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'Há espaço para bienal de livros no Grande ABC', diz presidente da Algrasp

04/11/2024 | 07:43
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FOTO: Denis Maciel/DGABC
FOTO: Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Maria Zulema Cebrian, presidente há 10 anos na Academia de Letras da Grande São Paulo (atuante em 39 municípios no Estado), reflete em entrevista exclusiva ao Diário sobre como a tecnologia tem papel complementar à literatura e quais os atuais desafios de quem lê ou escreve no Grande ABC e Região Metropolitana de São Paulo.

Segundo ela, há espaço para mais talentos jovens venham integrar a entidade. Além da possibilidade de realização de uma bienal no Grande ABC, similar à que tradicionalmente ocorre na Capital, a partir da mobilização das prefeituras da região. 

RAIO X

DGABC

Nome: Maria Zulema Cebrian
Aniversário: 16 de novembro
Onde nasceu: Galícia, provincía de La Coruña, Espanha
Onde mora: Santo André
Formação: Pedagogia; Artes Plásticas; Música e História da Arte; Filosofia e Letras
Um lugar: Praia
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: o jornalista e autor Lima Barreto
Um livro: Triste fim de Policarpo Quaresma, por Lima Barreto
Uma música: Have You Ever Seen The Rain?, de Creedence Clearwater Revival
Um filme: Em Algum Lugar do Passado, de Jeannot Szwarc, 1990

Atualmente é possível observar principalmente dois polos de opinião: o primeiro, que enxerga uma queda significativa do interesse pela literatura na sociedade; o segundo, que interpreta uma era em que as pessoas nunca precisaram lidar com tantas informações e textos. Qual a sua opinião a respeito?

Tenho uma palestra que se chama ‘Sociedade Literária’ e acredito que a literatura faz exatamente um retrato do momento histórico em que a gente vive. E hoje, por consequência, ela está se diversificando, de forma até que obtém um pouco de dificuldade para entrar no mercado. Aliás, quando falo de diversificação é de tudo... O celular, o WhatsApp, inevitavelmente endossa cortes e erros na escrita. Para a nova geração de autores, romper e lidar com isso é um grande problema, por exemplo. O imediatismo é bem grande. Simplificando a resposta, há muita gente também escrevendo, mas com pouquíssima qualidade. Há a necessidade de não se escrever para si, mas ser envolvente e nítido ao outro. Sendo assim, as editoras de livros se tornam mais seletivas e a gama dos autores independentes cresce. Para eles, a maior barreira acaba sendo, por incrível que pareça, gerenciar as vendas on-line, porque a logística e burocracia são mais complexas. Mas antigamente, a gente tinha dificuldade em conseguir o devido ISBN (International Standard Book Number, sigla para Número Padrão Internacional de Livro), gerar código de barras ou emitir a ficha catalográfica. O acesso à informação é outro e a prova é que todos meus livros ao longo da vida foram editados e lançados de forma independente também, depois que recebi o primeiro ‘não’ de uma editora. De modo geral, acredito que elas não lidam bem com autores desconhecidos e, como sempre falo na Academia: ‘nós, autores, autores do Grande ABC e São Paulo, somos ilustres desconhecidos’.

Na missão institucional da Algrasp consta que o objetivo da organização é proporcionar o fomento a bibliotecas, assim como a promoção de palestras, conferências e concursos literários. Quais foram as últimas ações e ideias neste sentido?

Quando não estou na Academia, estou escrevendo. Mas este ano, exemplo, praticamente não puder ler para fora do trabalho porque estamos fazendo quatro edições simultâneas de livros na Algrasp. Um deles, aliás, é a biografia robusta dos 40 patronos, que originaram a entidade, e deve sair em dezembro (uma ação que vai nos custar R$ 10 mil, rodar livro ainda é muito caro). Estamos em andamento também com a Antologia Literária e a Revista Tamises (existente há 22 anos) de contos e crônicas regionais; esta, com detalhes informativos da literatura por pontos de vistas sociológicos, históricos e artísticos para atrair mais público. Outra ação importante que eu não poderia deixar de mencionar foi a última (e que inspirará a próxima) edição do Concurso de Contos e Crônicas Gioconda Labecca - 2024, o qual estendemos a abrangência pela primeira vez da Região Metropolitana para todo Brasil, a fim de incentivar a produção e divulgação da literatura. A premiação era para dez autores, mas, como tivemos 301 inscritos em um altíssimo nível literário, selecionamos 20 obras que terão as despesas arcadas pela Academia. Contando todos ganhadores, custearemos 90 exemplares e fizemos uma premiação em 31 de outubro, na sede da Academia (Av. Dr. Augusto de Toledo, 255 - São Caetano). Terminando as edições, nosso próximo passo é organizar a agenda de palestras e saraus do próximo ano.

A partir do alto investimento para produzir livros que a senhora comentou, acredita que torna a experiência da literatura um pouco mais elitizada? Qual o caminho para torná-la mais democratizada e popular?

