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“O desaparecimento não é visto como crime”
Tatiane Pamboukian
06/01/2025 | 08:01
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FOTO: André Henriques/DGABC

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 Há quase três décadas, Ivanise Esperidião decidiu transformar a dor de ter uma filha desaparecida em esperança para milhares de outras mães. Tudo começou em 23 de dezembro de 1995, quando Fabiana, à época com 13 anos, sumiu a 120 metros de sua casa, na Zona Leste de São Paulo, sem deixar um rastro sequer. Em 31 de março do ano seguinte, decidiu criar a ONG Mães da Sé, que já encontrou 5.952 das cerca de 13 mil pessoas cadastradas. A dedicação à causa lhe rendeu homenagens, como o Selo de Direitos Humanos, que recebeu no último mês de dezembro da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

RAIO X

Nome: Ivanise Esperidião
Idade: 63 anos
Aniversário: 4 de novembro
Onde nasceu: São Luís do Quitunde – AL
Onde mora: São Paulo – SP
Formação: Direito
Um hobby: Curtir a neta
Um lugar: Sua casa, com a família
Um livro: O Príncipe – Nicolau Maquiavel
Uma música: I’m alive – Celine Dion
Um filme: A Cabana
Alguém que admira: A filha, Fagna
Profissão: Presidente da Mães da Sé

Como a senhora lida com o desaparecimento de sua filha e conseguiu transformar sua dor em esperança para outras mães?

Quase 6.000 pessoas foram encontradas por meio do meu trabalho e é isso que me consola e me dá forças. Esse trabalho é minha razão de viver. Eu transformei minha dor em luta, não só pela minha filha, mas por todas essas mães. Porque ter um filho desaparecido é uma dor solitária, é viver na incerteza. Se eu tivesse enterrado minha filha, depois de 29 anos, eu tenho certeza que já teria me acostumado com a ideia de nunca mais vê-la. Mas não ter uma resposta é carregar uma ferida que não fecha, um luto inacabado. Todos os dias, quando acordo me pergunto: Se minha filha está morta, cadê o corpo? Se está viva, como absolutamente ninguém viu? A cada tentativa frustrada eu me questiono porque encontro tanta gente e não encontro minha filha.

Somente no Grande ABC, há 106 ocorrências de desaparecimento todos os meses, de acordo com registros da Polícia Civil. O que acontece com essas pessoas?

A maior parte dos casos são de fuga ou pessoas com alguma deficiência mental, idosos desorientados por consequência de doenças como Alzheimer. Essas pessoas são mais fáceis de serem encontradas. Porém, alguns crimes podem estar por trás do desaparecimento, geralmente o tráfico de pessoas, que é o segundo maior crime, estando no mesmo patamar de igualdade do tráfico de drogas e armas. As meninas na idade da minha filha são levadas para a exploração sexual. Muitas crianças são levadas para adoção ilegal fora do País. Também há casos de tráfico de pessoas para trabalho escravo ou venda de órgãos. Esses casos são minoria.

O que a mãe desse desaparecido aqui na região deve fazer?

No Estado de São Paulo só tem uma Delegacia de Desaparecidos, que fica na Capital, dentro do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), no centro da cidade. Mas a primeira ação é fazer um B.O. (Boletim de Ocorrência) na delegacia mais próxima da cidade ou pela internet, que é muito melhor. As delegacias ainda se recusam a fazer o registro, mandam voltar depois ou te dão um chá de cadeira. As mães que tiverem seus filhos desaparecidos podem nos procurar porque aqui, além de fazermos o cadastro dos desaparecidos, fazemos os encaminhamentos. Orientamos, primeiramente, a registrar o B.O. Em seguida. eu ligo no DHPP e falo com a delegada Bárbara Travassos, que é muito sensível à causa, e envio a mãe para ser atendida lá de forma humanizada. Em casos em que há conhecimento de que houve um sequestro, como no caso de um pai que sequestra os filhos e vai levar para outro País, comunicamos às autoridades competentes, Ministério Público, Defensoria Pública, Embaixadas, Ministério da Justiça, Interpol e Polícia Federal para a fuga ser impedida a tempo. 

A própria delegacia da cidade que recebeu a denúncia não faz todos esses trâmites?

A lei 11.859, sancionada em 30 de dezembro de 2005, que é um adendo do artigo 208 do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente), diz que a delegacia que atender à ocorrência de desaparecimento de crianças e adolescentes tem que fazer o B.O. e começar as buscas imediatamente. Além disso, notificar aquele desaparecimento para a Polícia Rodoviária, Polícia Federal, aeroportos, portos, terminais de ônibus interestaduais, etc. Mas a lei não é cumprida. Se fosse, isso evitaria que a criança saísse de seu País de origem, cidade e Estado, que crianças fossem vítimas de violência sexual seguida de morte. A lei está aí há 19 anos, mas não é cumprida. 

