Setecidades Titulo 'Entrada permitida somente para brancos'

Cartaz gera polêmica sobre racismo na Faculdade de Direito de São Bernardo

Placa fazia parte de atividade pedagógica, segundo a instituição de ensino

22/11/2024 | 18:06
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FOTO: Reprodução Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Um cartaz com os dizeres “Entrada permitida somente para brancos”, fixado na porta da sala de aula do 3º ano da FDSBC (Faculdade de Direito de São Bernardo), gerou debates sobre racismo e até um boletim de ocorrência, no início do mês. Segundo a instituição, o material fazia parte de uma atividade pedagógica de sociologia e antropologia, que simulava a segregação racial dos Estados Unidos. 

A tarefa tinha relação com uma análise do filme Histórias Cruzadas (2011), ambientado no Mississippi de 1960. que tem um enredo do tipo white savior (branco salvador, em português, termo a respeito do personagem que se apropria das dores de uma minoria e recebe crédito por ato heroico).

Segundo mensagens acessadas pelo Diário, o professor responsável pela classe é branco e propôs uma peça de teatro, para personificar os brancos e negros do filme, para completar a atividade, o que gerou critícas dos estudantes pela falta de diversidade racial na instituição privada – questionada sobre o percentual de alunos autodeclarados pretos ou pardos, a FDSBC não respondeu.

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Um dos estudantes contatou o advogado Juliano Amaral, especializado em causas discriminatórias e que também é aluno de pós-graduação da FDSBC, para fazer um boletim de ocorrência denunciando suposto racismo da faculdade. De acordo com a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), no entanto, uma investigação conduzida pelo 1º DP de São Bernardo concluiu que não houve prática de ato criminoso.

Um ofício emitido pela instituição de ensino e obtido pelo Diário detalha que a diretoria convocou “o professor responsável pela disciplina, os alunos do grupo e também o autor do Boletim de Ocorrência para esclarecimentos”. No material, é enfatizado que o posicionamento do cartaz aconteceu dentro da sala de aula, para uma “reflexão crítica entre os estudantes presentes”.

A FDSBC atribui ainda a inspiração do material a “uma prática de segregação racial abordada no Museu do Apartheid, na África do Sul, onde são utilizados ingressos diferenciados para brancos e negros como forma de impactar o público e demonstrar tal caráter reprovável”.

Em nota, a faculdade alegou que disponibiliza canais de denúncia para evitar episódios de racismo, como uma caixa para mensagens anônimas e ouvidoria. A instituição não afirmou quais medidas tomará a partir da polêmica com o cartaz, mas destacou em comunicado que habitualmente “as providências cabíveis são tomadas, incluindo a instauração de processos administrativos internos e, quando necessário, a comunicação às autoridades competentes”. 

Esta não é a primeira vez que a Faculdade de Direito de São Bernardo é denunciada por racismo. Em 2018, as frases “Fora sapatão preta; fora preta sapatão. Odeio preto” estamparam a porta do banheiro feminino. Meses depois, outro banheiro foi rabiscado com “Bolsonaro vai limpar essa faculdade de v... e preto. Preto vai morrer”. Sindicâncias foram abertas para as incidências.

Especialista analisa impunidade e falta de compliance da organização


Para dar luz à questão e por meio do banco de profissionais ‘Entreviste Um Negro’, o Diário conversou com Vitor Matos, autor do livro "Existíamos, existimos e existiremos: passado, presente e futuro do negro brasileiro sob a ótica das políticas públicas", que é mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos e doutorando em Antropologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). 


Segundo ele, as escolhas acadêmicas foram de pouca sensibilidade e mau gosto. “Na pior das hipóteses, a dinâmica cênica proposta com intuito pedagógico demonstra a óbvia intenção de acariciar os sentimentos dos brancos. Isto porque este tipo de encenação também abranda dinâmicas de opressão racial de casos de racismo velado e/ou explícito”, explica.


O uso de filmes para retratar as dores na diferença da pele, em sua visão, tende a ambientar uma escolha mais profissional da causa. Em contrapartida, a escolha de Histórias Cruzadas poderia ter sido repensada. “Ele, em detrimento de tantos outros. Basta pesquisar para ver relatos sobre o enredo apartado, com um pseudo-protagonismo de um personagem branco e messiânico”, diz.


Histórias Cruzadas, o filme escolhido por docentes da FDSBC, apresenta a história de Skeeter, escritora que entrevista mulheres negras, que deixaram suas vidas para criar filhos da elite branca, da qual a própria protagonista faz parte.


Os questionamentos em torno da adaptação cinematográfica aumentaram a partir de 2018, quando a atriz negra Viola Davis (Aibileen em Histórias Cruzadas) comentou ao New York Times que, se pudesse voltar no tempo, não participaria da releitura. "Sinto que não foram as vozes das empregadas que foram ouvidas. (...) E eu sei que, se você faz um filme cuja premissa é: ‘quero saber o que significa trabalhar para pessoas brancas e cuidar de crianças em 1963’, quero ouvir como você se sente sobre isso. E não ouvi nada disso no filme", declarou, com uma menção à revista Vanity Fair, sobre sentir que traiu a si mesma e ao seu povo "porque estava em um filme que não estava pronto para contar toda a verdade". 


Vitor Matos destaca ao Diário que a sensação é comum, em um sistema no qual a luta antirracista precisa de estratégias para empreender sucesso. “Há denúncias esvaziáveis. Por exemplo: usar a liberdade de cátedra (FDSBC) para fazer escolhas aparentemente enviesadas, para a partir disso propor atividades provocativas ou, no mínimo, inadequadas, não configura crime. E mesmo que a denúncia seja legal juridicamente, toda a questão da criminalização por racismo ainda carece sedimentação na opinião pública”, destaca.


Como alternativa ao episódio, o especialista sugere que a faculdade estabeleça inicialmente protocolos de compliance (normas e procedimentos corporativos) com perspectivas antirracistas. “O ideal é contratar um profissional externo e também agir administrativamente para coibir esse tipo de fato constrangedor, construindo aos poucos uma mentalidade diferente no corpo docente e de colaboradores”, finaliza.




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