Sem dúvidas. Ninguém sabe como que se faz um livro, todo mundo acha que ele aparece na loja assim, já pronto. Tem a parte do autor, claro, mas depois revisões, montagem e escolha de capas é só o começo da jornada. Agora, sobre como equacionar isso e tornar a literatura mais pública, primeiro de tudo seria baratear o processo. O papel é caro, o trabalho técnico das pessoas que executam o livro também. Então esta solução vem da base, com incentivo público, para aplicar nas escolas, por exemplo. O pontapé inicial está em, como fazemos, mandar revistas, antologias para as escolas. Pense no custo de 80 mil livros doados, apesar de ser uma ação legal. Hoje, se você não tem dinheiro, não compra nem um copo d’água. Na Algrasp, nunca tivemos ajuda de nenhum outro município que não São Caetano, onde estamos. Nunca fui pedir, apesar de saber do espaço aberto em Santo André também. Mas até para nos mantermos, tem a anuidade não obrigatória dos acadêmicos, subsídio de São Caetano que salva, e o que tentamos fazer é partir para as leis de incentivo à cultura. Mas preciso confessar que é muito difícil participar: por ser tão complexa, às vezes é preciso um profissional para preencher. Em São Caetano mesmo, fizemos um curso on-line, com 42 aulas e fui reprovada com os outros 40, dos 42 participantes. É tão complicado, burocrático, que se desiste.

E a Inteligência Artificial, veio para a polêmica ou solução no processo autoral e ramo literário?

Acredito que a vida que nós temos hoje, nos perturba tanto... O celular é uma ferramenta, mas faz perder o foco. Neste compasso, a Inteligência Artificial também pode ser algo neste sentido. Neste tempo trabalhando com livros, já vi muita coisa feia, então acredito que a IA pode ser uma aliada. Não deixando que ela mande, produzo o texto necessariamente, mas dando ideias, ajudando nas correções ortográficas, de coesão. A IA pode ser uma espécie de autocrítica. Prova da complexidade da questão é que, até a Câmara Brasileira do Livro desclassificou no fim do ano passado um semifinalista para a categoria de melhor ilustração do ano ao Prêmio Jabuti, por utilizar IA nesta etapa. Acredito que, se você decide carregar consigo o título de escritor, por exemplo, não adianta achar que agora é só jogar instruções para a Inteligência Artificial e ela fará sua obra. Inclusive, é bom contextualizar que na Academia, em mais de 40 anos, já passamos pela adaptação da sociedade com várias tecnologias. Eu mesma, sou do texto do telex (telegrama eletrônico), meu primeiro computador era grande, preto e branco. Uma curiosidade boa se mencionar é que nossa última eleição na Algrasp foi em 2020, na pandemia e virtual, por videochamada. Mas não deu muito certo, porque o grupo se compõem de pessoas com uma certa idade (de uns 40 a até 80 anos). Tivemos oito falecimentos recentemente ainda por cima. Então estamos buscando autores jovens também, o que é difícil porque há coisas que só se consegue alcançar com certa experiência e o ingresso na Academia só acontece por indicação e pela passagem de uma comissão julgadora. Não queremos também determinar a idade de ninguém e deixar a questão sistemática, basta ter livros editados e atender algumas regras, como não ter pornografia nos escritos. Porque, veja bem, existe sim uma modernização na literatura, mas os clássicos nunca sairão de linha, por exemplo, e, apesar das variações de gêneros lidos e escritos, o que de verdade se observa em comum no segmento é o amor por este universo de palavras. O que gostaríamos é de desestigmatizar um certo medo que as pessoas têm da academia, em realidade. A Prefeitura de São Caetano mesmo tem a Academia Popular de Letras, mas eles nem nos visitam. É como se a gente fosse elitista.

Como a senhora avalia as feiras literárias locais, ao exemplo da Flirp (Feira Literária de Ribeirão Pires)? 

Olha, eu participei da primeira edição da Flirp e não fomos muito felizes. Estávamos em um estande, junto com a (Fundação) Pró-Memória de São Caetano. Chegamos lá e infelizmente ninguém nos assessorou, foi fora do que a Academia esperava. Mas agora, em 2024, nos convidaram, expliquei para a organização as dificuldades passadas, nos acolheram e, sabendo que não somos uma entidade destinada a vendas, propuseram a participação em um painel de palestra. Mas por agenda pessoal não pude comparecer. Mas ainda acho que poderíamos fazer uma Bienal do Grande ABC, até da Grande São Paulo. Um local interessante seria Paranapiacaba, aliás, pela ambientação diferente. Tudo pode ser feito, mas é claro que requer dinheiro, união das prefeituras. Seria importante porque a literatura está em tudo. Ela não é competição, está mais para um bom escapismo, presente até nos sons e telas, no cinema e teatro. Sendo assim, a literatura não se torna apenas um reflexo da sociedade, mas também um agente ativo de mudança e desenvolvimento. Quem lê sabe que não são poucos os grupos historicamente marginalizados que ganham voz nestas narrativas. E, como mencionei antes: o momento histórico é o que compõe todas as produções literárias e o Grande ABC, por sua vez, absorve também exatamente isso.




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