Setecidades Titulo Memória

De trem pela América. No bolso, o Guia Levi No caminho, Tiahuanaco. Roboré, petróleo, acordos. Lembranças de dois mestres.

Semana passada “Memória” citou a inauguração da Estrada de Ferro Brasil-Bolívia, em 1955. Hoje, as repercussões

14/01/2025 | 08:00
Compartilhar notícia
 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


NO CAMINHO, O CAFÉ

Que saudades da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. A estrada iniciava-se em Bauru, percorria o interior do Estado de São Paulo, ultrapassava Araçatuba, sentido no então Mato Grosso até chegar à Bolívia.  

De 1942 a 1946, minha família morava na cidade de Valparaíso. Nas férias escolares, pegava o trem, em Lins, em demanda de Valparaiso, algumas centenas de quilômetros além. O que me impressionava eram centenas, talvez milhares de fazenda fazendas de café. 

DGABC

São essas lembranças que Memória de hoje suscita

Alexandre Takara, orientador desta página Memória

Viagem documentada.

Fotos guardadas.

Livro ensaiado.

Texto: José de Souza Martins

A minha viagem de trem através da América do Sul ocorreu em 1958, no dia 4 de janeiro, um sábado. Tomei o trem das 10h29 em São Caetano, para a estação da Luz, onde cheguei às 10h50. Ali, tomei o trem da Companhia Paulista de Estradas de Ferro às 12h10 para Bauru, onde cheguei às 19h. Viajei no carro pullman, com direito a mordomo, lanches e refrigerantes. A Paulista era a melhor ferrovia brasileira. Fui até Tiahuanacu, perto do Lago Titicaca, na fronteira da Bolívia com o Peru. Visitei as escavações arqueológicas daquela civilização pré-incaica.

Ali comecei minha viagem de volta, parte do trajeto feita de avião entre Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra e, no dia seguinte, 25 de janeiro, também de avião, parti para Congonhas, onde cheguei à noite, com pneumonia, porque viajara sem agasalho, com pouco dinheiro e mal alimentado. O frio da subida dos Andes me abateu. Minha última refeição foi feita com meus últimos centavos: média de café com leite e pão com manteiga. 

O GUIA

Eu lia jornais - Estadão, A Gazeta e O Tempo, nos sábados e domingos. Acompanhei muito interessado a inauguração da Ferrovia Brasil-Bolívia, em 1955.

Eu era leitor regular do Guia Levi, um guia ferroviário que seria publicado no Brasil por mais de 100 anos. Era também, alternadamente, guia das ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Publicava os horários atualizados dos trens do país, com informações sobre classes, primeira e segunda, carros dormitórios e carros restaurantes, enfim as características de cada composição e tempo de parada em cada estação. Era bem britânico na precisão.

No Guia, descobri que era possível viajar do Maranhão à Argentina de trem.

Fiz viagens em alguns longos trechos desse imenso trajeto. Sempre sozinho. Muita gente, sabedora da viagem de 1958, quis participar da aventura. Na Cerâmica São Caetano, onde eu trabalhava, Hermano Pini Filho se interessou. Outro, foi Antonio Pécora, mestre da secção de prensas de telhas de taguá. Ele trabalhara com Roberto Símonsen na construção dos quarteis ao longo da Estrada de Ferro Noroeste, no Mato Grosso. Na proximidade da partida, ambos desistiram.

ROBORÉ 

Fotografei toda a viagem, em preto e branco. Pretendia escrever um livro, o que nunca aconteceu.

Descobri a América do Sul profunda, vendo lugares, visitando cidades, conversando com moradores e viajantes. Na Bolívia, descobri que sabia falar espanhol. Meus avós maternos, minha mãe e meus tios falavam espanhol em casa. Eram imigrantes e na última década do século XIX moraram na Argentina, antes de virem para o Brasil, morar em casa de pau a pique e trabalhar como colonos em fazendas de café.

Desde muito pequeno a conversação de família era em espanhol e português. O espanhol brotou de repente durante a viagem.  Espanhol mesmo, uma língua que falo, leio e escrevo bem. Não é portunhol. 

Durante a viagem, o trem parou em Roboré, um povoado de casas de palha que naquele ano de 1958 se tornava famoso por conta dos chamados Acordos de Roboré, sobre a questão do petróleo, do cumprimento do tratado de compra do Acre pelo Brasil e outras questões diplomáticas. 

A Bolívia passava por um momento de transição. Em 1952, ocorrera a Revolução do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) liderada por Paz Estensoro, que se tornou presidente, e Siles Suazo, vice-presidente. A Revolução aboliu a servidão indígena e aprovou a reforma agrária.

CITAÇÕES

Tiahuanaco, também conhecido como Tiwanaku, é um sítio arqueológico pré-colombiano na Bolívia, que foi a capital de um império pré-hispânico

Google

Quem é paulistano ou carioca, tem mais de 40 anos e nunca viu um Guia Levi nas mãos? Publicado até 1984, o Guia Levi, pelo menos entre os anos de 1908 e de 1979, era uma publicação mensal que se parecia com um guia de ruas como os de hoje no formato e na grossa lombada (se bem que os guias de hoje são bem mais grossos), mas era originalmente um guia que dava os horários de trens do Brasil inteiro.

Do blog de Ralph Mennucci Giesbrecht

Os polêmicos Acordos de Roboré são um conjunto de 31 instrumentos diplomáticos assinados entre Brasil e Bolívia em 1958. E sabem qual é a polêmica aqui? Petróleo, é claro! 

Curso Sapientia

Ilustração: Antes e depois de 1966, um mural em Robore

Southamericanpostcar.com

DIÁRIO HÁ 30 ANOS

Sábado, 14 de janeiro de 1995 – Edição 8910

MANCHETE – São Caetano garante escola de robótica.

Acordo neste sentido era firmado entre o prefeito Antonio Dall’Anese e o secretário estadual de Ciência e Tecnologia. Emerson Kapaz.

A Escola de Robótica e Mecatrônica entraria em atividade em março (de 1995).

ESTADO – Silvio Minciotti assumia a diretoria de Patrimônio do Fepasa.

EM 14 DE JANEIRO DE...

1980 - Instalado o Rotary Club de Diadema.

1990 - Inauguração da nova estação de Paranapiacaba. A antiga foi destruída por incêndio em 1981.

MUNICÍPIOS BRASILEIROS

No Estado de São Paulo, hoje é o aniversário de Miguelópolis, elevado a município em 1845, quando se separa de Igarapava, na região de Franca.

E mais: Bom Retiro (SC), Cruz (CE), Paço do Lumiar (MA), Porto Alegre do Tocantins (TO) e Simolândia (GO). 

HOJE

Dia do Treinador de Futebol e Dia Nacional do Enfermo.

São Pedro Donders

14 de janeiro

Sacerdote holandês (1809-1887). Dedicou-se à Pastoral dos Enfermos. 

Ilustração: Santuário estadual Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Campo Grande (MS).




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;