negócios. Como o senhor vê isso?

É muito bom. Porque eu nasci na cegonha. E, lá nos primórdios, nunca tivemos nenhuma dificuldade financeira assim de passar necessidade. Mas sempre tivemos uma vida muito modesta. Porque a gente não tinha condições. Eu cito alguns exemplos para os meus filhos, que não viveram esse momento, mas o caminhão que eu trabalhava tinha 25 anos de vida. Hoje a média de idade da cegonha é de cinco a seis anos. Nós não tínhamos um carro de passeio. A gente ia ao supermercado fazer compra com o cavalinho (caminhão sem a carreta). Os filhos de cegonheiros não tinham oportunidade de estudar numa boa escola, numa boa faculdade. E, obviamente, isso não se dá pela Credceg. Se dá por um histórico que começou lá atrás, de organização dessa categoria e que vem até hoje. A administração atual do Sinaceg, a Cooperceg, a Credceg. Somando tudo isso se cria uma atmosfera positiva. Enfim, é legal ver no fim do ano, quando nós fechamos o balanço, que a Credceg dá resultado, como os bancos privados também dão. Lá no banco, o lucro vai para o bolso do dono do banco, do acionista, que é natural e não tem nada errado nisso. A cooperativa de crédito é a mesma coisa. Porém, o que sobra vai para o bolso do cooperado na proporção das atividades que ele exerceu durante o ano na cooperativa. No ano passado, exercício 2023, nós distribuímos R$ 28 milhões diretamente na conta corrente do cooperado. O fato é que eles são donos do negócio. Nós financiamos, de agosto a dezembro, quase R$ 230 milhões em renovação de frota de caminhão zero-quilômetro de cegonheiro, à taxa de 0,99% ao mês para 60 meses. Onde que você encontra isso?

Essa ação da cooperativa pode reverter também em desconto na compra de caminhão novo?

Olha que legal. Esse tripé sindicato (Sinaceg), Credceg e Cooperceg, obviamente no interesse da categoria, procura as montadoras e tenta fazer negócios de volume, 200, 300, 400 caminhões. O sindicato entra lá com o peso político de pedir isso. A Cooperceg, que oferece produtos e serviços, entra reforçando esse coro junto às montadoras. A Credceg entra com uma taxa reduzida, então o cara compra o caminhão mais barato com a taxa reduzida. Só ganha. 




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