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Em 20 meses à frente da Seduc (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo), Renato Feder, secretário estadual, faz um balanço sobre as principais ações realizadas na rede pública durante o período.
Entre os destaques citados pelo gestor, estão a ampliação de ferramentas tecnológicas nas escolas, a criação do Provão Paulista (vestibular do Estado) e a expressiva adesão dos alunos as olimpíadas de matemática e de redação da rede estadual.
Para Feder, concursos como o Desafio de Redação do Diário incentivam a escrita e a leitura e possuem impacto transformador na educação.
RAIO X
Como o sr. avalia o resultado desses 20 meses de atuação à frente da secretaria?
Fizemos muitas mudanças na rede paulista, colocamos diversas ferramentas à disposição dos professores e das unidades de ensino. As escolas públicas, em geral, são ilhas isoladas, sem receber muito apoio das secretarias municipais e estaduais de educação. Decidimos enfrentar esse problema conectando as unidades com a pasta e oferecendo plataformas úteis. Acredito que, nesses 20 meses, conseguimos disponibilizar uma quantidade significativa de ferramentas para as escolas. Hoje, a criança já sente uma diferença enorme na prática pedagógica e na grade curricular comparada ao passado.
Quais são essas ferramentas?
A principal é o material didático usado pelos professores. Antes, cada escola tinha seu próprio material. Agora, a grande maioria das instituições utiliza nossos materiais, que são organizados aula a aula para apoiar o docente. O professor se forma com esse conteúdo. Por exemplo, na semana 28, os professores começam a se preparar para aula 29. A aula está pronta para o professor, ele pode editar, adicionar ou retirar conteúdo, tornando-a editável. A outra ferramenta é a lição de casa. Após dar uma aula, o professor clica em um botão e todos os alunos da sala recebem a lição de casa. O docente e o diretor podem ver se os alunos fizeram a tarefa e se acertaram ou erraram. Hoje, em uma escola pública, mais de 90% dos alunos fazem a lição de casa, o que é um avanço. Em média, nossos estudantes realizam 25 lições por semana, isso nunca ocorreu em escola pública. Gostaria de destacar também algumas outras mudanças significativas, como a atualização da grade curricular. Tornamos a escola pública muito mais moderna, com a inclusão de aulas de programação e robótica, educação financeira, oratória, liderança e empreendedorismo. Essas disciplinas visam preparar o aluno para o mercado de trabalho e para a vida adulta. Também temos as plataformas digitais. Os alunos têm acesso a uma grande quantidade de livros, desde clássicos até best-sellers, que são às vezes caros e inacessíveis para a família. Oferecemos livros como Sapiens, O Mundo de Sophia, Harry Potter e Diário de um Banana, entre outros, todos disponíveis gratuitamente. Além disso, temos plataformas de matemática, leitura, inglês, português, programação e preparatórias para vestibular. Por fim, a educação profissionalizante também teve um avanço. Quando começamos, havia 20 mil alunos matriculados em cursos de educação profissionalizante. Conseguimos aumentar esse número para 80 mil e agora estamos com 170 mil estudantes matriculados para 2025. É uma grande transformação na rede estadual.
O que ainda deve ser feito? Quais são os projetos?
Nesses 20 meses, concluímos a maioria dos programas que gostaríamos de implementar. Alguns projetos estão em andamento e são inovadores, e precisamos cuidar bem deles. Por exemplo, estamos melhorando o material didático, as plataformas, a lição de casa, a correção de redações por Inteligência Artificial e a formação de professores. O principal desafio agora é ajustar essas ferramentas para que atendam melhor às escolas.Entre as novidades, temos a bolsa estágio para o ensino médio, no qual a empresa contrata o aluno e o Estado paga o primeiro semestre. Isso estimula o jovem a começar a trabalhar durante o ensino médio. O valor da bolsa é de até R$ 1.000 mensais. Além disso, temos o Provão Paulista, um concurso que dá aos jovens a oportunidade de entrar em universidades como USP (Universidade de São Paulo), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Unesp (Universidade Estadual Paulista), Fatec (Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo) e Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo). Esperamos um aumento significativo no número de participantes este ano.
