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‘IA pode ser aliada da literatura’

Beatriz Mirelle
19/08/2024 | 10:22
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O escritor Ricardo Ramos Filho é o curador da 3ª edição da Flirp (Feira Literária de Ribeirão Pires), que ocorrerá no Paço Municipal, entre 31 de agosto e 1º de setembro, a partir das 10h, e homenageará Ariano Suassuna. Em entrevista ao Diário, ele, que é neto de Graciliano Ramos, contou um pouco sobre processo criativo, o porquê escolheu produzir obras para crianças e jovens, além de expor o que pensa sobre o uso da Inteligência Artificial na literatura. Também exaltou a relevância do Movimento Armorial e como o tema será explorado no evento literário.

RAIO X

Nome: Ricardo Ramos Filho
Idade: 70 anos
Local de nascimento: Rio de Janeiro (RJ). Mora em Sumaré (SP)
Formação: Graduado em Matemática pela PUC. Mestre e Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo
Hobby: Ler, cozinhar e assistir séries
Local predileto: Praia Barra do Sahy, em São Paulo
Livro que recomenda: Dor Fantasma, de Rafael Gallo
Personalidade que marcou sua vida: Graciliano Ramos
Profissão: Escritor, professor de Literatura e presidente da União Brasileira dos Escritores
Onde trabalha: No escritório, onde fica rodeado por livros
 

DGABC

Sua primeira formação foi em Matemática pela PUC. O senhor não queria ser escritor? Como essa profissão surgiu como opção? 

Primeiro me formei em Matemática. Na minha adolescência, tinha medo e também queria contestar as minhas raízes. Basicamente, considerava que ser escritor na minha família era falta de imaginação e eu achava que, sem imaginação, eu não conseguiria ser escritor. Pensei: ‘o que tem mais de diferente de escrever?’. A Matemática. Cursei com dificuldade porque nunca tive nenhum pendor na área. Depois que me formei, trabalhei por um bom tempo com T.I. (Tecnologia da Informação). Só após muitos anos fui para a USP (Universidade de São Paulo) fazer mestrado e doutorado estudando Graciliano Ramos. Publiquei meu primeiro livro com 38 anos. Apesar de tentar fugir disso, o chamado veio muito forte. Não consegui evitar. Quando eu me vi, já tinha começado a escrever e, curiosamente, escolhi principalmente a literatura para crianças e jovens, que é um texto que nem o Graciliano nem meu pai exploraram muito. Foi um terreno que pude trilhar de uma maneira mais independente, sem tanta comparação. Hoje, já com 70 anos, fico bem à vontade para escrever também crônicas e romances. 

Quais são os desafios para escrever livros para crianças e jovens? 

Sempre fui um leitor voraz. Leio uma média de três a quatro livros por semana. Quando eu era adolescente, a leitura era uma paixão muito violenta, ficava tomado por ela. Quando eu encontrava um texto que dizia alguma coisa para mim, não queria fazer outra coisa, lia o dia inteiro. Então, como escritor, quis escrever um pouco para esse menino que gostava tanto dos livros. Em primeiro lugar, a gente escreve para gente mesmo. Faço para essa minha versão jovem tão apaixonada pela leitura. 

Em julho, o sr. participou de encontro com escritores locais de Ribeirão Pires. No dia citou que prefere chamar “literatura para crianças” o que outros chamam ‘literatura infantil’. Poderia explicar a distinção entre os termos?

Isso é muito importante. Quem estuda literatura, percebe que há um certo preconceito com relação à literatura infantil. Ela não tem o mesmo status em comparação àquela feita para adultos. Há uma corrente que acredita que muito disso acontece porque a gente chama de literatura infantil. Quem ouve a palavra infantil associada à literatura pensa que é algo menor, que ainda precisa crescer e, consequentemente, dá menos importância. A troca do termo para crianças mostra qual o destino daquela obra. É uma forma diferente de considerar esse público de leitores tão importantes quanto os adultos. 

Em Se eu não me chamasse Raimundo, o senhor faz referência ao livro A Terra dos Meninos Pelados, de Graciliano Ramos. Como surgiu a ideia de produzir essa obra? 

Acho a história dessa obra muito bonita, interessante. Meninos pelados são meninos sem cabelo, carecas. Sou eu que administro a obra do Graciliano Ramos, cuido dos direitos autorais, autorizo publicação, converso com as editoras. Isso é um trabalho que faço para a família. Recebi uma carta do Instituto do Câncer de Caruaru que os meninos com câncer sendo tratados nesse local tinham lido A Terra dos Meninos Pelados, do Graciliano, se identificando demais e estavam pedindo autorização para dar o nome do livro a um pavilhão que havia no instituto. É claro que eu deixei, embora eles nem precisassem desse tipo autorização. Fiquei muito contente de os meninos terem gostado. Mais tarde, me deu vontade de escrever um livro sobre um menino que tem câncer, o Raimundo, que não gostava do nome dele, porque Raimundo era um nome herdado de avô. Ele está sendo tratado por câncer no hospital, e um contador de história lê A Terra dos Meninos Pelados, do Graciliano, para os pacientes. O garoto, então, adora a história e se reconcilia com o próprio nome, porque o herói da obra se chama Raimundo.

No começo, o sr. queria contestar as próprias raízes. Esse livro foi uma forma de se aproximar de seu avô? 

Sim. A gente vai amadurecendo. No Brasil, os três maiores escritores são Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Seria um sonho impossível querer ser igual a ele. Mas também sei que tem espaço para todo mundo. 

Neste ano, o sr. está como curador da 3ª edição da Flirp (Feira Literária de Ribeirão Pires). De que maneira eventos como esse democratizam o acesso ao livro? 

