Entrevista da semana
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Luiz Carlos de Queiróz Cabrera é presidente do Instituto Mauá de Tecnologia desde 2022. Ele chegou ao posto com uma bagagem profissional e acadêmica bastante rica e extensa. Ele é pós-graduado em administração pela Escola de Administração de Empresas da FGV (Fundação Getúlio Vargas), com extensão em Business Administration pela USC-University of Southern California em Los Angeles, dos Estados Unidos, e também lecionou na Mauá durante dez anos.
Ao Diário, ele falou sobre os dois anos à frente da Mauá e analisou o cenário da engenharia no Brasil, principalmente o plano de neoindustrialização proposto pelo governo federal no ano passado.
RAIO X
Qual o balanço que o senhor faz desses dois anos como presidente do Instituto Mauá?
O balanço final, quando a gente olha, é muito positivo. E confesso a você que quando eu penso em dois anos, parece que foram dez. A Mauá tem uma história muito bonita de crescimento, de evolução e de consolidação. Mas ela era muito baseada em ícones pessoais, em pessoas extraordinárias. Nós tivemos 111 diretores gerais, que permaneceram por mais de 22 anos na empresa. E o mundo hoje é coletivo, ele não pode depender mais dessas pessoas excepcionais que nós tivemos no passado. Então, essa diretoria – que foi eleita em 2022 – é composta só por ex-alunos e tem uma função estatutária. Ou seja, nenhum dos diretores tem ou poderia ter remuneração. Então, nós acabamos tendo o privilégio de montar uma diretoria muito forte, com grande diversidade de idades, o que ajuda muito. Então, tem uma combinação de competências e tem alguma coisa que faltava na antiga diretoria que é a presença de professores, entende? Tanto eu, quanto o Hubert Alquéres, nosso primeiro secretário, fomos professores na Mauá. A gente tem uma visão um pouco mais empresarial, mas sem tirar o pé do fato de que somos uma escola, ou um conjunto de escolas. Considero positivo esse período porque nós introduzimos várias modernizações no sentido de tornar toda a gestão mais coletiva. O Instituto está fazendo um planejamento estratégico, uma revisão de marca e estamos dando um suporte muito grande para a nossa academia, que sempre foi muito forte.
Nos últimos anos, temos visto uma ascensão muito forte da inteligência artificial. Como lidar com isso no âmbito da engenharia?
A Mauá está muito conectada com o mundo inteiro. E por coincidência, todos os quatro diretores tiveram atividades multinacionais. Então a gente está acompanhando tudo o que acontece no mundo hoje. Ninguém sabe onde isso (inteligência artificial) vai parar, ninguém sabe para onde todo esse desenvolvimento da inteligência artificial vai. E as empresas ainda estão aprendendo a utilizar essa ferramenta. Ela começou como uma utilização muito individual, mas aos poucos vai se tornando algo voltando mais às organizações. E tem algumas coisas curiosíssimas sobre a inteligência artificial. Por exemplo, há uma semana eu recebi de um colega meu de Stanford mostrando como você tem que lidar com essa ferramenta. Ele dizia para mim ‘seja sempre cordial, porque se você não agradecê-la, não dar bom dia, ela vai diminuir a intensidade das relações com você e das respostas que você vai pedir a ela’. Quer dizer, é o cúmulo você ter que falar ‘bom dia’ para a inteligência artificial como se fosse uma pessoa. Daqui a pouco estaremos perguntando ‘para qual time você torce?’. Então, estamos passando pela transição do uso individual para o uso organizacional, que nós ainda estamos aprendendo simultaneamente no mundo inteiro, entende? Quando você me pergunta como que vai impactar a engenharia, ela vai impactar na velocidade dos cálculos, na velocidade da pesquisa, na velocidade da troca das informações, enfim. Mas o mundo todo hoje tem uma preocupação de que é a inteligência artificial que tem que estar ao nosso serviço, e não nós a serviço da inteligência artificial. Esse é o ponto principal. Quando você olha as academias e olha as as empresas no mundo inteiro, precisa dizer o seguinte: ‘isso aqui é para nos ajudar, não é para nos dirigir, porque esse é o risco que existe com essa velocidade com que ela está sendo desenvolvida.
O Brasil passou por um processo muito grande de desindustrialização nos últimos anos. O senhor consegue avaliar quais foram os motivos para esse cenário e qual foi o impacto disso na engenharia?
Olha, é um assunto triste, né? Porque a desindustrialização brasileira é um fenômeno muito forte. E por que ela aconteceu? Ela aconteceu por três fatores básicos e todos eles ligados a políticas públicas. Falta de financiamento. Se você não tiver um financiamento da produção, você não consegue gerar capital de giro para poder fazer crescer. O segundo aspecto é falta de investimento em tecnologia e educação. E o terceiro é uma política fiscal tributária que impediu o crescimento e favoreceu as importações, em vez de favorecer a produção local. Mas também é importante entender que esse não é só um fenômeno brasileiro. A gente vê a Europa passando um processo parecido, nos Estados Unidos é só olhar as campanhas para presidente. Eles só falam em melhorar a industrialização, que depende dessas políticas públicas, principalmente da de financiamento e do investimento educação e em tecnologia.
