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‘É preciso escolher bem os secretários de saúde’
Lays Bento
23/09/2024 | 08:16
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FOTO: Divulgação/Gerson Areias

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Faltando 13 dias para a eleição que vai definir os prefeitos para os próximos quatro anos – e os candidatos que seguem na disputa em cidades onde haverá segundo turno –, já é tempo de pensar nos futuros secretários de saúde.

A preocupação com o tema mobiliza o SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios) e a FeSaude (Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios), segundo Francisco Balestrin, médico e presidente das duas entidades. 

Ele destaca a importância de os gestores escolherem bem os profissionais que irão conduzir uma das pastas mais importantes para a população.

RAIO X

Nome: Francisco Roberto Balestrin Andrade
Estado civil: Casado
Idade: 68 anos
Local de nascimento: São João da Boa Vista(São Paulo)
Formação: Medicina e Administração
Hobby: Corridas matinais há 40 anos e leitura
Local predileto: Salvador (Bahia)
Livro que recomenda: ‘Ikigai: os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz’, por Ken Mogi
Personalidade que marcou sua vida: o cineasta Akira Kurosawa
Profissão: Gestor de saúde
Onde trabalha: Sindicato e na Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo; Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde

Em fevereiro o senhor assumiu a federação que reúne todos os sindicatos da cadeia da saúde em São Paulo. Quais desafios encontrou e quais soluções já identificou nesta casa? 

Antes de comentar a questão, gosto de apenas esclarecer o que é um sistema sindical, na realidade. Todos conhecem o que é, por exemplo, um sindicato de trabalhadores, sendo o patronal (como é o caso do SindHosp) quem faz o contraponto nas negociações. Com esta ressalva, podemos chegar à resposta da pergunta do Diário, em que atribuo o desafio à responsabilidade em si da entidade, de calibrar adequadamente para todos lados os benefícios a serem negociados. Sem isto, o mercado pode entrar em desequilíbrio, com até o fechamento de instituições. Agora, há responsabilidade e desafio só por presidir há três anos o maior órgão do segmento na América Latina, um dos mais antigos, de 1938. E. só para fechar, é bom explicar que a FeSaude, que presido há um ano, é a junção dos cinco sindicatos regionais no Estado (Jundiaí, Mogi das Cruzes, Suzano, Campinas e São Paulo) – sendo as sete cidades do Grande ABC subordinadas ao mesmo núcleo da Capital.

Que avaliação o senhor faz da saúde no Grande ABC e no Estado de São Paulo?

A região tem um polo de saúde bem desenvolvido, importante para a saúde pública. Isto fica evidente até mesmo porque um médico de São Bernardo, o doutor Geraldo Reple, faz parte do Cosems (Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo). Há um destaque grande também a instituições, como a Fundação do ABC, que trabalha o desenvolvimento. É preciso reconhecer que pelo Grande ABC há também um polo de desenvolvimento da saúde suplementar (rede privada). Considero que ela nasceu em São Bernardo e se popularizou, principalmente por ser um benefício oferecido de forma inicial pela indústria automobilística. Esta força foi fundamental para que a medicina privada também se desenvolvesse nos hospitais locais. 


Pensando neste cenário, como o senhor avalia a atuação do SUS diante das eclosões de emergências na saúde pública? 

Dez por cento do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil hoje é com saúde. Só que o que é importante destacar que é a própria OMS (Organização Mundial da Saúde) indica que algo em torno de 20% do que se gasta em saúde é desperdício. Então imagina: se a gente gasta R$ 900 bilhões no País, R$ 90 bilhões são os desperdícios mais variados, desde corrupção até falta de gestão e organização, falsificação de materiais de medicamentos e produtos. Dados assim mostram a importância da gestão profissional e continuada no setor de saúde, seja ele público, seja ele privado. Portanto, pensar na atuação do SUS é olhar para uma atuação complexa, com três níveis de gestão: federal, estadual e municipal. Ele é referência e expande o que entendemos como setor público, já que é gerido diretamente pelo Ministério da Saúde – órgão e parâmetro para a rede particular. 

As eleições para vereador e para prefeitos nos municípios brasileiros estão próximas. Qual a importância de uma escolha assertiva aos cargos de secretários de saúde?

Este é um ponto de muita atenção, porque em qualquer pesquisa de opinião vocês podem reparar que educação, segurança e saúde sempre são e serão as principais queixas do povo. Aliás, tem um estudo que aponta que, dos 5.570 secretários municipais de saúde do Brasil inteiro, a cada mês, são trocados 300 em média. São vários os fatores para este dado, mas uma premissa que o explica bem é que uma coisa é ser um gestor privado e outra é ser um gestor público. Sendo assim, na FeSaude elaboramos um guia na tentativa de desenvolver um perfil ideal, para que os candidatos a prefeitos escolham bem seus secretários municipais de saúde. Por que, às vezes não tendo alternativa ele acaba escolhendo um médico pessoal dele, um diretor de um convênio que ele tenha familiaridade. E nem sempre esta é a melhor escolha. Neste intuito, compilamos nas páginas declarações de quatro ex-ministros do segmento: José Gomes Temporão (no primeiro governo do presidente Lula), Arthur Chioro (no mandato de Dilma Rousseff), Luiz Henrique Mandetta (um dos quatro presentes na pandemia, com Jair Bolsonaro) e Marcelo Queiroga (também na gestão bolsonarista). Os principais eixos trabalhados no material são o envelhecimento saudável, saúde mental, doenças crônicas e epidemias. Mas é claro que cada cidade tem a sua particularidade. Tanto é que para São Paulo e as cidades mais populosas do Grande ABC (como São Bernardo e Santo André, por exemplo), a gente acredita que o trabalho também deverá envolver um pilar no enfrentamento à violência urbana.

