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À frente do time de maior expressão do futebol do Grande ABC atualmente, o técnico Ricardo Catalá vislumbra alcançar patamares mais altos em 2025, colocando o São Bernardo FC ao lado de grandes equipes do passado da região, como Santo André e São Caetano. “O clube está cada vez mais maduro na direção de uma conquista importante”, afirma o treinador.
“Subir para a Série B vai permitir que o clube cresça vertiginosamente, pensando em nível de investimento, pensando em cotas (de TV), em aporte, em nível competitivo, em atratividade”, diz. “São Bernardo é uma baita potência.”
RAIO X
O Sr. é de origem espanhola, mais especificamente da Catalunha. Como é a sua história com essa região e que influência isso teve sobre sua carreira como técnico?
Quando me formei, eu queria ser treinador de futebol. Mas naquela época, nós estamos falando de 20 e poucos anos atrás, era muito difícil ter espaço para quem não tinha sido atleta. Eu entendia que uma forma de eu me diferenciar no mercado seria buscar uma experiência fora do Brasil. Então eu vendi o carro que eu tinha, fui a uma loja da Iberia (companhia aérea), comprei uma passagem e troquei o restante por euros. Fui para lá com a cara e a coragem. A única coisa que eu tinha que me facilitava era o passaporte espanhol, em função da minha origem familiar. Demorou bastante, trabalhei em subempregos até conseguir uma oportunidade nas categorias de base do Clube Esportivo Europa. Depois, fiz estágio no Espanyol, no Zaragoza e no Barcelona. Acho que tudo que eu vivi nesse período na Espanha modulou muitas coisas a respeito da minha carreira. Mas tenho a convicção de que o futebol jogado no Brasil tem que ser com o DNA do futebol do Brasil, e não de fora.
Sua formação é em educação física e você tem cursos em psicologia esportiva e gestão no esporte. O Sr. se considera um estudioso do futebol?
Eu sou formado em educação física e, quando eu fui para a Espanha, eu não fui com a intenção de estudar, mas acabei procurando algum curso que atendesse aquilo que eu achava que me ajudaria. Então eu fiz uma pós em psicologia do esporte na Universidade de Barcelona, como aluno ouvinte. Depois, no Brasil, fiz o curso de tecnologia em gestão e uma pós em futebol e futsal. Mas eu acho que esses jargões (estudioso do futebol) ajudam pouco no futebol. Eu me considero mais um cara interessado por tudo aquilo que está relacionado ao futebol, desde um artigo científico até uma pelada numa pracinha do bairro. Eu acho que a vida é assim, tudo tem que ter equilíbrio. Você precisa estudar, usar a ciência, mas você também precisa compreender que existe o imponderável, relacionamento com jogadores, existem outras coisas no futebol.
De toda forma, essa experiência europeia pode ser aplicada aqui no Brasil, especialmente no São Bernardo, em termos de processos, organização e metodologia de treinamento?
Isso é replicável aqui no São Bernardo, muitas coisas são. Quando eu cheguei, o clube tinha uma carência grande de processos, e eu trouxe muitas coisas. O clube tem se desenvolvido, tem investido mais em equipamentos, em profissionais, em estrutura. Muita coisa é replicável, algumas delas não integralmente, mas com adaptações ao nível de investimento, ao País. Os europeus vêm aqui, buscam coisas positivas do nosso futebol e levam para lá. E acho que o caminho inverso também é válido, a gente olhar para aquilo que é bem feito lá fora, sobretudo do ponto de vista organizacional, e tentar trazer para a nossa realidade. Assim a gente potencializa o talento que existe no futebol brasileiro, acho essa direção legal.
O São Bernardo é hoje o time de maior destaque do Grande ABC, que já teve grandes equipes de Santo André e São Caetano, por exemplo. Falta uma conquista para atingir esse patamar no imaginário da região? Dá para sonhar com um título do Campeonato Paulista?
A minha visão é de que a gente deve sonhar e trabalhar para que isso seja possível. Em algum momento a gente precisa conseguir uma conquista desse tamanho, e obviamente que é tudo uma questão de tempo, de encaixe de time. O Paulistão é um campeonato muito difícil, mas todas as vezes que o São Bernardo disputou esse campeonato, quando classificou, teve a possibilidade de jogar as quartas de final e fez bonito. Eu acho que o clube está cada vez mais maduro na direção de uma conquista importante. Vem evoluindo ano a ano.
A equipe teve baixas importantes como o volante Rodrigo Souza, um símbolo do time, e o João Carlos, referência no ataque. Mas recentemente anunciou a volta do Leo Jabá. Não há muito tempo até a estreia no Paulistão, em 15 de janeiro, contra o Água Santa, clássico da região. Qual é sua expectativa, dá para chegar forte?
