Longevidade Dia Internacional do Idoso conscientiza e sensibiliza sobre necessidades da terceira idade; sete cidades têm 465 mil pessoas com mais de 60 anos
FOTO: Celso Luiz/DGABC

Aos 103 anos, Adelina Ricci Bertine passa os dias brincando de boneca, cantarolando músicas inventadas e conversando em idiomas desconhecidos. A rotina leve, que se assemelha à de uma criança, chegou com sua longevidade invejável. Os cabelos brancos e as rugas não são mais motivo de preocupação. As marcas da idade agora são celebradas anualmente pela família.
A moradora de São Caetano, umas da 267 pessoas da região com mais de 100 anos, segundo o Censo de 2022, vivenciou diversos momentos históricos da humanidade, como a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a ditadura brasileira (1964-1985), a primeira vez que o homem pisou na Lua (1969), a queda do muro de Berlim (1989) e também a mais recente pandemia da Covid-19 (2020). Apesar de ter nascido antes, em 1921, a idosa viu a morte de personalidades como Pelé (1940-2022) e Elizabeth 2ª (1926-2022).
Se a memória não é mais sua aliada, por conta da demência pela idade, as histórias de Adelina são compartilhadas com riqueza de detalhes pela sua neta, Cintia da Silva Bertini Leite, 47. Nascida em São José do Rio Preto, Adelina mudou-se para o município são-caetanense em 1960 com o marido, Henrique Antônio Bertini, que faleceu em 2006 aos 94 anos. Filha de pais italianos, a centenária tem nove filhos, oito mulheres e um homem, 21 netos e 32 bisnetos, sendo o mais velho com 20 anos e o mais novo com dois.
Dona de casa, Adelina dedicou a vida ao cuidado da família e ao artesanato, uma das suas grandes paixões. Costura, bordado e principalmente o crochê sempre estiveram presentes na sua trajetória e toda a dedicação ao trabalho manual foi ensinada com carinho para a neta. O exemplo rendeu frutos, pois Cintia seguiu pela mesma área e hoje é professora de artes e ministra aulas de crochê.
“São tantas memórias em relação à minha avó, sinto o gosto e o cheiro da sua comida, o pão doce que ela fazia é impossível de esquecer. A família se reunia todos os domingos na sua casa. Enquanto os adultos jogavam baralho e ouviam jogos de futebol no rádio, as crianças brincavam no quintal. Ela ensinou os netos a fazer capucheta (espécie de pipa sem varetas) com jornal”, relembrou Cintia.
Se conseguisse dominar sua memória, Adelina provavelmente ficaria orgulhosa de saber que o ato de cuidar foi passado pelas gerações da família e segue sendo reproduzido, inclusive na dedicação dos familiares com seu bem-estar.
POPULAÇÃO MAIS VELHA
Assim como Adelina, outros centenários do Grande ABC celebram os anos de vida ao lado dos seus familiares. Em 2022, a região registrou 267 moradores com mais de 100 anos, sendo 56 homens e 211 mulheres, de acordo com dados do Censo Demográfico. No Estado de São Paulo eram 5.095 pessoas e, no Brasil, a população chegou a 37.814. Os idosos representam 17,2% da população da região, que concentra 465.587 pessoas com mais de 60 anos. Os dados demográficos são importantes indicadores para construção de políticas públicas para proteção desse grupo, assim como o Dia Internacional do Idoso, celebrado na última terça-feira (1°), que busca conscientizar e sensibilizar a população sobre necessidades da terceira idade. A longevidade da população está associada à melhoria na qualidade de vida, que engloba uma série de fatores. O médico geriatra do Hospital Felicio Rocho, Leonardo Pereira Florencio, ressalta que é necessário adotar uma abordagem multidimensional que contemple aspectos físicos, emocionais, sociais e cognitivos para o envelhecimento saudável. Entre as dicas apontadas pelo médico estão prática de exercícios físicos, alimentação saudável, acompanhamento médico regular, socialização, estimulação cognitiva e apoio familiar. “Também é importante manter a autonomia, incentivando a participação ativa do idoso nas decisões e nas atividades diárias, respeitando sua independência”, finaliza Florencio. Região terá mais idosos que crianças em 2035, revela projeção
Em 11 anos, o Grande ABC terá mais moradores idosos do que crianças. Segundo projeção populacional da Fundação Seade, agência de estatísticas do governo do Estado, em 2035 serão 464.779 pessoas com mais de 60 anos e 426.430 jovens de até 14 anos. Esses dados são referentes à média regional, porque neste ano apenas quatro municípios (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Ribeirão Pires) atingirão a inversão da pirâmide etária – fenômeno demográfico que ocorre quando a população de idosos é maior que a de jovens.
O envelhecimento populacional nos sete municípios deverá ocorrer apenas em 2045. São Caetano vive essa realidade desde 2020, quando a cidade foi a primeira do Grande ABC a registrar maior quantidade de pessoas mais velhas na comparação com as mais novas. A pesquisadora e gerente de demografia da Fundação Seade, Bernadette Waldvogel, explica que a projeção populacional até 2050 foi realizada com base no Censo 2010 e que um novo estudo com dados do Censo 2022 ainda será divulgado. Porém a pesquisadora diz acreditar que as novas projeções sigam a tendência apresentada. De acordo com a previsão do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2030 haverá mais brasileiros com idade superior a 60 anos do que crianças. Outra estimativa do órgão é que em 2046 as pessoas com mais de 60 anos vão ser a maior fatia populacional do País, chegando a 28%. Os principais motivos para esse movimento são a queda na taxa de fecundidade (número de filhos por mulher) e o aumento da expectativa de vida, segundo o IBGE. De 2000 para 2023, a taxa de fecundidade caiu de 2,32 para 1,57 filho por mulher, e deve recuar até 1,44 em 2040, quando atinge seu ponto mais baixo. Mudanças nos padrões familiares e nas decisões reprodutivas ao longo das últimas décadas são algumas das causas para diminuição na taxa de fecundidade no País. Enquanto a estimativa do número de filhos diminui, a esperança de vida do brasileiro ao nascer passou a ser de 76,4 anos em 2023. Em 2019, um ano antes da pandemia de Covid-19, a estimativa era de 76,2 anos. Sem reposição, população irá diminuir a partir de 2042
A população brasileira vai começar a diminuir em 2042. Segundo projeção do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil deverá atingir o número máximo de habitantes em 2041, com 220 milhões de pessoas, e a partir desse ano começará a encolher até chegar a 199,2 milhões em 2070.
A tendência de diminuição ocorre justamente por conta da baixa taxa de fecundidade, que impacta no nível de reposição populacional, conforme explica a pesquisadora e gerente de demografia da Fundação Seade, Bernadette Waldvogel. “Desde a década 1960 a fecundidade vem reduzindo. Em 2022, a taxa no Estado de São Paulo era de 1,52 filhos por mulher, número muito baixo. A curto prazo, se continuar essa tendência de redução, a população vai passar a diminuir porque já não há um número de nascimentos que supere o número de óbitos”, destaca a pesquisadora. Bernadette pontua ainda sobre a esperança de vida em relação ao crescimento populacional. “Por outro lado, temos o envelhecimento da população, que apesar da alta na expectativa de vida, são pessoas que estão envelhecendo e que não viver para sempre. Por conta do alto número de pessoas mais velhas, os registros de óbitos aumentam, enquanto o de nascimentos diminuem. Essa diferença do crescimento vegetativo tende a ficar negativo no futuro”, finaliza a gerente de demografia.
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