Entrevista da semana
FOTO: Denis Maciel/DGABC

A futura primeira-dama de São Bernardo, Zana Lima, participou ativamente da campanha do prefeito eleito, Marcelo Lima (Podemos), e disse estar 100% pronta para ajudá-lo no governo a partir de 2025. Apesar de a campanha do podemista sempre pregar o amor, Zana afirmou que sofreu discriminação por causa de sua cor. Para a futura primeira-dama, o preconceito existe no olhar, na fala e no jeito de tratar as pessoas. “A pandemia veio e mostrou para muita gente que não importa a classe social, a cor, o credo, porque vamos todos para o mesmo lugar, indiscriminadamente. Porém, muitos ainda não aprenderam isso.”
RAIO X
Nome: Rosangela dos Santos Lima
Aniversário: 19 de junho
Local de nascimento: São Bernardo
Onde mora: São Bernardo
Formação: Superior em Direito incompleto
Um lugar: Minha casa
Time do coração: São Paulo
Alguém que admira: Minha mãe, Maria de Lurdes, por ser uma mulher guerreira, honesta e muito digna
Um livro: Bíblia Sagrada
Uma música: Eu Sou teu Pai, um hino religioso
Um filme: A Cabana, de 2017, dirigido por Stuart Hazeldine
Como foi participar de uma campanha majoritária? A sra. se envolveu mais do que nas anteriores?
Essa foi a primeira vez que, de fato, me empenhei muito mesmo. Sempre ajudei meu esposo, mas de outras formas. Não fazia tanto parte do processo, até porque sempre gostei muito de privacidade. Porém, devido a tudo que aconteceu e, após pedir muita orientação a Deus, achei que agora era hora de me firmar e me colocar 100% à disposição dele (Marcelo) e foi maravilhoso. Achei a campanha – não sei se porque foi do meu esposo – a mais linda que São Bernardo já teve. Mais empolgante realmente. Mais verdadeira. Feita com muito amor e muito trabalho. Muito empolgante ver como as pessoas reagiam (nas agendas de campanha). Foi tomando uma proporção tão grande que não tinha como não se envolver. Foi um projeto muito grande, que trouxe muita gente boa. Agregou muito.
Apesar de a campanha sempre pregar o amor, Marcelo foi muito criticado. Como foi acompanhar seu marido passar por isso? Foi além do que esperava?
De verdade, tudo é esperado. A gente sabe que em, uma campanha política, todas as artimanhas são usadas, com várias fake news, bastante ataque. Porém, sempre pregamos que não tínhamos tempo para bater em ninguém e discutir. Tínhamos de levar nossas propostas, que foi o que fizemos desde o começo. Inclusive, para os candidatos e candidatas, deixamos muito claro que não queríamos que perdessem tempo falando mal de ninguém. Estávamos lá para falar de nosso trabalho e do que iria ser feito. O que a gente espera para uma São Bernardo melhor e é isso que estamos fazendo e foi o que a gente fez. Quanto a assistir (aos ataques ao Marcelo), é realmente desgastante porque você se propõe a fazer algo e ver as pessoas desconstruírem nos deixa muito tristes, mas dá mais gás para realmente querer mostrar sua verdade.
Durante a campanha a Sra. chegou a sofrer discriminação?
Bastante. Com olhares, falas, mas aí a gente ignora. É melhor do que você entrar no embate com essas pessoas. Quem é preconceituoso e racista vai sempre dizer que você é que atacou.
Esse racismo veio de adversários ou pessoas nas ruas?
De pessoas nas ruas. De adversários não. É difícil, mas você acaba tendo de passar por cima para não sair ainda como errado. Ainda existe muito essa questão do preconceito. Está nas pessoas, por mais que tentem disfarçar. Porém, quem é preconceituoso tem o olhar, a fala, diferente para você. O jeito de te tratar é sempre diferente e a gente sente.
Estamos chegando próximo ao Dia da Consciência Negra (20 de novembro). Como a Sra. vê esse preconceito ainda tão latente na sociedade?
Infelizmente, ainda existem pessoas em nosso meio que se acham superiores (às outras). Inclusive, isso aconteceu bem recentemente comigo em um jantar. Uma pessoa fez um comentário bem preconceituoso. Entendo que, quando você sabe seu valor, qual é sua missão, é óbvio que te afeta, mas você passa por cima disso. Temos de respeitar as pessoas quanto a gênero, etnia, religião, concordando ou não com as opções que fazem. O respeito tem de estar acima de tudo. A pandemia veio e mostrou para muita gente que não importa a classe social, a cor, o credo, porque vamos todos para o mesmo lugar, indiscriminadamente. Porém, muitos ainda não aprenderam isso e mantêm o preconceito. Dentro do programa de governo pretendemos trabalhar a conscientização, para minimizar (o preconceito). Isso é muito de berço. Não adianta falar que só vai trabalhar com adolescentes e crianças se isso não vier de dentro de casa, se você não ensinar seu filho, independentemente de etnia, credo ou religião, que deve prevalecer o respeito. Entendo que é difícil mudar isso quando a pessoa já está crescida. Conseguimos fazer isso dentro das escolas, nas creches, tanto que a criança não tem essa maldade, vê todos como iguais.
A Sra. disse que privilegiou sua privacidade nas eleições anteriores. Como vê agora a perda da privacidade com a eleição do Marcelo?