Este material já foi entregue aos prefeituráveis do Grande ABC? Como sente os bastidores por aqui? 

O material foi lançado no último dia 19, ou seja, estamos em processo de envio às cidades do Estado. Na Capital, entretanto, por ser a maior cidade da América Latina, já apresentamos o conteúdo para os candidatos Ricardo Nunes (MDB), Tabata Amaral (PSB), Guilherme Boulos (Psol) e Pablo Marçal (PRTB). Apenas o Datena (PSDB) que não compareceu no encontro promovido. No período, ele disse que ainda não tinha uma proposta de saúde e nem alguém que cuidasse do seu programa de saúde. Posteriormente enviamos para ele por meio do seu vice-candidato a prefeito José Aníbal (PSDB). Enfim, o esforço é para que todos os municípios recebam este guia até 6 de outubro. Com a ausência do segundo turno na maioria dos locais, os planos são entregar pessoalmente e em mãos os indicativos para alguns dos futuros prefeitos eleitos. O momento ainda será pertinente já que a escolha dos secretários municipais acontece após a posse ou durante o período de candidatura mesmo. 

Quando falamos de medicina, pensamos também em um segmento seleto, pela concorrência em vestibulares públicos e alto valor de mensalidade em instituições privadas. O senhor acredita que o ensino pode ser mais democratizado?

Eu mesmo não tenho nenhum outro médico na família, cursei pela curiosidade e coragem tendo passado a vida dos estudos em Campinas. É interessante recordar até porque as opções de profissão na época giravam entre engenharia e advocacia ou sacerdote. Há 40 anos me apaixonei pela medicina do ponto de vista administrativo, quando me especializei pela Fundação Getúlio Vargas. E você tem razão: das 400 escolas de medicina do nosso País, a maior parte é privada, virando exclusivamente empreendimentos mercantis. O que hoje se discute muito é como a saúde de alguma forma ficou tão comercial e impossível de sustentar tantas escolas públicas, porque a faculdade de medicina é disparada a mais cara que existe de todas. E é fato que para se ter uma boa escola, precisa-se ter bons professores boa estrutura, bons laboratórios e hospitais. Só que é inegável que o primeiro passo para se democratizar a profissão é a criação de mais escolas públicas. Além disso, é preciso pensar na pluralidade, porque o que acontece é que essas escolas formam profissionais muito semelhantes, pelo mesmo currículo escolar. E ao mesmo tempo também não adianta ter muitos médicos no mercado sem qualidade profissional. Pensando neste aspecto, uma estratégia seria aderirmos a um esquema semelhante ao exame da Ordem para os advogados. Quando a gente fala de democratização é muito importante, porque a questão impacta toda uma cadeia: a solicitação de exame, a passagem pela enfermagem, a volta ao consultório se verte no que a gente chama de democratização de atenção em UBSs (Unidades Básicas de Saúde). O resultado é qualidade assistencial melhor, com diagnóstico mais rápido. 

Recentemente o senhor publicou que a digitalização é importante no compasso em que a saúde avança. Há exemplos práticos para que este cenário avance com custo moderado? 

A democratização da saúde é também democratização da informação. Por isso o cidadão brasileiro precisa começar a cobrar o que quer, o que precisa na saúde. Aqui no Estado de São Paulo, se um paciente não tiver o prontuário on-line, será necessário repetir exames e assim ele não será atendido adequadamente. É preciso que os protocolos de exames solicitados e de procedimentos realizados seja um único sempre. Já imaginou se o paciente estiver desacordado? Se ninguém souber que ele é diabético? E se não houver relatos anteriores sobre reações alérgicas com medicamentos? Às vezes, este detalhe pode evitar o retrabalho de uma tomografia, por exemplo. Outra hipótese é a integração: se sofrer um acidente na Rodovia dos Bandeirantes, até que ponto o relatório completo aparecerá em um hospital de Santo André? A digitalização também pode ser entendida como uma urgência na comunicação entre profissionais de saúde em pontos distintos no Brasil e na formação desta classe. O dia em que as redes levarem digitalização para esta ponta, médicos poderão atender à distância e especialistas poderão dar ou intensificar a prestação de consultoria para colegas. Seria belo observar a troca entre os conhecimentos do Interior da Bahia à São Paulo, ou de Manaus ao Rio de Janeiro e muito mais. Isso sim é democratizar e fazer jus ao acesso à saúde – e a internet. 




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