Força regional Comportamento reflete a política das sete cidades, onde a competitividade ganha da colaboração, enfraquecendo a regionalidade, diz especialista
FOTO: Reprodução/Google Street View

O Grande ABC é uma das regiões mais importantes do Estado de São Paulo, seja por sua localização estratégica, por seu parque industrial ou por ser um dos maiores mercados consumidores do País. Além disso, tem grande representatividade na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), com 10,63% dos 94 parlamentares da Casa, ou seja, dez parlamentares (ver quadro ao lado). No entanto, a falta de unidade entre os representantes locais tem enfraquecido a força política da região, que poderia ter maior influência nas decisões do Estado.
Segundo o cientista político Diego Sanches Corrêa, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), os interesses individuais dificultam a construção de políticas regionais. “A lógica da atuação parlamentar na Assembleia Legislativa não é regional. É muito mais partidária e setorial. Essa bancada de dez parlamentares reflete um pouco o conflito que acontece aqui na região. Seria quase inimaginável, por exemplo, a oposição, que hoje conta com Luiz Fernando (Teixeira-PT) e o (Teonílio) Barba (PT), compondo com a Carla Morando (PSDB) e a Ana Carolina Serra (Cidadania) ”, pontuou.
Corrêa destacou que esse tipo de postura não é exclusiva do Grande ABC, mas também acontece em outras regiões do Estado. Conforme o cientista político, outro fator que neutraliza as questões regionais é que os deputados estão mais preocupados em se reeleger ou expandir sua base eleitoral para buscar “coisas maiores”.
“Nesse sentido, os parlamentares fazem, sim, um esforço para buscar recursos às suas regiões e depois reivindicar os créditos desse trabalho. Fazem isso de forma competitiva, porque sabem que estão disputando com os outros membros da bancada. O incentivo é muito mais de competição do que de colaboração.”
Para Ricardo Ceneviva, professor de Ciência Política e Políticas Públicas da UFABC, a desunião dos deputados do Grande ABC é decorrente da filiação partidária, principalmente no contexto de polarização vivenciado hoje, e do peso que traz para as siglas a proximidade com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). “Não é porque os deputados são da mesma região que vão se aliar. Isso pode acontecer para projetos pontuais. Porém, o peso que se tem nas comissões e nas secretarias é a filiação partidária dos deputados”, destacou.
Segundo Ceneviva, a questão partidária não influi na busca de recursos para as regiões de origem. “Entretanto, ser aliado ao governador facilita na hora de o parlamentar atender as demandas de sua região.”
Parlamentares da região defendem diálogo
Os deputados estaduais do Grande ABC defendem maior união para fortalecimento de políticas regionais. Luiz Fernando Teixeira (PT) afirma que desde seu primeiro mandato – o petista está no terceiro – tenta reunir os parlamentares da região para atuar de forma coletiva, a fim de ter mais poder de negociação das pautas regionais.
“Por exemplo, vamos pegar a segurança. Se juntassem os dez deputados, que são mais de 10% da Assembleia, e fossem negociar com o governador (Tarcísio de Freitas-Republicanos) o aumento do efetivo, nós teríamos força política para fazer a defesa do (Grande) ABC. Nós somos dez pessoas que julgamos as contas do governador e poderíamos usar essa força. Porém, essa força fica dissipada na medida em que o governador vai cooptando individualmente os deputados”, destacou.
Para Atila Jacomussi (União Brasil) há alguns entraves para união dos deputados do Grande ABC, dentre os quais a dependência de alguns terem sido eleitos com apoio de lideranças partidárias e prefeitos.
“São poucos deputados que têm independência de se posicionar e sobre como dirigir seu mandato. De como trilhar sua carreira política por meio de conquistas e de muito trabalho. Me incluo nisso. Fui deputado, prefeito e retornei agora para a Assembleia. Nunca tive o pai prefeito. Pelo contrário. Tive de batalhar muito e conquistar (o mandato) por meio da atuação política e trabalho junto à população”, disse.
O unionista destacou que muitos levam para a Alesp as divergências partidárias e regionais, atrapalhando o desenvolvimento da coletividade. “Hoje temos uma grande bancada, mas com poucos deputados que conseguem realmente dialogar e chegar a pontos convergentes, para que a gente possa melhorar os resultados para o Grande ABC”, pontuou.
Segundo Ana Carolina Serra (Cidadania), a região possui uma bancada forte e representativa na Assembleia, atuando sempre em prol da sociedade. A parlamentar destacou a união e o diálogo como ferramentas de fortalecimento das políticas públicas. “Acredito ser possível fortalecer ainda mais esse vínculo, inclusive com a representatividade do legislativo estadual nas entidades regionais, como o Consórcio (Intermunicipal) do Grande ABC e a Agência de Desenvolvimento Econômico, responsáveis pelos programas e projetos comuns aos sete municípios”, declarou.
Na mesma linha, Thiago Auricchio (PL) também ressaltou a representação parlamentar ativa e comprometida dos pares. “Prova disso são os avanços recentes, como o início das obras do Piscinão Jaboticabal, do BRT-ABC, a reforma das estações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), a descentralização das farmácias de alto custo, além do aumento de repasses para o Nardini. Embora cada deputado priorize as demandas de sua base eleitoral, há uma convergência significativa de ideias, independentemente das diferenças ideológicas. Durante a CPI da Enel, por exemplo, tivemos três membros da região atuando conjuntamente, e essa colaboração continua na CPI das Telecomunicações. Esse esforço coletivo tem sido fundamental para colocar as necessidades do Grande ABC em destaque na agenda estadual.”
MAIS REGIONALIDADE
Apesar da defesa dos parlamentares da base do governador sobre a força da bancada do Grande ABC, nem todos os políticos veem essa atuação em prol da regionalidade. O subsecretário de Desenvolvimento Urbano do Estado de São Paulo, José Police Neto, é um dos que questionam a falta de união entre os parlamentares. “Temos dez deputados com voto e prestígio na região.Temos duas ex-primeiras-damas (Ana Carolina e Carla) e um filho de ex-prefeito (Thiago). Porém, onde estão as ações regionais? São duas esposas de pessoas que mandaram no Grande ABC. Alguma coisa tem de se tirar. Tem de se encontrar um projeto estratégico para atuação conjunta”, destacou.
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