A gente tenta lidar com tudo isso. Sempre quis ficar ‘atrás da cortina’, porque minhas filhas eram pequenas. Sofreriam muito até por conta dos ataques, das calúnias e das coisas que são ditas. Então, preferi estar muito perto de minhas filhas, para dar essa retaguarda a elas. Hoje já estão moças, casadas, fazendo faculdade. Voaram e não precisam mais tanto de mim. Então, estou mais livre para fazer o que preciso ao lado do Marcelo.
A exemplo de outras primeiras-damas do Grande ABC, a Sra. pretende concorrer a deputada nas próximas eleições?
Não é um projeto. Em princípio, minha intenção é ajudar o Marcelo. Ajudar a construir uma São Bernardo (melhor), a fazer uma cidade muito boa para se viver. Pôr em prática os projetos que colocou no plano de governo. Ajudar da melhor forma na área social, com mulheres e adolescentes. Porém, se eu falar que hoje tenho esse projeto, vou estar mentindo. Não tenho, realmente, essa ambição.
Falando em programa de governo, qual foi sua participação na construção do plano do Marcelo?
Sempre deixei muito claro para o Marcelo que queria um olhar voltado às mulheres. Que tivéssemos uma Secretaria da Mulher, para trabalhar com as vítimas de agressões físicas, mentais e psicológicas. Para que seja feio todo tipo de atendimento. Nós, mulheres, cuidamos muito das pessoas, dos filhos, do marido, da mãe e vamos nos deixando um pouco de lado. As mulheres adoecem também, precisam de um olhar maior e de ter atendimento psicológico. De ter alguém para conversar. Isso sempre fez parte da minha perspectiva de vida. Ajudar a mulher, estender a mão, não vai te diminuir. Pelo contrário.
Dentro da criação da Secretaria da Mulher, compromisso da campanha, a Sra. pode citar alguns programas que serão implementados?
Temos várias ações no plano de governo e tudo perfeitamente executável. Precisamos trabalhar muito, mas queremos fazer algo bem diferenciado para as mães atípicas, as crianças, a fim de terem um atendimento especializado. Capacitar os profissionais para que, realmente, seja um atendimento real, que dê efetivamente resultados.
Como foi assumir o diretório do PMB (Partido da Mulher Brasileira)?
Gostei muito de ser presidente desse partido, porque as mulheres, ainda hoje, não são bem aceitas na política municipal, creio eu, porque temos muitas deputadas e senadoras, mas vereadoras não há muitas. Nestas eleições foram eleitas algumas a mais em São Bernardo. Tínhamos duas e foram eleitas mais três mulheres. Quero a eleição de muitas mulheres para fazerem a diferença. Acredito que a mulher tem um olhar cuidadoso, diferenciado do homem. A gente pensa mais com o coração, embora a política não seja só coração, pois precisa muito da razão. Porém, o toque feminino é necessário em tudo. Desde o mais básico ao mais profundo, a gente precisa estar engajada e inserida. Acredito que muitas mulheres, a partir deste novo ano que vai entrar, vão se empenhar mais, até para se enxergar mais na política. Acho que as mulheres precisam acreditar mais nas mulheres.
A Sra. acredita que o fato de as próprias mulheres terem restrições quanto à participação na política impacta na baixa representatividade feminina?
Sim. É isso que nos distancia da política. É ter essa aversão em enxergar a política. Infelizmente, alguns vêm como algo ruim. Porém, quando descobrirem que a política bem-feita, com amor e dedicação, serve para mudar a vida das pessoas, quando todas as mulheres entenderem isso e perceberem que podem ser a diferença que tanto buscam, isso vai mudar. Quando tiver muito mais mulheres envolvidas na política, trabalhando por mulheres, o olhar machista vai acabar.
Nestas eleições cinco mulheres foram eleitas vice-prefeitas no Grande ABC, inclusive em São Bernardo. Como a Sra. vê esse crescimento e o fato de a última mulher eleita prefeita ter sido a Maria Inês, em Ribeirão Pires, em 2000?
Vou citar a Jessica (Cormick, vice-prefeita eleita em São Bernardo) como exemplo. A escolha dela foi crucial, porque vejo que as mulheres precisam passar a ver que a mulher na política faz a diferença. Quando o homem escolhe uma mulher para trabalhar a seu lado é porque sabe que ela tem outro olhar. As mulheres são aguerridas tanto quanto os homens. Lógico que o homem pensa mais friamente, mas as mulheres têm maior feeling. Tenho certeza de que essas mulheres que foram eleitas vão fazer toda a diferença e abrir portas para outras.
As primeiras-damas costumam assumir o Fundo Social de Solidariedade. A Sra. fará o mesmo?
Vou assumir a o Fundo. Em São Bernardo, a atuação do Fundo Social é muito boa. Vejo um serviço essencial. A Carla (Morando, PSDB), enquanto esteve à frente, ocupou com maestria (a presidência). Realmente, o Fundo Social é muito importante para a cidade. A gente tem grandes necessidades. Digo a gente porque também vim da periferia. Eu e o Marcelo viemos da periferia e sabemos o que as pessoas realmente precisam para se desenvolver. Tenho algumas ações que quero implementar, mas ainda não posso revelar(risos).
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.