Em abril, o sr. participou de um evento sobre tecnologia e falou sobre o uso da Inteligência Artificial no aprendizado. Onde ela está sendo implementada na rede estadual e quais são os principais impactos na educação?
A Inteligência Artificial é importante no papel do professor em nosso modelo pedagógico. O professor é o articulador do conhecimento e o gestor da sala de aula. Em São Paulo, a Inteligência Artificial já está sendo utilizada principalmente na correção de redações. Com um volume gigantesco de textos, a correção manual seria impossível. A Inteligência Artificial corrige as redações e o professor faz a revisão, facilitando muito o trabalho. Estamos treinando a Inteligência Artificial também para corrigir lições de casa. Com mais de um bilhão de tarefas realizadas pelos nossos alunos, cerca de 25 por aluno a cada semana, a correção manual seria inviável. A Inteligência Artificial permitirá exigir mais dos alunos sem sobrecarregar os professores, permitindo que eles se concentrem na sala de aula e na conexão humana.
Há resistência por parte da comunidade escolar em relação ao uso da Inteligência Artificial?
Não, em geral, a adoção tem sido positiva. O debate sobre o uso da Inteligência Artificial é mais amplo, mas nas nossas escolas, as implementações têm sido bem recebidas. Por exemplo, a lição de casa digital e a matemática gamificada têm sido adotadas com entusiasmo. A utilização dessa tecnologia tem mostrado resultados positivos e uma alta adesão das escolas.
O Diário promove há 18 anos o Desafio de Redação, o maior concurso literário do Grande ABC. Em 2023, foram 314 escolas inscritas e 92.580 redações recebidas. Qual a importância de concursos como esse para democratizar a educação?
Estamos muito orgulhosos do Desafio de Redação promovido pelo Diário. É um concurso que envolve milhares de alunos e incentiva a leitura e a escrita. Também aumentamos nossos próprios concursos, como a Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas. Tivemos mais de 1 milhão de alunos na primeira fase e entregamos 125 mil medalhas, a maior quantidade que conhecemos. A participação na Olimpíada de Redação também foi enorme, com 1,7 milhão de alunos. Esses concursos têm um impacto transformador na educação.
A rede estadual de São Paulo caiu no ranking de qualidade da educação em todos os níveis de ensino: fundamental e médio, segundo dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2023. O estudo também apontou que os índices ainda não voltaram ao patamar de antes da pandemia. Qual a sua avaliação sobre esse resultado? E quais medidas serão adotadas para melhorar a educação no Estado?
O Ideb avalia a cada dois anos, e a queda ocorreu principalmente no ensino médio. As aulas de matemática e língua portuguesa eram muito reduzidas, com apenas duas por semana, o que prejudicou os resultados. Aumentamos a carga horária dessas disciplinas em 70% e esperamos ver melhorias na próxima avaliação. O resultado atual será refletido na próxima prova do MEC (Ministério da Educação).
No mês passado, a Seduc divulgou que 15 diretores de escolas estaduais do Grande ABC haviam manifestado interesse em aderir ao modelo cívico-militar a partir de 2025. No total, 302 diretores de escolas no Estado manifestaram interesse. No começo de agosto, a Justiça de São Paulo suspendeu a implantação do programa após pedido de liminar do Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo). Como o sr. avalia a decisão judicial e a implementação desse modelo no Estado? Faltou diálogo com a comunidade escolar?
O modelo cívico-militar é um movimento democrático que busca atender às demandas da comunidade escolar. A política da secretaria é garantir que a consulta seja feita de maneira democrática. A liminar que impediu a consulta popular é vista como antidemocrática, pois, impede o processo de escolha da comunidade. O fluxo é que o diretor manifesta interesse, depois há uma consulta pública e, se a votação for favorável, o processo segue conforme a vontade da comunidade escolar.
Uma das escolas que demostraram interesse no modelo foi a unidade de São Bernardo, cujo nome homenageia o jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura militar. Após pressão da família do jornalista e de organizações da sociedade civil, a direção desistiu de adotar o modelo cívico-militar. Faltou uma melhor avaliação da secretaria em relação às unidades que demonstraram interesse no modelo?
A implementação dessas escolas ocorre somente com a aprovação da comunidade escolar por meio de votação. No caso de São Bernardo, houve um exagero antes da votação, e o processo não seguiu o rito adequado.
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