O senhor chegou a ver o plano de neoindustrialização que o governo federal lançou? O que achou?
Nós não só vimos, como discutimos. Esse plano teve um lançamento muito legal feito pelo (Geraldo) Alckmin (vice-presidente) e pelo (presidente) Lula. Agora, quando lemos ele, no cuidado e no detalhe, vemos três coisas novas. É que ele tem uma preocupação maior com a diversidade da tecnologia. Ou seja, eu posso ter a tecnologia de vários países diferentes, não preciso depender de uma tecnologia de um americano só, por exemplo. O segundo aspecto é que ele tem uma preocupação ambiental muito forte. Eles, os técnicos que fizeram a elaboração do plano, deram um toque muito forte para a parte ambiental. Mas o plano cai rapidamente de qualidade, quando, por exemplo, propõe que a gente adote o mesmo modelo chinês de proteção para alguns produtos. O nosso medo, o medo das pessoas que estão na área de engenharia e na área de educação, é que você não faz industrialização por decreto. Nós temos uma herança antiga de ficar esperando que o decreto resolva, né? Mas o decreto não resolve. Ele cria espaços para que o trabalho seja feito. Você vê que não houve uma parceria com as federações de indústria do Brasil inteiro. Não houve uma parceria com os empresários. Quer dizer, era uma ação política para mostrar que ‘estamos preocupados com o assunto’, entende? Mas ele só abre a discussão. Não é um plano que vai nos trazer a industrialização como trouxe, por exemplo, o Juscelino Kubitschek. Ele abriu o País para as multinacionais abriu estrada e criou energia, criou centrais de energia, que era o que precisava para ter um plano de desenvolvimento industrial. Fez alguns acordos que foram bons no Brasil, outros que não foram tão bons. E se olharmos para o Brasil hoje, vemos que nós não temos rede ferroviária, a nossa rede ferroviária é muito restrita. Antes, nós fizemos estradas, fizemos energia e trouxemos as multinacionais. Saiu o primeiro arranque industrial. Você compara com esse plano e é um plano que não te diz o que fazer, ele não te dá uma dica, ele não te diz ‘olha, vamos por aqui’. Vai ter muita discussão em torno disso. Então assim, esse plano resolve algumas coisas, admite a diversidade tecnológica e se preocupa mais com o meio ambiente, mas cria algumas restrições antigas.
O senhor mencionou a falta de políticas públicas nos últimos anos. Acredita que faltou isso para esse plano de neoindustrialização?
É isso mesmo. É como se fosse assim, ‘que legal, vamos fazer uma festa’ e pronto. Mas ninguém fala se vai ter música, comida, cadeira, ou se as pessoas vão ficar em pé? Faltou a operação e essa parte tem que ser feita em parceria com a indústria. Você não faz um decreto e fala para indústria ‘cresça!’.
Diante desse cenário, o senhor vê um bom futuro para a engenharia aqui no Brasil?
Eu estou otimista no seguinte sentido: nós todos sabemos que o curso de engenharia tem que mudar. Nós todos sabemos que o curso de engenharia tem que ficar mais associado diretamente à produção, mais associado à gestão, mais associado ao design. E essa é a vantagem competitiva que a Mauá tem. Na Mauá, o aluno pode percorrer todos esses cursos, ele pode estar no curso de engenharia, mas frequentar disciplinas do curso de administração, do curso de design, do curso de ciências de computação. É uma maneira de ter uma formação mais aberta. A nossa formação antiga é a formação estruturada que nós tivemos na engenharia. Até agora ela não atrai jovens. O jovem hoje quer alguma coisa mais prática, mais rápida, que ele entenda com mais facilidade. Então, eu sou muito otimista, porque a engenharia sempre vai ser uma contribuição para a humanidade, mas a gente sabe o tamanho do desafio. É por isso que nós estamos fazendo um planejamento estratégico, mudando os os currículos, reprogramando os cursos. Porque se você me perguntasse se do jeito que está tem futuro, eu diria que não tem. Para ter futuro, ela precisa se adaptar a esse novo mundo e é disso que nós estamos correndo atrás agora.
E como alinhar esse futuro com a preocupação com o meio ambiente?
A engenharia e a sustentabilidade são irmãs gêmeas, sabe? Não tem nenhum fator que leve a engenharia a não estar orientada para a sustentabilidade. Nos programas antigos, isso não aparecia. Quando eu fiz engenharia, não tinha disciplina de sustentabilidade. Mas hoje ela faz tão parte da nossa vida, né? E nós estamos vendo que a Terra está dando sinais do seu cansaço, como se estivesse dizendo ‘cuidem melhor de mim, porque eu não estou aguentando’. A engenharia sempre teve uma forma sistemática de cuidar, aí é que ela pode ajudar, tanto é que a engenharia ambiental ajudou muito o Brasil.
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