Então não é necessário esperar 48 horas para fazer a ocorrência? Por que muitas pessoas são orientadas dessa forma nas delegacias? 

Esse prazo nunca existiu, ninguém é obrigado a esperar esse tempo. Isso é um tabu que a polícia utiliza para não fazer o B.O. Eu passei por isso. O delegado disse que minha filha tinha fugido com o namoradinho e que era para eu esperar. O que mudou de lá para cá é que hoje não precisa ir mais para a delegacia pessoalmente e se aborrecer com delegado preguiçoso. O registro feito pela internet tem a mesma validade. 

Por que a senhora acredita haver esse descaso?

Porque 99% das pessoas que desaparecem são de uma classe social muito baixa. São pessoas simples que desconhecem totalmente seus direitos e não possuem também advogado. Eles se aproveitam da falta de conhecimento daquela mãe. O que custa fazer o B.O.? Porque ele só vai fazer o registro, ele só faz o boletim, não investiga. O desaparecimento, na minha opinião, não é visto como um crime, ele nem é tratado como um problema de segurança pública, faz parte apenas de uma estatística. A causa do desaparecimento é invisível aos olhos da sociedade, Estado e autoridades. O Estado não investe na causa, só tem uma delegacia especializada em São Paulo, que não têm estrutura alguma e eles não têm muito o que fazer.

O que houve de progresso?

A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas não mudou. Em 2021, o governo montou uma equipe técnica, com policiais que vieram de outros Estados, só para trabalhar lá em Brasília. Eles começaram a fazer um trabalho belíssimo, mas em agosto de 2022 pararam tudo por causa das campanhas presidenciais. Muda o governo, tudo para. Somente agora neste ano que a coisa está começando a engatinhar novamente. Não existe uma prioridade. O último anuário que a Secretaria de Direitos Humanos publicouno Ministério da Justiça é que desapareceram por dia, em 2023, 225 pessoas. É um número muito grande. Como essas pessoas simplesmente desaparecem? 

Na época em que começou não havia internet popularizada. Como divulgavam as fotos dos desaparecidos?

Divulgávamos nas embalagens de produtos, tíquetes de pedágio, da loteria. Em 2002 eu tinha 12 concessionárias que divulgavam as fotos no tíquete de pedágio. Com essa campanha encontramos quatro pessoas. Quanto maior a divulgação, maior a chance de encontrar um desaparecido. Uma campanha que deu bastante certo também foi a dos bilhetes da loteria. A Caixa Econômica Federal colocava fotos apenas de crianças, adolescentes e pessoas portadoras de deficiência mental desaparecidas. Encontramos oito pessoas. Tínhamos também uma parceria com empresas de produtos médicos que colocava no folder de propaganda da empresa fotos e também encontramos crianças através dessas publicações. Outra parceria foi com uma empresa que colocava as fotos no fundo da caixa de sapato. 

E hoje com a internet o alcance é maior ou ainda precisam da ajuda de empresas e de seus produtos?

A internet facilitou muito, até para as mães nos enviarem as fotos de seus filhos. Elas não precisam vir aqui pessoalmente. Hoje as redes sociais fazem esse trabalho, mas muitas vezes ele começa lá no supermercado. Diminuiu o número de empresas que nos procuram para fazer essas parcerias, mas tivemos recentemente nas caixas de leite Piracanjuba, por exemplo, e todos os dias eu recebo alguém que através da embalagem compartilhou a foto da caixinha de leite nas redes sociais. Muitas pessoas são encontradas assim. A divulgação é nossa ferramenta de busca. Quanto mais pessoas divulgarem, mais chances temos de encontrar. Em 2023 encontrei duas crianças suíças sequestradas pelo pai. Apenas 15 minutos depois da postagem recebi uma denúncia de que aquelas crianças tinham sido encontradas no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Se não tivéssemos postado no Instagram, não tínhamos encontrado com tanta facilidade. Hoje, as redes são mais eficazes do que eram as embalagens no passado. A rapidez é muito maior, mas as duas estratégias se somam.

Qual o seu maior medo e o que espera do futuro? 

O medo de morrer sem uma resposta. Eu já perdi 26 mães que se foram com essa dor de não ter uma resposta. E assim, aquela busca se encerra com ela, porque a família segue suas vidas e não luta como a mãe faria para procurar o desaparecido. Se eu morrer, minha filha não vai ter ninguém para procurá-la. Em nome de todas as mães que morreram, quando vamos na Praça da Sé, eu carrego os cartazes delas, eu dou prioridade na divulgação porque eu sei que não terá quem faça por elas. Eu tenho a preocupação desse trabalho com o Mães da Sé também não ter continuidade quando eu partir. Nós precisamos de uma resposta, seja ela qual for. Nós precisamos fechar esse ciclo, chorar por um motivo. A sensação é que a minha filha foi abduzida.




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