Eu sou um apaixonado por feiras literárias. A principal qualidade delas é levar a literatura para as cidades. Nelas, muitas vezes os autores estão presentes para autografarem os livros. Acho bacana mostrar à população que o escritor é uma pessoa comum como qualquer outra e acessível. Você pode conversar com ele, ouvi-lo, concordar ou não com o que ele está dizendo. Além disso, quem for acompanhar a Flirp nos dias 31 de agosto e 1º de setembro vai conhecer mais sobre um escritor do porte de Ariano Suassuna. As feiras levam cultura, informação e lazer. Cumprem um papel social muito importante. 

Em 2024, faz 10 anos da morte de Suassuna. Na sua opinião, qual o grande legado dele? 

Daqui a pouco, em 2027, ele completaria 100 anos. O Ariano Suassuna é um escritor que carrega o Nordeste na literatura e que conseguiu trazer para o texto três coisas muito importantes a partir da criação do Movimento Armorial. No texto do Suassuna, você encontra a literatura de cordel, um texto inverso, com uma métrica até certo ponto rígida, mas que dá um ritmo muito bonito ao texto; a Xilogravura, que é a arte gravada em madeira e depois impressa; e as músicas das feiras nordestinas, tocada por pífano, que é um tipo de flauta, por rabeca, que é um violino, e pelo acordeon. 

O movimento Armorial mescla o erudito e a cultura popular. Ariano exalta a importância de valorizar a cultura regional, em especial a nordestina. Como isso será explorado na Flirp? 

Durante a Flip, teremos pessoas que estudam e são apaixonadas pelo Suassuna. No sábado, 31 de agosto, teremos mesas a respeito da vida e obra dele, além de abordar o universo feminino e o teatro nos livros do Ariano. No domingo, 1º de setembro, os temas abordados serão a música armorial, a importância das bibliotecas para a comunidade, a questão indígena na literatura brasileira e o humor de Ariano como expressão de inteligência.

O sr. pode falar mais sobre a mesa ‘A questão indígena na literatura brasileira’? 

Nós vamos trazer a Trudruá Dorrico, indígena da etnia Macuxi, e a cacica Jaqueline Haywã, que é do povo Pataxó Hã Hã Hãe e moradora de Ribeirão Pires. Alguém pode argumentar: “Mas isso não tem nada a ver com o Ariano”. Primeiro, nós acreditamos que a literatura fala de tudo. Os indígenas têm de estar em todas as cenas literárias, têm de falar sobre os seus textos, têm de opinar sobre os autores homenageados. Por isso, as presenças delas são indispensáveis na Flirp. A feira foi pensada com muito carinho.

Segundo a Câmara Brasileira do Livro, o faturamento do setor editorial brasileiro caiu 43% desde 2006 . Quais motivos podem justificar esse cenário? O que falta para o Brasil ser um país de leitores? 

É muito difícil conseguirmos ter um diagnóstico. O livro no Brasil ainda é um objeto de consumo que custa caro. Se você quer dar um livro para o seu filho, frequentemente isso pode custar R$ 80. Esse valor para um brasileiro classe média baixa não é fácil. Outro motivo que dificulta a adesão de novos leitores é a queda na qualidade da educação. A partir do momento que as escolas aprovam os alunos independentemente do desempenho deles, estamos quase assinando um pacto deixando de lado a qualidade do ensino. Com isso, as pessoas leem mais. Na hora que a pessoa se instrui, se educa, ela se torna muito crítica ao que acontece ao seu redor. O Brasil é um País que não faz muito esforço para que isso aconteça, porque a leitura gera mudanças profundas.

O uso das redes sociais é tratado com um dos empecilhos para aumentar o interesse das pessoas pelo livro. Neste ano, as discussões sobre Inteligência Artificial estão cada vez mais efervescentes. Qual sua avaliação sobre a maneira como essa ferramenta pode mudar a forma como o público consome e como os escritores fazem a literatura no nosso País?

O ser humano, geralmente, é muito reativo às novidades. Sempre olhamos o novo com muita desconfiança. Em um primeiro momento, assim que se começou a falar em Inteligência Artificial, houve uma gritaria muito grande, as pessoas criticaram, se sentiram ameaçadas. Eu não penso assim. Acho que a Inteligência Artificial, como toda novidade no mundo tecnológico, vai ajudar em muita coisa, vai trazer algumas soluções. Precisamos, sim, proteger o escritor e isso está sendo visto pelo Ministério da Cultura, no sentido de que quando a Inteligência Artificial usar um texto meu como base para criar uma redação maior, eu tenho que receber o direito autoral por isso. Então, o que a Inteligência Artificial não pode fazer é criar uma obra se apropriando de conteúdos produzidos por outras pessoas de maneira velada, sem remunerar quem escreveu originalmente. Resolvido esse problema, tudo bem. A Inteligência Artificial pode ser, inclusive, uma aliada da literatura. Não é uma coisa para a gente proibir. Ela pode contribuir, assim como ajuda em muitos setores. O importante é o uso responsável. 

O sr. também acredita que a Inteligência Artificial possa ser utilizada para a criação de enredos e personagens? Essas mudanças são inevitáveis? 

Não acho que essa questão seja um campo minado desde que a produção não seja escondida. É importante que o escritor deixe claro que o livro foi feito com auxílio de Inteligência Artificial para que ninguém seja enganado. Agora, se eu usar Inteligência Artificial e assinar como Ricardo Ramos Filho, eu estou fazendo uma coisa errada. Eu estou mentindo. Não é muito difícil verificar que aquilo foi burlado. É quase que um roubo. O público tem o direito de saber o que está comprando.




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