A expectativa é de chegar forte. A gente tem uma gratidão enorme por tudo o que esses ídolos e esses caras identificados com o clube fizeram nos últimos anos. Alguns saíram porque nós entendíamos que precisávamos de outras peças, outros saíram porque entendiam que era um momento de sair, outros porque receberam propostas. Os ciclos têm um início, meio e final. A direção está trabalhando incansavelmente para nos entregar a melhor equipe possível. E é isso que a gente espera, que venham os jogadores. Eu acho que a estrela do São Bernardo precisa ser o coletivo. O desejo do clube é fazer um 2025 espetacular.
O Sr. já tem uma história com o São Bernardo, tendo buscado o acesso à Série A-1 do Campeonato Paulista, conquistando a Série A-2 em 2021. Desde então o time se manteve na primeira divisão. O clube já está consolidado no cenário estadual?
Sim, eu entendo que o São Bernardo hoje é uma equipe consolidada em nível regional e agora vai buscar um crescimento nacional. Um dos grandes objetivos é subir da Série C para a B no Brasileiro. Isso vai permitir que o clube cresça vertiginosamente, pensando em nível de investimento, pensando em cotas (de TV), em aporte, em nível competitivo, em atratividade. A gente acha que esse é o caminho para que o clube continue crescendo. A gente tem um grande exemplo de um clube pelo qual tenho duas passagens, que é o Mirassol (que subiu para a Série A de 2025). Esse time deu um exemplo para todos nós de que é possível, desde que você se organize, se capacite e tenha convicção naquilo que deve ser feito.
Esse Mirassol teve um ‘dedo’ seu, inclusive, com a organização daquela campanha de 2020 no Paulistão, perdendo meio time com Covid-19 e batendo o São Paulo nas quartas de final. Inclusive naquele ano o Sr. foi eleito para a seleção do campeonato, ao lado do Vanderlei Luxemburgo. O técnico fez a diferença nessa situação?
Eu acho que todo mundo fez a diferença naquela hora. O meu rosto foi o que apareceu, porque sou eu que dou entrevista, sou eu que sou xingado de burro, sou eu que sou elogiado quando a equipe vence. Mas existe um trabalho de muitas pessoas, do roupeiro, da tia que faz a comida, do cara que que vai cortar o gramado, fisioterapeuta, fisiologista. Ninguém faz nada sozinho. Naquele momento, o fisioterapeuta e o médico foram muito mais importantes do que eu. Então entendo que é um trabalho coletivo.
O Mirassol de hoje pode ser o São Bernardo do futuro?
Com certeza, eu tenho convicção de que os clubes têm filosofias muito parecidas e de que nós podemos utilizar o Mirassol como um exemplo de boas práticas. Prospecto que o São Bernardo pode viver tudo o que Mirassol está vivendo. A potência da cidade, da torcida de São Bernardo, acho que tem muita coisa que pode ser mais bem explorada. Sobretudo nessa conexão clube, cidade e torcida. O torcedor se dedica, ele vai ao estádio, ele apoia. Mas estamos em um Centro de Treinamento que está fora de São Bernardo (em Atibaia), não temos nossas categorias de base todas jogando em São Bernardo. Então acho que hoje a distância que existe entre clube, cidade, comunidade e torcida atrapalha uma integração ainda maior. Não estou culpando ninguém por isso. Hoje essas são as condições, e a gente precisa ser capaz de se adaptar. Todo mundo tem que entender que é uma adversidade a mais, para a gente vencer juntos e para poder entregar uma conquista à altura do tamanho da cidade. São Bernardo é uma baita potência e tem condição de suportar uma equipe para voos mais altos. É isso que a gente espera que seja construído nos próximos anos.
Já há um planejamento para que aconteça esse projeto de vir com toda a estrutura tudo para São Bernardo?
Até onde eu sei, já existe uma área adquirida pelo proprietário do clube na cidade e o próximo passo é a construção de um Centro de Treinamento. Eu não sei quanto tempo isso pode demorar, nem que tipo de recursos são necessários. Não é um projeto barato, mas eu vejo dentro do clube um desejo grande de que isso aconteça. O clube tem um papel importante na comunidade que é promover a integração esportiva. Existe um desejo grande de todos aqui de que isso se dê o mais breve possível.
Essa sua conexão com o Grande ABC também é antiga?
Eu morei dos 7 aos 18 em São Caetano. Cresci nessa região, andando em Diadema, em São Bernardo, em Santo André e em São Caetano. Eu tenho uma conexão especial com o lugar.
Nesse seu retorno ao São Bernardo FC em 2024 o time passou muito perto de voltar à Série B. Em 2023, o time também havia batido na trave para o acesso. Está otimista para subir em 2025?
O que eu vejo como positivo é que a campanha desse ano, do ponto de vista de número de vitórias, de gols marcados, ela evoluiu em relação ao outro ano. A gente espera que no ano que vem seja melhor ainda e que culmine com o acesso. Os pontos que têm margem de melhora devem ser melhorados para que a gente entregue para o torcedor esse presente que é subir para a Série B. Queremos dizer que estamos entre as 40 melhores equipes do País.
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