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Excesso de exames complementares
Fabiano Gonçalves Guimarães
02/09/2024 | 08:19
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Fernandes

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Em nosso terceiro encontro trago para nossa conversa uma importante discussão. O avanço tecnológico na medicina tem possibilitado diagnósticos mais rápidos e precisos, mas também trouxe à tona um problema crescente: o excesso de exames complementares. 

Como o próprio nome diz, esses exames deveriam complementar um raciocínio que foi construído durante a conversa inicial com a pessoa que procura cuidado e durante o exame físico realizado. A decisão pela realização destes exames deveria ser tomada em conjunto e levar em conta diversos fatores, visto que o abuso destes procedimentos gera diversos custos. Cada exame traz consigo, além da despesa financeira para o sistema, alguns custos indiretos como o desconforto da pessoa que fará o exame e o risco de intervenções desnecessárias geradas a partir do resultado. 

Quando exames são solicitados sem os critérios necessários aumenta-se a chance de diagnósticos falsos positivos que podem levar a procedimentos inadequados. Outra situação possível é a descobertas de alterações que não teriam impacto na saúde da pessoa e não precisariam ser abordadas, mas a partir da descoberta por exames inadequados geram uso de medicações, cirurgias ou tratamentos invasivos e geradores de estresse, trazendo risco real a pessoa que buscava um melhor controle da sua saúde. 

Parte do problema está nesta tentativa de controle e busca por certezas relacionadas ao estado de saúde. A médica ou o médico assistente devem ser capazes de explicar para quem busca o cuidado da sua saúde que não é possível eliminar as incertezas, mas sim entender como se dá o processo saúde doença respeitando como a pessoa cuidada lida com as informações sobre sua saúde e como deseja programar o cuidado. 

Muitas vezes esta pessoa procura a consulta influenciada por uma cultura do “quanto mais exames eu fizer, melhor será minha saúde”. Esta cultura é fruto de uma interação complexa entre uma prática defensiva da medicina, a falta de entendimento estatístico das possibilidades de alterações irrelevantes, as expectativas irreais dos pacientes em relação ao poder da medicina que muitas vezes é alimentada por promessas de resultados em redes sociais e os interesses comerciais da indústria farmacêutica e de exames e procedimentos.

O que o médico ou a médica podem fazer para enfrentar este problema? Pode centrar o cuidado na pessoa que o procura. Utilizar a melhor evidência científica disponível adaptando-a ao contexto social e econômico local. Quando receber o pedido “peça todos os exames! Preciso saber o que eu tenho”, pode orientar sobre a consequência de exames desnecessários e incentivar intervenções que tenham impacto na saúde das pessoas como a prática de atividade física, a cessação de tabagismo, o controle do estresse e outras. 

E você caro leitor, o que pode fazer? Ter um médico para chamar de seu. Alguém que te acompanhe ao longo do tempo e utilize os exames necessários, no momento correto e com a agilidade necessária para serem realmente efetivos. 

Abraços e até nosso próximo encontro. 

Fabiano Gonçalves Guimarães é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade




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